[Entrevista Exclusiva com Roosevelt Starling]: A Criação da Associação Brasileira de Análise do Comportamento – ACBr

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Diante da polêmica carta (disponível aqui) enviada pelos ilustres Analistas do Comportamento João Cláudio Todorov, Martha Hubner e Roosevelt Starling propondo a criação de uma nova associação para representar politicamente os Analistas do Comportamento/ Behavioristas Radicais, o Comporte-se propôs uma entrevista com Roosevelt Starling, um dos propositores, para conhecer sua opinião sobre alguns temas polêmicos.
1) Quem são os proponentes da nova associação e por qual motivo não assinaram o e-mail de apresentação da proposta?
Neto, ao ler, primeiramente, todas as perguntas que me faz, é importante deixar claro que posso falar apenas de um ponto de vista estritamente pessoal, ou seja, o que digo aqui reflete apenas o meu entendimento pessoal e nada mais do que isso. Mesmo porque não existe um grupo, como tal organizado, do qual eu pudesse ser o porta-voz. O que temos são algumas pessoas com um propósito. O grupo virá depois, espero, e por certo terá o seu porta-voz.
Na sua introdução, você fala em carta “polêmica”. Não penso que seja. É somente um convite, uma sondagem, para saber se haveria interessados na constituição de uma associação de analistas do comportamento. Havia. Muitos. A polêmica surgiu depois, como um efeito perfeitamente natural e previsível, em função da complexidade e dos múltiplos interesses e convencimentos que coexistem em qualquer comunidade humana.
Vamos à sua primeira pergunta. Vai lá alguém saber de bem sabido, no mar de contingências em que vivemos e no rio de estímulos em que navegamos, porque alguém fez o que fez. O comportamento é multideterminado e só numa caixa experimental podemos, penosamente e putativamente, isolar variáveis. Por mim, faz anos que tenho este sonho. Disse isso em Brasília, há anos atrás: I have a dream! Disse assim mesmo, em inglês, porque queria emprestar ao meu desiderato a força do célebre I have a dream! dito pelo inesquecível Martin Luther King (ocorre-me agora, com tremores, que ele pagou com a vida por isso…Ixi!). E o dream era esse: uma associação assumidamente analítico-comportamental. Porque? Por que temos uma identidade, um nome e propósito singulares dos quais me orgulho. A extraordinária ousadia de estudar o comportamento humano com as regras das ciências naturais me fascina. O que já conseguimos até hoje me fascina ainda mais. O que poderemos conseguir nos séculos que virão me fascina mais ainda. E não posso negar que fico mesmo incomodado com o que chamaria de uma espécie de “interdito” a uma associação com o claro nome analítico-comportamental. Parece que qualquer outro nome pode, menos esse. Então, transformo o Porque? retórico acima em Porque não?
I have a dream e houve a oportunidade, pelo apoio de vários, repito, vários colegas a essa ideia, lançada quase ao ar, quase como um “e se…”, num ambiente informal. Tanto a ideia quanto ao apoio daqueles colegas eram, é claro, uma resposta possível dada às contingências em ação. O número de colegas que aceitaram o convite, a consulta, a tomada de pulso, fazendo sua pré-adesão, empresta força a esta minha interpretação. Não são as pessoas. São as contingências.
Foi nessa (relativa) informalidade que nasceu a carta convite. Ao enviar as cartas-convite que eu mesmo enviei, eu o fiz em meu próprio nome. Não estava escondido nem me escondendo. Martha e Todorov também assim fizeram, para todos, tanto quanto sei. Penso que a carta-convite propriamente dita não foi assinada porque não havia mesmo um autor privilegiado para assiná-la. Falamos, topamos, fizemos. Não somente nós três. Nós três somente chamamos a nós a tarefa do convite inicial e ao fazê-lo, é claro, assumimos publicamente nosso propósito comum. Particularmente, nunca fiz segredo deste meu desiderato, como disse acima.
 
2) Que contingências contribuíram para o surgimento da proposta de criar de uma nova associação?
Para mim, como disse o Todorov, penso que foram 52 anos de tentativas para nos apresentarmos publicamente com a nossa própria identidade e singularidade, com nosso próprio rosto e aceitar o ônus e o bônus dessa assunção aberta, clara, transparente. Sei muito bem, na própria pele, dos preconceitos, da propaganda negativa, da desinformação que assombram aqueles que se declaram analistas do comportamento. Os tempos agora são mais suaves, mas não eram, a 30, 40 anos atrás. A hora é boa. Bem, respondo pelo que posso perceber dos meus controles. Quantos aos dos demais, só perguntando para eles. Mesmo assim, nos diz nossa ciência que dificilmente cada um de nós os conhece a todos. Ou diz todos que conhece.
3) Entre as motivações para criação da ACBr existe algum tipo de insatisfação com a atual diretoria da ABPMC? 
Talvez aqui, na resposta a esta pergunta, me sinta à vontade para incluir o Todorov na minha resposta, mesmo porque ele já se pronunciou claramente sobre o assunto, na leva “epistolar” que se seguiu à carta-convite, amplamente divulgada na internet.
O atual presidente da ABPMC é o João Ilo, de Fortaleza, Ceará. A trajetória profissional e acadêmica do João Ilo é claramente analítico-comportamental. Acompanho o João Ilo há anos. Para mim, é um profissional sério e competente. O núcleo analítico-comportamental de qualidade irretocável que vai se desenvolvendo no Ceará tem o dedo dele e eu mesmo tive a honra de testemunhar pessoalmente, lá, em Fortaleza, uma das fases desse trabalho. João Ilo é uma pessoa de primeira classe. Pessoas de primeira classe agregam junto a si colaboradores de primeira classe. Acho que isto responde à sua pergunta, num sentido estrito.
Num sentido mais amplo e impessoal, quaisquer insatisfações que possam ser pensadas com relação à atual diretoria eu não tenho dúvida em classifica-las como absurdas e preconceituosas. Faz poucos meses que este grupo assumiu a ABPMC. Assumiram corajosamente uma trabalheira infernal para prestar um serviço à nossa comunidade (ABPMC). Não ganham nada com isso, exceto dor de cabeça, como bem sabem todos aqueles que já assumiram esta responsabilidade. Mão na consciência, não é?
Para que não haja qualquer dúvida: não. Nenhuma.
Nem com relação à ABPMC como tal. Sou afiliado a ela desde o seu começo, nestes 22 anos deixei de ir a somente um Encontro e pretendo ir, no futuro, a todos que puder. Aliás, fico pensando de onde, com que base, com que propósito, se algum, teria surgido a ideia de uma oposição: ou a ABPMC ou a ACBr. Eu fico com as duas.
 
4) A nova associação atenderia a quais objetivos ou necessidades que a ABPMC já não atende?
Na minha maneira de ver, todas aquelas que dizem respeito às contingências específicas e singulares quanto ao avanço, aos interesses profissionais específicos, às singularidades e à disseminação da Análise do Comportamento no Brasil. Temos a SBP como o grande espaço de convergência da psicologia no nosso país. Temos na ABPMC nosso local de encontro privilegiado. E teremos a ACBr para tratar, 365 dias por ano, das especificidades da nossa ciência.
5) Que modelo de gestão a nova associação deverá adotar? Será semelhante ao que modelo de gestão da ABPMC? 
Ao fim e ao cabo, não faço ideia, porque esta será uma decisão do corpo pleno da ACBr, uma vez constituído. O que sei é que a ideia do estatuto preliminar, necessário para viabilizar a formalização da associação, terá como referência o sistema de gestão da ABAI, bastante diferente daquele que vem sendo a norma na ABPMC. Aqui a ideia é institucionalizar e assegurar ao máximo o caráter impessoal do sistema de escolha dos gestores. É assegurar ao máximo e dar prioridade à preservação da cultura que é a Análise do Comportamento. Eu acredito que é uma concepção de gestão que, se conseguirmos fazê-la funcionar, atenderá bem a esses propósitos. Mas será um estatuto preliminar. Qual será o estatuto finalmente aprovado pelos associados é uma questão aberta. Está no futuro.
6) Como você avalia algumas previsões de que, ao invés de fortalecer politicamente a abordagem, a criação de uma nova associação a enfraquecerá?
E do futuro não saberás! Evidentemente, nós que aderimos a esta proposição, acreditamos que fortalecerá, é claro. O contrário disso seria absurdo. Os que por diversos motivos são contra pensam, é claro, que enfraquecerá. Nem uns nem outros sabem com segurança o que o futuro mostrará, o que me parece ser mais claro ainda. E ainda mais claro é que, se não tentarmos, jamais saberemos. Na minha vida, luto para não sucumbir ao reforço negativo. Tento muito vencer os meus medos e lutar pelo bem que almejo, ao invés de lutar para evitar o mal que temo. Penso estar fazendo isso aqui, agora.
7) A nova associação pretende tomar frente na certificação do Analista do Comportamento individualmente ou, ainda, em conjunto com a ABPMC?
Mais uma vez, você me pergunta algo que só poderá ser respondido pelo corpo pleno da ACBr. Posso falar por mim. É público meu interesse nesta questão da certificação. Tenho estudado isto com grande interesse. Exatamente por isso, talvez esteja sensibilizado pelas tremendas dificuldades que este tema envolve. Mas meu posicionamento pessoal não é tão importante. Sou somente um membro das comunidades às quais me afiliei. Penso que aqueles que têm alguma posição bem delineada, algum convencimento sobre o tema, devem, como membros da associação, lutar pela prevalência das suas posições, contra ou a favor. Esse embate é legítimo e necessário. Eu lutarei pela minha.
8) Já existem propostas sobre como a associação deverá lidar com problemáticas como a necessidade de melhoria na qualidade da formação em Análise do Comportamento em Cursos de Graduação, a criação de condições que favoreçam ao aplicador atuar conforme o rigor conceitual e tecnológico desejado ou, ainda, outras que possam surgir? Se sim, quais são? 
Novamente, uma questão para o corpo pleno da ACBr. Pessoalmente, reconheço as problemáticas que você levanta e tenho meus posicionamentos sobre elas. E um mundo de ideias a oferecer e discutir. Eu e, provavelmente, mais uns mil colegas, imagino.
9) O que de fato já está definido sobre nova associação?
O que está claramente exposto na carta-convite. Será formada uma comissão provisória que terá a missão de viabilizar legalmente a constituição da associação, que consiste basicamente em elaborar um estatuto e fazer o seu registro legal. Essa comissão será automaticamente dissolvida ao término do seu trabalho. Feito isso, será enviada a todos aqueles que se manifestaram positivamente, registrando sua pré-adesão, uma correspondência convidando-os a tomar conhecimento do estatuto preliminar e condições iniciais e, se desejarem, fazer sua afiliação formal.
Relendo suas perguntas e as respostas que pude dar a elas, ocorre-me que as perguntas sugerem existir a ideia de que existiria um plano pronto para a ACBr. Singelamente, mas não há. Há um propósito e um desejo longamente acalentado por boa parte de nós que, pensamos, podemos agora tornar real.
O que trará a ACBr somente o futuro poderá desvelar. Se aplicarmos a nós mesmos o que ensina a nossa ciência, se construirmos um ambiente produtivo e reforçador, se as contingências forem de fato favoráveis, como pensamos que são, se as discriminarmos e respondermos a elas adequadamente, provavelmente teremos sucesso. Se não, então não.
10) Porque o endereço de e-mail que consta na consulta sobre o interesse na ACBr contem a sigla “aba” (acbr_aba)? Pretende-se algum tipo de afiliação da ACBr à ABAI?
Ah, isso! É que lá estava eu, tentando criar o grupo no Yahoo que pudesse recolher o interesse dos colegas. Quando o programa pediu que escolhesse o nome de usuário para o grupo, tentei ACBr. Já existia. Depois tentei uma sequência de variações. O programa não deixava prosseguir. Nome de usuário já ocupado. Pensei então na solução do underline. Escrevi acbr_ e imediatamente pensei em aba. Tem a ver, afinal. Aí o programa aceitou.

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