Cérebro dos primatas está programado para ter medo de cobras

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Uma pesquisa publicada nesta segunda-feira sugere que o perigo representado pelas cobras moldou a evolução dos ancestrais humanos e dos outros primatas. O estudo, feito em uma parceria entre cientistas brasileiros, americanos e japoneses, mostrou que existem células nervosas no cérebro dos macacos especificamente designadas para responder, de modo quase imediato, à ameaçadora presença desses animais.
CONHEÇA A PESQUISA

Título original: Pulvinar neurons reveal neurobiological evidence of past selection for rapid detection of snakes

Onde foi divulgada: periódico PNAS

Quem fez: Hisao Nishijo, entre outros pesquisadores

Instituição: Universidade da Califórnia, EUA, Universidade de Brasília e Universidade de Toyama, Japão

Dados de amostragem: Dois macacos japoneses (Macaca fuscata) expostos a uma série de imagens em uma tela de computador. Enquanto eles olhavam para fotos de cobras, rostos ou mãos de outros macacos e formas geométricas, os pesquisadores analisavam a atividade de 91 neurônios em seu cérebro.

Resultado: Os cientistas perceberam que a imagem das cobras gerava respostas mais rápidas e mais fortes, além de atingir um número maior de neurônios

Os cientistas analisaram como os neurônios visuais no cérebro dos primatas respondiam a uma série de imagens mostradas na tela de um computador: cobras, rostos de outros macacos e formas geométricas. O resultado foi que a imagem dos répteis induzia respostas mais rápidas e fortes que todas as outras.
Segundo Lynne Isbell, antropóloga da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, que participou do estudo, o fato de os neurônios responderem de modo mais forte às serpentes do que ao rosto de outros macacos é surpreendente, uma vez que os primatas são animais altamente sociais. “Nós estamos encontrando resultados consistentes com a ideia de que as cobras têm exercido forte pressão seletiva sobre a evolução dos primatas”, diz Lynne.
Teoria das cobras — A pesquisa foi baseada em estudos realizados pela antropóloga desde 2006, que culminaram no livro The Fruit, the Tree and The Serpent (O Fruto, A Árvore e a Serpente, inédito em português). Nele, Lynne traça uma série de mitos — desde a cobra que tentou Adão e Eva no Éden bíblico até a serpente que envenena Thor na mitologia nórdica — para mostrar o papel central do animal na religião e folclore humanos.
O objetivo de sua teoria é entender a relação ancestral de medo, respeito e até veneração que os seres humanos têm com as cobras — relação essa que está presente mesmo entre indivíduos que nunca se deparam com esses animais antes. Segundo a pesquisadora, isso teria acontecido por causa do impacto enorme das cobras na evolução dos primatas.
Os mamíferos modernos e as serpentes grandes o suficiente para devorá-los evoluíram praticamente ao mesmo tempo, há cerca de 100 milhões de anos. Já as cobras venenosas surgiram há 60 milhões de anos. As disputas de vida ou morte na copa das árvores e nas pradarias teriam sido responsáveis por selecionar características comportamentais e cerebrais dos ancestrais primatas. Segundo a pesquisadora, esse é o motivo para os primatas possuírem uma boa visão de curto alcance: para enxergar e evitar as cobras venenosas.
O medo mora no cérebro — Em seu laboratório na Universidade de Toyama, no Japão, o neurocientista Hisao Nishijo estuda os mecanismos neurais responsáveis pela emoção e o medo em macacos, especialmente as respostas instintivas que ocorrem sem qualquer tipo de aprendizagem ou memória. Um dos métodos que o pesquisador utilizava para causar medo nas cobaias era, justamente, a visão de cobras. Quando Nishijo ouviu falar de teoria de Lynne, decidiu explorá-la, a fim de explicar de onde vinha esse intenso temor.
O pesquisador estudou o cérebro de dois macacos japoneses (Macaca fuscata) enquanto eles eram expostos às imagens na tela de um computador. Ele analisou 91 neurônios localizados no pulvinar medial e dorsolateral, regiões envolvidas na atenção visual e no processamento rápido de imagens ameaçadoras.
Como resultado, descobriu que, não só a resposta à imagem da cobra foi mais rápida, como também atingiu o maior número de neurônios. “Os resultados mostram que o cérebro tem circuitos neurais especiais para detectar esses animais, e isto sugere que esses circuitos foram codificados em seu DNA”, diz Nishijo.
Os pesquisadores destacam o fato de os dois macacos terem sido criados em cativeiro e nunca encontrado uma cobra antes — seu medo era puramente instintivo. Segundo o estudo, isso sugere que existe uma base neurobiológica para sensibilidade visual dos primatas às cobras, que os torna capazes de detectá-las de modo instantâneo. A habilidade de perceber sua aproximação e escapar de suas presas se tornou essencial para a sobrevivência dos ancestrais primatas, o que teria moldado sua evolução. “Eu não vejo outra maneira de explicar a sensibilidade desses neurônios às cobras, exceto por meio de um caminho evolutivo”, disse Lynne Isbell.
Fonte: Revista Veja 
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