Coincidências: destino, paranormalidade ou só acaso?

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A maioria das pessoas tende a desconfiar de coincidências: quando um amigo liga no instante exato em que estamos pensando nele, quando uma pessoa tem um sonho premonitório e não embarca num avião que acaba caindo, ou quando uma oportunidade fantástica aparece no momento em que estamos de saco cheio do emprego atual – obviamente há “algo mais” por trás disso, seja transmissão de pensamento ou a mão do destino, certo?
Editora Globo
Bom, quem sabe? Talvez. Mas acontece que nem o destino, nem o paranormal são necessários para explicar até mesmo as coincidências mais extraordinárias, do tipo “uma chance em um milhão”. Para isso, basta apenas o bom e velho acaso. A aura mística que parece envolver os eventos fortuitos é provocada pela inclinação, muito humana, de enxergar padrões onde não existe nenhum – como ver faces nas nuvens – e pelo fato de que, em geral, somos péssimos em avaliar probabilidades.
A incompetência da intuição humana, desarmada, para lidar com questões de chance e acaso é uma das razões pelas quais tivemos de inventar a teoria das probabilidades e a estatística: para corrigir as impressões erradas que acabamos formando quando seguimos cegamente a nossas impressões subjetivas sobre o normal e o extraordinário.
Há diversos trabalhos sobre isso. Se você lê em inglês, recomendo fortemente o livro How We Know What Isn’t So: The Fallibility of Human Reason in Everyday Life (Como Sabemos O Que Não É Assim: a Falibilidade da Razão Humana na Vida Cotidiana), de Thomas Gilovich, em que se explica, por exemplo, por que a ideia da “mão quente” no basquete – a crença de que um jogador tem mais chance de fazer a cesta se já acertou o arremesso imediatamente anterior – é bobagem.
Uma das falhas da intuição é que ela ignora o tanto de vezes em que nada acontece: por exemplo, o número de pessoas que têm medo de avião, sofrem com sonhos “premonitórios” na véspera do voo, causados pelo estresse da antecipação, desistem de voar – e o avião não cai. Essas pessoas, afinal, não têm incentivo nenhum para procurar a mídia (é possível que elas se sintam até um pouco embaraçadas), ao contrário daquelas cujos sonhos “se realizam”.
Também não prestamos atenção no número de vezes em que pensamos num amigo e ele não telefona, ou no número de cestas perdidas por um jogador de basquete logo depois de um arremesso certeiro. Mas cada não-evento desses é uma oportunidade para a coincidência acontecer: e se o número de oportunidades é alto, a coincidência deixa de ser tão espantosa assim, e se torna fruto do acaso.
E o número de oportunidades, num planeta com 7 bilhões de habitantes, não é nada desprezível, mesmo para as coincidências mais surpreendentes. Por exemplo, um evento que só acontece com uma pessoa em cada milhão pode parecer excepcional para o indivíduo afetado, mas num país com quase 200 milhões de habitantes, como o Brasil, é de se esperar que 200 pessoas acabem passando pela experiência – seja ela um sonho profético ou um telefonema atraído por “telepatia”.
Fonte: Revista Galileu 
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