O egoísmo dos outros

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    O que sentimos acerca do comportamento dos outros depende de seu efeito sobre nós;
    o que sentimos acerca do nosso próprio comportamento para com os outros
    depende da ação por eles empreendida. (Skinner, 1974/2006, p. 166)
    Aquele rapaz, que mal olha para os lados, acabou de furar a fila. E você estava há quarenta minutos aguardando ser atendido na má qualidade de um órgão público. Você engole em seco, sente o coração disparar em ultraje, mas ignora. O que serão mais dez minutos com ele à sua frente? Melhor do que fazer um escândalo e correr o risco de ser convidado a se retirar do local pelo segurança. Isso porque você sabe, ao longo de sua história de vida, que pouco ou nada adiantou lutar pelos seus próprios direitos em outros momentos. Pouco ou nada adiantou exigir do garoto maior do que você, aos 8 anos, que não roubasse seu brinquedo. Ele zombou da sua valentia e tornou a vítima o foco de deboche. Pouco ou nada adiantou pedir educadamente a alguém que não o incomodasse, pois sua gentileza foi interpretada como fraqueza e essa pessoa parece se divertir com a sua diplomacia. Você encara o rapaz que está notavelmente confortável à sua frente e silenciosamente se pergunta: Por que adiantaria agora?

    Essas situações podem não representar exatamente uma experiência que viveu, mas provavelmente você terá outras semelhantes a partilhar caso lhe perguntassem: Já se sentiu prejudicado pelo comportamento de outra pessoa?

    A capacidade de controlar a si mesmo quando diante de uma situação que provoca raiva exige autoconhecimento. E se você está lendo um artigo como este, certamente já procura elucidar dúvidas e acompanhar publicações científicas que possam favorecer seu desenvolvimento pessoal. Logo, este não deve ser um grande empecilho para você. Também não o é para mim. Constantemente nos esforçamos em melhorar nossas habilidades e nosso desempenho pessoal e profissional; constantemente nos esforçamos em desenvolver um repertório que nos permita contracontrolar situações estressantes. O problema está, na verdade, justamente neste processo. Exige demasiado esforço de nós, envolve prioritariamente o nosso investimento, o ajuste comportamental para lidar com outro.

    Esse outro que por vezes parece não merecer sequer nosso tempo, que fura a fila com uma clareza crua de quem não se importa em nos prejudicar, é que nos faz empenhar esforços em sermos hábeis para lidar com a raiva e a frustração que seus comportamentos causam. Minha proposta, no entanto, não é abordar nosso vasto repertório comportamental de manejo das situações-problema que encontramos. Venho abordar exatamente aquilo que nos incomoda: O egoísmo dos outros.

    O que leva uma pessoa a tirar vantagem sobre o prejuízo – e algumas vezes impotência – de outra? O que leva esta mesma pessoa a não sentir remorso ou culpa pelo mal que provoca? A resposta reside no conjunto de experiências vividas por essa pessoa, que selecionaram os comportamentos que hoje compõem seu repertório.

    Sabemos que há três níveis de seleção do comportamento, segundo Skinner: filogenético, ontogenético e cultural. O nível se seleção filogenético se refere à nossa herança genética, capaz de influenciar o limiar de resposta do nosso organismo aos estímulos, embora não possamos realizar grandes intervenções sobre ela. O nível de seleção ontogenético se refere à nossa história de vida, às diferentes contingências com as quais tivemos contato. E, finalmente, o nível de seleção cultural se refere à nossa comunidade verbal que extingue, reforça ou pune nossas respostas aos estímulos, moldando assim nosso repertório comportamental. Estes três níveis de seleção ocorrem simultaneamente, o que torna necessário analisá-los a cada vez que observamos um comportamento a fim de realmente compreender sua função ao organismo que o emitiu.

    Imagine uma criança com a face delicadamente simétrica, com sua pele suave e livre de quaisquer marcas, e com um sorriso que provoca covinhas. Essa é a herança genética do seu organismo, que a ajudou a se adequar aos atuais padrões da beleza infantil sócio-historicamente construídos. Essa criança é a primeira filha de um jovem casal, é a primeira neta dos avôs paternos e maternos, é a primeira sobrinha da família. Ela sempre recebeu demasiada atenção, bastando elevar os braços para que algum adulto a pegasse no colo. Sua história de vida é repleta de gratuito reforço social. Sua família é de ascendência italiana, expressiva e unida, constantemente valorizando uns aos outros com festividades e presentes. Nada como um especial encontro para que os adultos animadamente ouvissem a única criança da família narrar suas peripécias na escola; nada como receber um brinquedo dos tios para lembrar-se deles depois de vê-los. Culturalmente, essa criança teve frequentes demonstrações de sua importância na comunidade verbal de origem.

    Portanto, desde a infância, não teve clareza do que realmente fazia para receber toda a atenção dedicada. Não desenvolveu sua capacidade de discriminar as contingências dos seus próprios comportamentos. Se esta criança não tiver a possibilidade de observar a relação entre o que faz e as consequências que provoca no ambiente, poderá se limitar a ter a si própria como referência, tornando-se inapta em avaliar-se também por meio dos outros.

    Este é apenas um exemplo ilustrativo. É importante dizer que este processo não interfere necessariamente na capacidade de aprendizagem das habilidades sociais. O rapaz que fura uma fila, por exemplo, pode ser competente socialmente, mas seu repertório comportamental foi selecionado por constantes contingências nas quais geralmente teve vantagens gratuitas ou não discriminou a relação entre seu comportamento e a consequência apresentada no ambiente. Portanto, obviamente, ele sabe que o certo seria integrar-se ao fim da fila. Ao optar por furá-la, podemos dizer que ele não se importa em se beneficiar das demais pessoas.

    “Não se importar”, por sua vez, indica um possível prejuízo ao desenvolvimento moral. A partir do momento em que o sujeito considera a si mesmo como referência, avaliará seus comportamentos de maneira dissociada à avaliação dos outros. De modo indiscriminado, seu juízo sobre o valor moral dos seus comportamentos será diferente do valor moral que as pessoas de outros ambientes atribuiriam.

    E se nos perguntarem “Uma pessoa é moral porque age moralmente, ou age moralmente porque é moral?” devemos responder: “Nem uma coisa nem outra”. Ela age moralmente e a consideramos moral porque ela vive num tipo particular de ambiente. (Skinner, 1974/2006, p. 166-167)

    É quando uma pessoa apresenta dificuldade em expressar preocupação e empatia com os outros que a intitulamos egoísta. Mas, e os que se incomodam demasiadamente com tais atitudes? Por que não agem tal como o sujeito que fura a fila e obtêm vantagens sobre os outros? Talvez a indignação diminuísse se também atuassem de modo egoísta. Talvez a frustração e a impotência fossem substituídas pela satisfação de não se importar com as consequências que causassem.

    A resposta a essa pergunta é simples: Da mesma maneira que o egoísta aprendeu a não sentir culpa ao se beneficiar dos outros, os que se incomodam com tal postura aprenderam a valorizá-los. Conforme vimos no início deste artigo, contudo, os que se incomodam com os egoístas podem pouco expressar sua frustração devido a uma longa história de punições. Confrontar um egoísta exige maior investimento comportamental do que administrar as consequências que provoca, no entanto, não podemos ignorar que tal conduta também atua como contingência favorável para ele.

    Analisando sob esta perspectiva, aos que se incomodam com aqueles que “não se importam”, convém refletir: Realmente não adiantaria intervir?

    Referência
    Skinner, B. F. (1974). Sobre o Behaviorismo. 10. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

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