“Para que fazer hoje o que posso deixar para amanhã?” – Analise Funcional de um Caso de Procrastinação

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    Bruna Troia Pitelli
    Instituto Innove
    É comum ouvirmos pessoas se queixarem do seu comportamento de adiar tarefas e, muitas vezes, deixarem de cumprí-las. Sejam clientes ou pessoas do nosso convívio social, procrastinar tarefas não é assunto raro: “te ligo depois”, “me deixa dormir mais 5 minutinhos” até frases mais explícitas como “ah! Depois eu faço”. Tais verbalizações e/ou pensamentos são partes de uma cadeia de comportamentos que se chama Procrastinar, ou seja, interromper, adiar para outra hora/dia ou não realizar uma tarefa cujo reforçador não é imediato, em detrimento de outra atividade que, geralmente, apresenta reforçadores mais imediatos e/ou com menor custo de resposta (Kerbauy e Hamasaki, 2001). 
    Pesquisas clínicas apontam algumas variáveis que colaboram para o desenvolvimento de um padrão procrastinador, tais como baixa tolerância a frustração, comportamento de fuga/esquiva de situações com maior possibilidade de falhas, pouca tolerância diante de situações aversivas, etc. (Kerbauy e Hamasaki, 2001). 
    No entanto, é importante lembrarmos que, a história de contingências que colaborou para o desenvolvimento de um padrão comportamental de procrastinação não é suficiente para mantê-lo se não houvessem contingências presentes que o fizessem. 
    Para entendermos melhor as questões acima, a história de Bianca, 33 anos, poderá nos ajudar. Formada em Biologia e, atualmente, fazendo mestrado na área. Casada com Márcio (38) e caçula de 4 filhos, Bianca veio de família simples e ainda não têm filhos. Queixava-se de desânimo e desinteresse: “parece que minha vida não anda”. 
    Bianca apresentava um forte padrão de fuga/esquiva e, comportava-se, prioritariamente, em função de contingências que produziam reforçadores imediatos. Em vista disso, era comum procrastinar tarefas que envolviam consequências reforçadoras não imediatas. Ao conhecer sua história, é possível identificar fatores que contribuíram tanto para o desenvolvimento quanto para a manutenção deste padrão. 
    Durante sua infância, Bianca ia bem na escola (enquanto as atividades eram de baixo custo de resposta) e, seus pais não precisaram cobrar para que ela estudasse. Apesar dos pais e professores exercerem controle sobre seus filhos e alunos, pela possibilidade de reforçar ou punir comportamentos que consideram adequados (Skinner, 2003), no caso de Bianca, não se tornaram estímulos relevantes o suficiente no controle de comportamentos que fazem parte da classe de comportamentos “estudar” (ler, fazer tarefa, pesquisar dúvidas, etc) da menina, pois, ainda que não tirasse notas altas, não tinha prejuízos (variável que colaboraria para uma possível punição do comportamento de não estudar), mantendo suas notas dentro da média. 
    Como os pais trabalhavam fora e, os irmãos mais velhos geralmente estavam envolvidos em atividades extracurriculares, Bianca passava a maior parte do tempo, em casa, sozinha ou na companhia de amigas. A ela eram destinadas algumas atividades domésticas como lavar a louça, arrumar a cama e varrer a sala, que deveria executar logo após o almoço e antes de brincar. Após a saída dos pais, envolvia-se com desenhos na televisão até que suas amigas chegassem. Com a chegada das mesmas, para que pudessem ter mais tempo para brincar e para que pudessem fazê-lo o quanto antes, ajudavam Bianca com as atividades domésticas de sua responsabilidade. Tal condição, possivelmente favoreceu para que Bianca protelasse tarefas pois, ao fazê-lo, recebia ajuda das amigas, que colaboravam para diminuir o custo de resposta das atividades destinadas a Bianca reforçando, assim, seu comportamento de procrastinar. 
    Bianca passava a tarde envolvida em atividades prazerosas com as amigas e deixava o dever de casa para ser realizado a noite. Eventualmente seus pais a ajudavam ou, quando não conseguia terminar, permitiam que Bianca faltasse a aula no dia seguinte para que o fizesse. Algumas vezes, as amigas permitiam que Bianca copiasse a tarefa antes do início da aula, para esquivar-se de punição vinda por parte do professor. 
    Tais contingência favoreceram que Bianca desenvolvesse repertório de fuga-esquiva de possíveis punições (advindas dos professores) através de respostas de baixo custo (ter a ajuda dos pais, copiar tarefa e faltar a aula). Assim, o padrão de procrastinar foi sendo altamente reforçado e mantido durante a infância e adolescência. 
    Bianca ingressou em uma faculdade particular de Biologia por sugestão dos pais, ambos biólogos, mais uma situação na qual não precisou comportar-se de forma mais custosa, visto que tanto os pais escolheram o curso por ela quanto permitiram que ingressasse em uma faculdade cujo vestibular exigiu pouco engajamento devido a baixa concorrência. 
    Durante a faculdade, as contingências colaboraram para manter o padrão de Bianca. Além de ter cursado uma faculdade pela qual não tinha interesse (de pouco valor reforçador – o que dificultou o engajamento de Bianca nas atividades requeridas pelo curso) o grupo de amizades de Bianca ajudavam-na nos trabalhos e a estudar para as provas. Bianca até tentava: sentava-se para estudar mas, permanecia pouco tempo envolvida. Levantava para comer, assistir televisão, ligar para a colega de sala para queixar-se de sua dificuldade e/ou pedir dicas para desenvolver sua parte do trabalho, etc. Mais uma vez, atividades com função de fuga/esquiva, baixo custo de resposta e que produziam reforçadores imediatos, em detrimento de atividades curriculares aversivas e/ou pouco reforçadoras imediatas, com maior custo de resposta. Quando não concluía sua parte nas tarefas grupais, uma amiga mais próxima fazia a parte de Bianca alegando “ajudar a amiga” – que por vezes se queixava de dificuldade de concentração – e para ‘não prejudicar o grupo’, incluindo ela mesma’ (a amiga). Comportamentos de baixo custo de resposta e o padrão de pouco engajamento em atividades que apresentassem consequências reforçadoras remotas foram sendo fortalecidas. Não havia punição por parte de professores, pais, amigos e/ou notas baixas – consequência que seria naturalmente punitiva – que pudessem punir comportamentos de procrastinar. 
    Segundo Skinner (1987, p. 05), “pessoas que evitam trabalho e têm as coisas feitas para elas escapam de muitas consequências aversivas, mas, além de um certo ponto, elas próprias também se privam das consequências fortalecedoras”. Desta forma, ao ter acesso facilitado a reforçadores (boas notas e/ou notas medianas produto dos trabalhos em grupo e provas que estudava com as amigas), não desenvolveu tanta variabilidade de comportamentos que produzissem reforçadores advindos do seu próprio comportamento. 
    A história de contingências de Bianca colaborou para que ela não desenvolvesse autocontrole, ou seja, comportar-se diante de contingências que produzem reforços remotos. “Um indivíduo vem a controlar parte do seu comportamento quando uma resposta tem consequências que provoquem conflitos – quando leva tanto ao reforço positivo quanto ao reforço negativo” (Skinner, 2003, p. 252). Ou seja, Bianca ficava, prioritariamente, sob controle de reforçadores imediatos, mesmo que de pouco valor reforçador em detrimento de consequências potencialmente mais reforçadoras (ir bem nas provas, formar-se, estabilizar-se em um emprego, ter retorno financeiro) porém, a médio e longo prazo. Uma variável que também colaborou foi que Bianca tinha suporte financeiro do marido, não passando por privações que pudessem leva-la a emitir respostas de fuga/esquiva mais direcionadas a engajar-se no trabalho, por exemplo. 
    Atualmente Bianca faz mestrado em sua área por incentivo de colegas e familiares. já que Bianca não conseguia manter-se em trabalho algum: chegava atrasada, não concluía as tarefas, estava sendo constantemente avaliada e criticada pelos chefes e frequentemente era despedida. Relatava sentir-se desanimada e frustrada. Porém, quando desvinculada do emprego, apesar de sentir-se culpada por não estar trabalhando (sentimento produto de contingências socialmente punitivas), não relatou sentir frustração, mas alívio. Ficar em casa, mesmo que não produzisse consequências de maior valor reforçador (e que pudessem produzir sentimentos de ânimo, mesmo que no envolvimento de atividades não relacionadas ao estudo ou trabalho, mas atividades sociais, por exemplo), não era aversivo como envolver-se com um trabalho pelo qual não tinha interesse. 
    No mestrado, as contingências colaboram para manter o padrão de Bianca que protela ou não conclui atividades. A princípio, não houveram consequências mais drásticas, porém, o mestrado passou a exercer a função de uma nova agência de controle que tem exigido de Bianca um repertório que ela não possui: autocontrole e tolerância a frustração. 
    A queixa inicial de Bianca é um produto do seu padrão de comportamento pois, comportava-se pouco e emitia respostas de baixo custo, que produziam alguns reforçadores, mas fugia ou esquivava-se (por vezes protelando) de situações que envolvessem um maior custo de resposta, mesmo quando os reforçadores envolvidos fossem igualmente de maior valor. Ao comportar-se pouco e/ou envolver-se em tarefas de pouco valor reforçador acaba por produzir pouca ou nenhuma consequência de maior valor reforçador, contingente ao seu próprio comportamento que produziu, de maneira colateral, sentimentos de desânimo e desmotivação. Além disso, ao engajar-se pouco em atividades que possam promover consequências mais reforçadoras, não imediatas, deixa de atingir metas e objetivos que requerem, muitas vezes, a emissão de respostas com consequências remotas, o que, vai ao encontro da queixa de Bianca, de ter a sensação de que sua vida “não anda”. 
    Agora, sob controle de uma nova agência de controle, comportamentos de procrastinação e sentimentos de frustração mediante cobranças e punições sociais por parte dos professores tornaram a situação mais crítica para Bianca. 
    No entanto, a análise deve se estender para além do desenvolvimento de autocontrole. É preciso avaliar perdas e ganhos em se manter na atividade em que Bianca se encontra, as possíveis consequências de cada escolha e, principalmente, avaliar e investir no envolvimento em atividades mais reforçadoras. Segundo Skinner (2003) atividades mais reforçadoras, são aquelas que aumentam a probabilidade de ocorrência de uma determinada resposta através da apresentação de um estímulo (reforço positivo) após a emissão da mesma. A partira daí, com maiores chances de envolvimento na atividade, aumentam também as chances de auxiliar Bianca a desenvolver um repertório de maior engajamento e autocontrole, modelando comportamentos, através do reforço diferencial de resposta progressivamente mais elaboradas (Skinner, 2003), que possam favorecer a permanência em atividades de maior custo de resposta, porém, que produzam consequências, mesmo que remotas, de maior valor reforçador, contingente ao seu próprio comportamento. 
    Como produto colateral, é possível que Bianca sinta-se mais motivada e animada (produto de comportamentos positivamente reforçados) e, assim, possa dar continuidade em tarefas que possam auxiliá-la a atingir metas e objetivos de vida a médio e longo prazo. 
    Referências:
    Skinner, B.F. (2003). Ciência e Comportamento Humano. Trad. Todorov J.C. , Azzi, R. 11 ed. São Paulo: Martins Fontes. 
    Hamasaki, E.I. de M.; Kerbauy, R.R. (2001). Será o comportamento de procrastinar um problema de saúde? Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. São Paulo, v.3, n.2, dez.

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