Afinal, analistas experimentais do comportamento gostam de animais?

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Obviamente essa é uma questão mais conceitual do que empírica. Mas deixando as análises conceituais sobre o que seria “gostar” de lado, já há algum tempo tenho me questionado acerca do uso de animais não humanos em pesquisas em Análise Experimental do Comportamento.
Certamente, não ousarei questionar se devemos ou não usar animais em pesquisas inéditas para produção de conhecimento. Essa é uma questão para lá de polêmica que não me sinto preparado para me posicionar sobre ela nesse momento. Porém, não resta dúvida de que muitas pesquisas com esse perfil utilizam animais de forma desnecessária, produzindo um conhecimento com manipulações tão específicas de variáveis que nunca poderia ser generalizado para humanos. A velha desculpa do conhecimento pelo conhecimento não é suficiente para justificar, em absoluto, a exposição de animais não humanos a um sofrimento desnecessário. Mesmo que as pesquisas com não humanos produzam conhecimentos úteis na descrição do comportamento humano, ainda cabe a questão: o que torna a vida de um animal mais dispensável que a de um humano?
Não ponho em dúvida a importância histórica da pesquisa com animais não humanos para a Análise Experimental do Comportamento. Saberíamos muito menos sobre as variáveis que controlam o comportamento se não tivéssemos sacrificado não humanos ao longo de todos esses anos. Por outro lado, uma questão que deve ser levantada, mas que não abordarei aqui hoje, é se ainda é justificável a realização de pesquisas com não humanos para a produção de conhecimento, mesmo que a questão acima seja motivo de extenso debate. Questão cuja qual eu mesmo não tenho opinião formada sobre ela e, no entanto, existe outra que não me traz qualquer dúvida: Devemos utilizar não humanos em pesquisas didáticas em Psicologia, mais especificamente, em Análise do Comportamento? A resposta é, em minha opinião, não.

Talvez alguns de vocês estejam confusos, já que em nosso livro (Moreira & Medeiros, 2007) descrevemos diversos estudos com não humanos e temos capítulos que explicam como realizar aulas práticas de laboratório com ratos albinos Wistar. Realmente soa como uma incoerência, uma vez que já ministrei tais disciplinas diversas vezes em minha carreira. Porém, me dou o direito de mudar de opinião, e foi o que aconteceu.
De uns anos para cá, comecei a me envolver com a causa animal e a ter mais contato com discussões sobre o tema. Desse modo, comecei a avaliar a minha prática como professor de Análise Experimental do Comportamento. Os argumentos são diversos, relacionados ou não com a causa animal; com embasamento ou não em Análise do Comportamento. Vamos passar brevemente por alguns deles:

  1. 1.      Vou começar por aquele que subjaz os demais. Os animais não humanos que participam de pesquisa sofrem (novamente vou me eximir de discussões conceituais acerca do que é ou não sofrimento e se é antropomorfismo utilizar o termo para falar de animais não humanos). Os sujeitos não humanos de pesquisa são gerados para passar a vida toda em uma gaiola que mal comporta as suas dimensões; pouco interagem com outros de sua espécie; são manipulados semanalmente, o que certamente é um estressor (imagine um gigante nos manuseando, pegando-nos de forma desajeitada pelo tronco ou pelo rabo se nós o tivéssemos); passam fome (quando mantidos a 80% do peso calculado com o livre acesso ao alimento) ou sede (privação de 48 horas ou mais). Quem já fez dieta sabe o quanto é aversivo. Agora basta imaginar o que é passar por dieta ao longo de toda a vida, comendo um único tipo de comida. Sem falar na sede. Basta o leitor tentar passar 24 horas sem ingerir líquidos para ter uma noção. Será que toda essa existência miserável repleta de sofrimento é justificável para que alunos de início de curso de Psicologia verifiquem de forma prática os princípios da Análise do Comportamento? Muitos alunos se compadecem ao saberem que os animais serão exterminados após um semestre de aula. Não tenham dúvida, a imolação, que em muitos laboratórios é cruel, é um alívio para uma existência como essa.
  2. 2.      Os experimentos didáticos são replicações de estudos de mais de meio século. Esses experimentos já foram filmados e estão disponíveis em diversas mídias, inclusive no Youtube. Os estudantes poderiam assisti-los e relatá-los no formato de relatório acadêmico. Com os registros de frequência absoluta, relativa, acumulada e de taxas de resposta. Porém, surge o argumento de que, com os vídeos, os alunos não teriam a possibilidade de manipular diretamente as variáveis e verificar o seu efeito sobre o comportamento em estudo. Em primeiro lugar, os experimentos costumam ser feitos em grupos, nos quais há divisões de tarefas. Os alunos encarregados de registrar os dados, somente assistirão a realização do experimento e também não manipularão as variáveis. Logo, nem todos os estudantes, mesmo em experimentos com animais não humanos, manipularão diretamente as variáveis independentes. Não existem estudos empíricos sobre isso, porém, não parece haver indícios de que a aprendizagem dos princípios básicos seja favorecida pela execução do experimento ao invés de meramente assisti-la.
  3. 3.      Ainda que se insista na necessidade da experiência em manipular variáveis independentes e verificar o seu efeito sobre o comportamento, existem alternativas muito menos cruéis. Nesse momento, me recordo de uma palestra que assisti do Dr. Emmanuel Zagury Tourinho em 2001. Nela, ele justamente questionava a realização de pesquisas didáticas com animais não humanos e sugeria que uma boa alternativa seria realizar tais pesquisas com humanos. Curiosamente, alguns anos depois, eu e o Dr. Márcio Borges Moreira, tivemos um problema com os ratos que usaríamos nas práticas de laboratório durante o semestre. Um fungo resultou no extermínio de todos os animais no início do semestre e não teríamos como repô-los em tempo. Naquela oportunidade, nos valendo das habilidades de programador do Márcio, planejamos experimentos com humanos e ele fez o programa. Para a nossa surpresa, no primeiro uso do programa, conseguimos fazer as práticas de nível operante, comportamento supersticioso, modelagem e extinção em uma única sessão. Nesse experimento, cujos participantes eram universitários de primeiro semestre, conseguimos fazer em meia hora o que levaríamos quatro sessões de 50 minutos com animais. Nossos participantes, sou eternamente grato a eles, perderam apenas meia hora de seu tempo. Alguns, inclusive, relataram ter se divertido. Depois ajustamos os programas para as práticas de esquemas de reforçamento e de discriminação. Novamente experimentos simples, rápidos e perfeitamente adequados para ilustrar os princípios comportamentais. Infelizmente, aquela instituição onde trabalhávamos havia investido uma boa soma em caixas de Skinner importadas e voltamos a usá-las para o azar de muitos ratos.
  4. 4.      O último argumento tem relação com a associação feita, ainda que equivocadamente, da Análise do Comportamento com uma Psicologia de ratos e pombos. Os analistas do comportamento sempre apresentam a velha queixa da confusão entre a Análise do Comportamento com as demais versões de Behaviorismo. Também se empenham para demonstrar que os conceitos da Análise do Comportamento são capazes de compreender os comportamentos humanos complexos. Porém, não há muita correspondência dizer-fazer aos olhos dos estudantes. Na maioria dos currículos dos cursos de graduação em Psicologia no Brasil, as disciplinas obrigatórias de Análise do Comportamento são aquelas que tratam dos princípios básicos e, no máximo, da filosofia Behaviorista Radical. Os alunos só se aprofundarão em disciplinas optativas e em estágios. Fora o fato de que as primeiras impressões costumam ser utilizadas para caracterizar o todo. Desse modo, os alunos escutam dos professores de Análise do Comportamento que essa abordagem lida com fenômenos comportamentais complexos, porém, o único contato que têm com a abordagem ocorre por meio das pesquisas didáticas com ratos. Portanto, se desejamos deixar de sermos incompreendidos, o ideal é apresentarmos correspondência verbal e começarmos a fazer pesquisas didáticas com humanos.
Findos esses argumentos, com certeza todos passíveis de contra argumentação, me pergunto quais variáveis controlam o nosso comportamento de manter pesquisas com animais não humanos. A primeira delas é o paradoxo de sermos evolucionistas e ainda assim considerarmos os não humanos como seres inferiores e ao nosso serviço. Desse modo, animais não humanos, numa visão quase religiosa cristã, têm a única função de servir ao homem, o ser mais importante do universo. A segunda diz respeito ao custo de resposta de mudança, ou seja, dá trabalho inventar novos experimentos e aprender novas formas de ensinar os princípios básicos. Desse modo, é cômodo continuar usando as velhas caixas de Skinner e sacrificando animais. A terceira, estreitamente relacionada com a segunda, diz respeito à perda de um investimento feito na montagem de um laboratório, de um biotério entre outros aparatos necessários para a condução dessas pesquisas. Em outras palavras, seria jogar fora um dinheiro já gasto para ter que gastar mais dinheiro montando uma infraestrutura para fazer tais pesquisas com humanos. Por fim, a última razão diz respeito ao que Medeiros (2013) chama de resposta de racionalização: “é muita hipocrisia se preocupar com os ratos de laboratório e comer carne ou usar cosméticos testados em animais não humanos”. Sem dúvida, trata-se de uma hipocrisia, o que não muda o fato de estamos sendo cruéis com os nossos sujeitos não humanos de pesquisa. É uma resposta de racionalização na medida em que retira os estímulos aversivos condicionados de um comportamento que produz reforçadores. Em termos cotidianos, não me sinto tão culpado por fazer experimentos didáticos com animais se os mesmos são explorados em diversos outros contextos. Realmente a exploração dos animais não humanos ocorre em diversas frentes, e obviamente uma não justifica a outra. Em minha opinião, devemos atuar na frente que nos compete. Se nós somos analistas do comportamento e gostamos de bichos, devemos, pelo menos na nossa alçada, contribuir para o fim de sua exploração.

Referências:
Medeiros, C.A. (2013). Mentiras, indiretas, desculpas e racionalizações: manipulações e imprecisões do comportamento verbal. Em C. E. Costa, C. R. X. Cançado, D. R. Zamignani & S. R. S. Arrabal-Gil (Orgs.). Comportamento em Foco, v. 02. [157-170]. São Paulo: ABPMC.
Moreira, M. B. & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre: Artmed.

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