Incidência de alzheimer diminui, mas números permanecem altos

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No Brasil não existem dados precisos sobre quantas pessoas têm a doença, mas a Organização Mundial da Saúde estima que seja algo em torno de um milhãoEste não é o único estudo apontando esse cenário: uma pesquisa britânica publicada na revista científica The Lancet apontou que a porcentagem de pessoas com 65 anos ou mais que sofrem de alzheimer na Grã-Bretanha teria reduzido quase 25% em um período de 20 anos, passando de 8,3% para 6,5%. O estudo analisou dados de dois grupos de sete mil pessoas nas mesmas regiões da Inglaterra e de Gales, no início dos anos 1990 e depois entre 2008 e 2011.

No ano passado, outro estudo realizado na Holanda e publicado na revista científica Neurology em maio de 2012 observou que a incidência de demências (entre as quais a mais prevalente era o alzheimer) caiu de 4,9% para 2,7% em cinco anos de acompanhamento. A pesquisa avaliou duas populações de idosos de Roterdam em 1990 e depois em 2000.

O número de pessoas com alzheimer pode estar diminuindo. A informação, que vai contra as estimativas anteriores, foi apresentada no último congresso Alzheimer’s Association International Conference (AAIC),  um dos mais importantes sobre o tema, que foi realizado no mês de julho em Boston (EUA). Uma boa notícia neste 21 de setembro,  Dia Mundial da Doença de Alzheimer.

Durante o congresso foram apresentados dados de um estudo que está sendo realizado na Suécia sobre a diminuição da incidência da doença de Alzheimer nos últimos anos.

Fatores de risco

“Existem fatores de risco, como hipertensão, diabetes, inatividade física e intelectual que, se corrigidos, ‘empurram’ a doença para frente. É possível que esta redução esteja acontecendo em populações que começaram com hábitos mais saudáveis 20 ou 30 anos atrás”, explica o neurologista Paulo Henrique Ferreira Bertolucci, professor do Departamento de Neurologia da Unifesp, Coordenador Geral do  Núcleo de Envelhecimento Cerebral da Escola Paulista de Medicina e diretor científico da Associação Brasileira  de Alzheimer (Abraz). 

Esses dados vão contra uma série de projeções atuais. A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima um crescimento constante da doença, que pode dobrar até 2030 – e atingir 65,7 milhões – e triplicar até 2050, para 115,4 milhões.

“Se pensarmos que o desenvolvimento de demência está sim associado aos mesmos fatores de doenças cardiovasculares e cuidados de saúde em geral, por exemplo, a melhoria desses cuidados, assim como as campanhas de prevenção e qualidade de vida instituídas em muitos países poderiam, sim, mudar o perfil epidemiológico das demências”, explica o neurologista Denis Bernardi Bichuetti, professor do Departamento de Neurologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da Academia Brasileira de Neurologia.

De acordo com o neurologista, ainda é cedo para afirmar com segurança se o número de pessoas com alzheimer, ou com demências de um modo geral, está realmente diminuindo. “Por outro lado, este melhor cuidado e prevenção em saúde em geral, levará a um avanço do envelhecimento da população, e isso também pode levar a um aumento da incidência e prevalência de demência”, afirma Bichuetti.

Números altos

Mesmo que o número de pessoas com alzheimer esteja diminuindo, a incidência da doença ainda é muito alta. De acordo com a OMS a doença afeta atualmente entre 24 e 37 milhões de pessoas. No Brasil não existem dados precisos sobre quantas pessoas têm a doença, mas a organização estima que seja algo em torno de um milhão.

Um dos motivos para esta alta incidência é o envelhecimento da população mundial. A doença de Alzheimer, o tipo mais comum de demência, geralmente afeta pessoas com 65 anos ou mais –  atingindo menos de 0,5% das pessoas abaixo de 40 anos.

“Porém, a partir dos 65 anos, o risco de desenvolvê-lo praticamente duplica a cada cinco anos – ou seja, uma pessoa com 70 anos tem o dobro de chance de desenvolver a doença em relação a uma de 65, e assim em diante”, diz Bertolucci.

O alzheimer é uma doença neurodegenerativa, ou seja, que destrói os neurônios progressivamente. Essa degeneração começa no hipocampo, área que processa a memória, e com o tempo se espalha por outras regiões do cérebro.

“Existem dois mecanismos por trás da doença: as placas beta-amiloides (também conhecidas como placas senis), que são formadas pelo depósito da proteína beta-amiloide no espaço existente entre os neurônios, e os emaranhados neurofibrilares, que são formados pela proteína tau, que se deposita no interior dos neurônios”, explica o geriatra Paulo Canineu, professor da Faculdade de Medicina da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

O começo das alterações é lento e os primeiros sinais geralmente são confundidos com o próprio envelhecimento. Mas, conforme a doença avança, os sintomas se agravam: começam a surgir dificuldades de linguagem e motoras, problemas para reconhecer familiares ou amigos, alterações no sono e no comportamento, desorientação no tempo e no espaço. Nos estágios mais avançados, a pessoa tem dificuldade de executar as tarefas mais básicas como tomar banho, vestir-se e alimentar-se.

Fortalecendo o cérebro

Outros estudos vêm reforçando que manter o cérebro ativo pode contribuir – e muito – para prevenir a doença, ou ao menos adiar o seu início.

Durante a AAIC deste ano, um grupo de pesquisa do Instituto Francês de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm) apresentou dados que apontam que adiar a data da aposentadoria contribuiria para adiar também o início do alzheimer. Este estudo, realizado com 429.000 pessoas, concluiu que cada ano adicional de trabalho depois de completar os 60 anos reduziria em quase 3% o risco de sofrer desta doença.

“O conceito de ‘fortalecimento do cérebro’ pode ser melhor chamado de reserva cognitiva, isto é, quanto mais se usa o cérebro ao longo da vida, não só para trabalho, mas também para atividades de lazer, hobbies, leitura, trabalhos manuais e atividades afins, confere proteção contra doenças degenerativas, pois um cérebro com maior número de conexões está mais ‘protegido’ quando elas começam a falhar”, aponta Bichuetti.

Outras atividades estimulantes para o cérebro também contribuiriam significativamente na prevenção da doença. Vários estudos apontam que leitura, palavras cruzadas, xadrez, sudoku etc, são atividades que ajudam no fortalecimento cerebral.

“Estas atividades são realmente protetoras. Não só ‘fortalecem o cérebro’, mas abrem novos circuitos que podem ser alternativos. No entanto fazer palavras cruzadas só por fazer, sem objetivo de aprender novas palavras para serem utilizadas no vocabulário, também pouco adianta. Qualquer atividade cognitiva ou de aprendizagem, deve ter objetivos”, explica Canineu.

Mas não basta fortalecer apenas o cérebro, é preciso também fortalecer o corpo. Atividades físicas e alimentação balanceada também são importante na prevenção da doença. “Os mesmos fatores associados à prevenção de doença cardiovascular como atividade física, uma boa alimentação, sono balanceado e o cuidado de doenças crônicas como diabetes, hipertensão e dislipidemia, podem retardar o aparecimento de uma demência”, diz Bichuetti.

Tudo isso é importante para se ter uma vida saudável e se prevenir contra o alzheimer. No entanto, é importante ressaltar que isso não impede que a doença se desenvolva. Mas pode, sim, diminuir a chance de que isso aconteça, ou ao menos adiar o início de sua manifestação.

Fonte: Uol Noticias – Saúde
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