Estamos todos hipnotizados!

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A hipnose é um dos processos naturais mais surpreendentes da natureza. Ela pode ocorrer em vários animais e não é restrita apenas a humanos, entretanto, a hipnose humana tem um caráter especial: é realizada, principal, mas não unicamente, através da linguagem verbal. Este texto se limitará a falar sobre hipnose humana.
Hipnose não tem nada de mentalismos ou truques baratos
A palavra hipnose vem do grego e do latim (hipnos significa sono; osis, em latim, ação ou processo). Hipnos era o deus grego do sono e da sonolência, porém, hipnose não é sono, mas sim uma condição especial na qual nos tornamos mais suscetíveis às mudanças ambientais (Bandler, 1984). A palavra “sono”, no entanto, possui um significado que lembra o estado hipnótico: a pessoa parece estar dormindo – e muitas vezes realmente dorme – mas, na verdade, está “acordada para dentro”, isto é, ela está totalmente desperta em seus comportamentos privados, atenta para seus pensamentos e sentimentos – que são atividades cerebrais acessíveis apenas para o próprio indivíduo. Tudo isso mostra como a hipnose é um processo importante no autoconhecimento.
Hipnose não é um processo mágico, misterioso, espiritual. É um processo psicológico muito natural. Imagine quando você viu um comercial de TV e quis comprar aquele produto. Imagine a moda em que uma grande parcela da população usa a mesma roupa ou segue uma tendência. Imagine como uma pessoa seduz a outra e a convence a se apaixonar por ela utilizando palavras, gestos, comportamentos e determinadas expressões faciais. Tudo isso é hipnose. Provavelmente, você já utilizou hipnose em diversas ocasiões, mas com outros nomes: comunicação efetiva, propaganda, sedução etc (Bandler, 1984).
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Apesar de existirem diversos nomes para a hipnose, nos restringiremos ao nome convencional, tendo em mente que qualquer modificação no estado de consciência de uma pessoa pode ser chamado assim.
Hipnose não é um recurso que pode ser aprendido por poucos. Todos são hipnotizáveis e todos podem hipnotizar. As qualidades necessárias para um hipnólogo ou hipnotizador são as mesmas de um comunicador eficiente – qualidades estas que podem ser aprendidas com treinamento e aperfeiçoamento.
Existem diversas definições de vários autores. Seguindo as regras de uma ciência, buscarei sempre as explicações mais simples e úteis possíveis, buscando a desmistificação que há por trás da hipnose.
Hipnose é basicamente modificação de comportamentos, pensamentos ou sentimentos de forma direta, através de comandos verbais e distração da atenção. Quando uma pessoa tem sua atenção distraída para um determinado ponto, ela se torna mais suscetível a receber comandos de voz diretos (Costa, 2012).
Uma pessoa pode ser hipnotizada contra a vontade,
do mesmo jeito que pode ser condicionada sem saber.
Hipnose como um condicionamento clássico
O fisiólogo russo Ivan Pavlov descobriu, a partir de experimentos com cães, o condicionamento clássico. Funciona basicamente assim: um estímulo neutro (uma campainha) é acompanhado de um estímulo incondicionado (fome do cachorro e, consequentemente, a apresentação de comida). Após um tempo, a campainha fica condicionada à fome. Ao ouvir o som da campainha, o cachorro terá as mesmas sensações que tem antes de comer – seu organismo prepara-se para receber a comida, independente de recebê-la ou não (Costa, 2012).
O que isso tem a ver com hipnose?
Na hipnose, acontece algo semelhante. O hipnotizador usa um estímulo neutro (sua voz) e associa com um estímulo que pode ser percebido pela pessoa. “Enquanto eu conto de 1 até 5, você sente sono, muito sono”. A palavra enquanto faz a associação e um estímulo antes sem nenhum significado relacionado ao sono (a voz, a contagem) torna-se condicionado. “Eu conto de 1 a 5 e estalo meus dedos cinco vezes e enquanto eu faço isso, você sente uma vontade irresistível de dormir, durma, entregue-se, à medida que eu conto, você dorme, e eu conto 1, você sente sono e mais sono…”. 
Quando um hipnotizador diz “Olhe para meus dedos e à medida que eu for aproximando meu dedo de seus olhos, eles vão ficando pesados, cada vez mais pesados”. A aproximação do dedo do hipnotizador (que pode ser qualquer outro objeto: relógio, lápis, pêndulo) não tem absolutamente nenhuma relação com os olhos da pessoa ficar pesados, mas quando o hipnotizador começa a balançar seu dedo de um lado para o outro, naturalmente o olho da pessoa se cansará e haverá uma relação, em seu cérebro, que a sua frase tem algum sentido. O hipnotizador continua: “Meu dedo se aproxima mais e mais e quanto mais se aproxima você sente-se cansado, com sono, seus olhos precisam ficar fechados”. O hipnotizado correlaciona os dois fatos: seus olhos ficam cansados porque é realmente cansativo ficar olhando para um dedo de um lado para o outro, porém, a frase e ênfase dada pelo hipnotizador torna mais associável de que uma coisa tem a ver com a outra e, de repente, a pessoa está seguindo o que o hipnotizador diz, então chega o momento de entrar no transe e ele afirma: “Dorme!”.

O cansaço natural dos olhos, o comando direto do hipnotizador levam a pessoa a um estado, ela fecha os olhos e “dorme”, este é o transe hipnótico. A partir de então se torna muito mais fácil dar comandos. Pode-se dizer que ela vai ficar com as mãos grudadas, não conseguir abrir os olhos, alucinar algum objeto que não está realmente na sua frente e diversas outras coisas.

Dormiram?

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BANDLER, Richard. GRINDER, John. Atravessando: Passagens em Psicoterapia. Summus. São Paulo: 1984.
BANDLER, Richard. GRINDER, John. Sapos em príncipes. Summus. São Paulo: 1982.
COSTA, Marlus Vinicius. Hipnose na prática clínica. Atheneu. São Paulo: 2012. 

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