De onde vem sua indecisão?

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A ideia de liberdade pode ser operacionalizada em termos de liberdade de escolha. Refiro-me à escolha dos mais diversos aspectos da nossa vida cotidiana. Qual rua irei para meu trabalho, o que irei almoçar, qual roupa vou usar hoje (alguns pensam mais nisso do que outros) e por ai vai. Vivemos escolhendo a todo momento, na verdade, podemos classificar de forma ampla nosso comportamento cotidiano na grande categoria de “escolher fazer isso ao invés daquilo” (Baum, 2010). Porém, toda escolha ocorre em um ambiente com um número limitado de opções. Na verdade, esse limite de opções nos permite definir objetivamente as situações como tendo maior ou menor grau de liberdade (Skinner, 2002).

A disponibilidade de opções de escolha é essencial para a noção de liberdade
Um filme que retrata como a liberdade é associada à possibilidade de escolha que dispomos é o excelente Good Bye, Lenin! (Adeus, Lênin!). Neste filme a mãe do protagonista entra em coma durante a Alemanha Comunista e acorda acreditando que o muro de Berlim ainda existe. O filho precisa esconder que o regime comunista caíu, pois sua mãe adorava o regime e a vida que tinha.
Existe uma palavra alemã que representa o sentimento de saudade por esse período, Ostalgie. O curioso é que mesmo com a explosão de novos produtos trazidos pelo capitalismo, o fim de algumas marcas antigas foi visto como uma diminuição das alternativas de escolha, e não foi tolerada pela população.

“Muitos negócios na Alemanha começaram a atender àqueles que sentiam Ostalgie, comercializando produtos que imitavam os antigos e faziam com que essas pessoas se lembrassem da vida sob o antigo regime. Atualmente é possível adquirir alimentos de marcas da Alemanha Oriental que haviam desaparecido, obter vídeos e DVDs com programas da antiga televisão pública estatal, e comprar carros das antes difundidas marcas Wartburg e Trabant.” (Wikipedia)

Vários estudos da Análise do Comportamento (AC) (Karsina et al., 2011; Schmidt et al., 2009; Tiger et al., 2006) investigaram experimentalmente o tema da preferência por situações com mais alternativas de escolha, ou mais “Liberdade”. Schmidt, Hanley e Layer (2009) fizeram um experimento simples e ilustrativo de como investigamos a preferênia por ter mais escolhas disponíveis, mesmo que nunca escolhamos algumas das alternativas adicionais. Eles apresentaram a seis crianças pré-escolares uma tarefa (sempre a mesma) com três alternativas de consequenciação diferentes: 
  • A escolher a alternativa 1 a PRÓPRIA CRIANÇA indicava um dentre os 5 diferentes tipos de reforçadores e recebia congratulações do pesquisador; 
  • Na alternativa 2 o EXPERIMENTADOR escolhia um dentre os 5 diferentes tipos de reforçadores e recebia congratulações do pesquisador; 
  • Na alternativa 3 a criança recebia apenas congratulações (para fins de controle).
No experimento acima 5 dos 6 participantes escolheram consistentemente a Alternativa 1. Podemos considerar que em uma situação com limitadas alternativas de escolha, a preferencia é observada sempre em relação às demais alternativas. Como as crianças do estudo anterior escolheram a Alternativa 1 consideravelmente mais vezes do que as demais alternativas, elas apresentaram preferencia por essa alternativa. O estudo de Schmidt e seus colaboradores indica que essas crianças preferem ter mais liberdade de escolha do que abrir mão dessa liberdade.
Tendemos a considerar nossas decisões em termos absolutos. Qual seu filme preferido? Sua banda preferida? Chegamos ao cúmulo das entrevistas fast-food: Pelé ou Maradona? Beatles ou Stones? Pudim ou Cocada? Mas é importante nos darmos conta de que nossas decisões são sempre relativas. Mesmo quando já tomamos uma decisão, conhecer as demais alternativas pode mudar completamente nossas preferências (Ariely, 2009).
Os dados sobre escolha e preferência são aparentemente interpretados de forma diferente por Analistas do Comportamento e grande um número de pesquisadores do comportamento humano. Na verdade, há toda uma área de pesquisa que tem se consolidado nos estudos de Psicologia do Bem-estar (well-being) e na Economia Comportamental que consideram ter muitas opções de escolha aversivo (Schwartz, 1999; Schwartz & Chapman, 2000). Uma série de palestra no TED Talks (What makes us happy?) nos dá uma boa idéia sobre essas abordagens.
Mas suspeito que estamos falando de liberdades diferentes nessas pesquisas. Os estudos da AC utilizam, em sua maioria, situações de escolha (como no estudo com as crianças). Os demais estudos, primariamente enfocados nos vieses cognitivos, enfocam nos sentimentos que as diferentes situações de escolha geram (no caso do estudo do bem-estar) ou utilizam métodos de investigação de escolha em situações hipotéticas ou questionários.
Existe outra diferença importante entre a AC e as pesquisas da área do well-being, otimismo e economia comportamental: escopo do que se considera ser a liberdade. Desde os estudos clássicos a AC investiga a preferência por situações mais ricas em termos de escolhas concretas, analisando o processo de desenvolvimento da preferência. Relacionar a preferência por mais alternativas de escolha à felicidade (Schwartz, 1999), ao sentimento de auto-determinação (Iyenga & Lepper, 1999) ou a outros construtos cognitivos não traz quase nenhum ganho para a investigação do fenômeno da preferência em si.
Não surpreendentemente, estudos fora da AC começaram a estudar as escolhas que fazemos efetivamente em situações reais de escolha. Método este que andava esquecido pelas teorias cognitivas como medida de preferência. Para estas teorias foi preciso criar uma noção de preferência que explicitasse a relação entre preferência e escolha: Choice-Induced Preference (Preferência Induzida pela Escolha) (Sharot el at., 2012). O interessante é que esses pesquisadores estão (re)descobrindo que humanos apresentam o padrão de preferir o que já haviam escolhido anteriormente. Parece, então, que podemos agora confiar no que efetivamente escolhemos (ação situada em um ambiente concreto) em detrimento do que falamos que vamos escolher.
Outros pesquisadores fora da AC também consideram a escolha efetivamente registrada como uma boa medida de preferência, (Izuma & Murayama, 2013). Todavia, mesmo esses pesquisadores de tradição cognitivo social, investigaram a preferência sempre relacionando-a com algum outro fenômeno cognitivo. O trabalho de Brehm e Cohen (1959) é considerado seminal na investigação desse fenômeno. Eles investigaram a influência da livre-escolha sobre as escolhas futuras. Foi observado que após algumas sessões de avaliação da preferência as alternativas preferidas eram escolhidas cada vez mais e as deferidas escolhidas cada vez menos. Brehm e Cohen explicaram esses resultados como consequência de um outro fenômeno mais geral, a Dissonância Cognitiva (Cognitive dissonanceFestinger, 1957). Mas, infelizmente, o experimento não avalia o papel das consequências no processo de escolha.
Há algumas décadas, no interior do país, praticamente a única opção de refrigerante eram as Tubaínas. Hoje em dia, na maioria das cidade do Brasil, há opções de refrigerantes e guloseimas suficientes para que sua marca preferida seja encontrada do Caburaí (Oiapoque?) ao Chuí. Apesar de pequenas marcas locais terem representado, por muitos anos, uma realidade de escassez de escolhas, grandes marcas precisam se render ao clamor das massas vez por outra. Em uma caso famoso, uma gigante americana teve que manter em circulação um tal Guaraná Jesus (siga o link para saber mais) devido à força do hábito. Uma questão importante surge, se preferimos ter mais alternativas de escolha (“liberdade”), mas tendemos manter nossas escolhas no nível de conforto do que já conhecemos, como essa preferência pela variabilidade de opções é construída?
Podemos pensar que tivemos nos Maranhão nossa própria versão da Ostalgie. De fato, nos dois casos as pessoas não se contentaram com as alternativas disponíveis. Porém, nesses casos, há um histórico claro de desenvolvimento da preferência, as pessoas já sabiam o que esperar das suas marcas tradicionais. Mas será que elas continuam escolhendo as mesmas marcas porque é muito “sofrimento” ter que decidir entre as demais? Ou apenas não querem trocar de carro/computador/celular já que o histórico de uso foi satisfatório? Estudos sobre a escolha recentes ganharam muita atenção e nos permitem explicar assuntos importantes do nosso dia-a-dia (vide a força da Economia Comportamental). Nós temos muito a ganhar se as perguntas levantadas nessa área forem investigadas em situações mais reais. 
Referências:
Ariely, D. (2009). Predictably irrational: the hidden forces that shape our decisions. London: Harper.
Baum, W. M. (2010). Dynamics of Choice: A Tutorial. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 94(2), 161–174.
Izuma, K., & Murayama, K. (2013). Choice-Induced Preference Change in the Free-Choice Paradigm: A Critical Methodological Review. Frontiers in Psychology, 4. 
Karsina, A., Thompson, R. H., & Rodriguez, N. M. (2011). Effects of a History of Differential Reinforcement on Preference for Choice. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 95(2), 189–202. 
Sharot, T., Fleming, S. M., Yu, X., Koster, R., & Dolan, R. J. (2012). Is choice-induced preference change long lasting? Psychological science, 23(10), 1123–1129.
Schmidt, A. C., Hanley, G. P., & Layer, S. A. (2009). A further analysis of the value of choice: Controlling for illusory discriminative stimuli and evaluating the effects of less preferred items. Journal of Applied Behavior Analysis, 42(3), 711–716. doi:10.1901/jaba.2009.42-711
Schwartz, J. A., & Chapman, G. B. (1999). Are more options always better? The attraction effect in physicians’ decisions about medications. Medical decision making: an international journal of the Society for Medical Decision Making, 19(3), 315–323.
Schwartz, B. (2000). Self-determination: The tyranny of freedom. The American Psychologist, 55(1), 79–88.
Skinner, B. F. (2002). Beyond Freedom & Dignity. Indianapolis, Ind.: Hackett Pub.
Tiger, J. H., Hanley, G. P., & Hernandez, E. (2006). An Evaluation of the Value of Choice with Preschool Children. Journal of Applied Behavior Analysis, 39(1), 1–16.

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