Esse cara sou eu! – O autoconhecimento na Análise do Comportamento

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    Esse cara sou eu! 

    Uma célebre música que, ao ser cantada por Roberto Carlos, se tornou motivo de encantamento para os fãs e paródia aos que acompanham as tendências artísticas. Em sua letra, notamos um fenômeno importante: a identidade.

    Ser capaz de descrever seus próprios comportamentos é fator determinante para a construção da identidade, muito embora geralmente não seja suficiente para entender a si mesmo – afinal, identidade não corresponde a autoconhecimento. A música Esse cara sou eu apresenta em suas estrofes várias descrições de comportamentos românticos do protagonista, mas pouco os relaciona com o que pode evocá-los ou mantê-los. Talvez, mais importante do que reconhecermos quão romanticamente o protagonista de Esse cara sou eu amava sua mulher seria reconhecer quais as contingências envolvidas, que tornavam o relacionamento amoroso tão reforçador para ele. E essas contingências poderiam não envolver, necessariamente, a intensa paixão que a música aparenta.

    De maneira hipotética, por exemplo, pode ser que o protagonista de Esse cara sou eu estivesse sob controle de regras, tais como: “Se assumo um relacionamento sério, então devo ser perfeito” ou “Se quero fazer minha mulher feliz, então devo sempre agradá-la”. Pode ser que, independentemente dos comportamentos da mulher que ama, o protagonista tenha aprendido em sua história de vida a evitar críticas por serem, para ele, mais aversivas do que o investimento romântico na relação. Pode ser também que o protagonista emita tais comportamentos perfeitamente românticos em uma tentativa de exercer controle sobre a mulher, de modo a se tornar reforçador na vida dela o suficiente para não ser facilmente abandonado. Enfim, são inúmeras as possibilidades das variáveis envolvidas nos comportamentos românticos descritos na música de Roberto Carlos e estas possibilidades apenas nos revelam algo de fundamental importância para um analista do comportamento: é necessário não somente descrever, mas também discriminar as contingências que controlam os comportamentos.

    É neste contexto que um essencial conceito para a Análise do Comportamento pode ser explorado: o autoconhecimento. Para Skinner (1974/2006, p. 146), “o conhecimento de si próprio tem origem social”, pois está estritamente relacionado ao autorrelato.

    …na concepção de Skinner, relatar os próprios atos privados é o mesmo que relatar os próprios atos públicos. Aprendemos a falar do que vemos, ouvimos, sentimos e pensamos do mesmo modo que aprendemos a falar sobre o que comemos, onde vamos e o que dizemos. O autoconhecimento consiste neste tipo de discurso. (Baum, 2006, p. 68)

    A aprendizagem do autoconhecimento ocorre na comunidade verbal, que se compõe das pessoas que ouvem e reforçam o que alguém diz (Baum, 2006, p. 137). É por meio da comunidade verbal, especialmente cuidadores e educadores, que o sujeito aprende a observar seus comportamentos públicos e privados. Obviamente, as características da comunidade verbal influenciarão diretamente o desenvolvimento do repertório verbal de seus membros, tornando-o amplo ou limitado, o que se pode observar em seus autorrelatos. Assim, “diferentes comunidades geram tipos e quantidades diferentes de autoconhecimento e diferentes maneiras de uma pessoa explicar-se a si mesma e aos outros” (Skinner, 1974/2006, p. 146).

    Considerando-se que o desenvolvimento do autoconhecimento somente é possível por meio do autorrelato, o que fazer quando a comunidade verbal não modela suficientemente o comportamento verbal de seus membros? O analista do comportamento poderá contribuir modelando o repertório verbal do sujeito, o que acontece ao reforçar diferencialmente seus autorrelatos utilizando-se de questionamentos e apontamentos distintos àqueles comumente realizados por sua comunidade verbal – processo realizado especialmente na psicoterapia. Além de auxiliar o sujeito individualmente, o analista do comportamento pode também orientar e contribuir direta ou indiretamente para que a comunidade verbal assuma apropriadamente a modelagem do repertório verbal de seus membros. Esta contribuição pode ocorrer a partir de orientação, psicoeducação e modelagem dos membros que compõem a comunidade verbal para que promovam não apenas a descrição, mas o entendimento sobre os comportamentos públicos e privados na relação com seu ambiente.

    Sobre a comunidade verbal, Skinner (1974/2006, p. 147-148) reflete:

    A comunidade verbal pergunta ‘Como você se sente?’ em vez de ‘Por que você se sente assim?’ porque terá então maior probabilidade de obter uma resposta. Tira vantagem da informação disponível, mas deve culpar só a si própria se não houver outros tipos de informação ao dispor. Há até bem pouco tempo, não induziam as pessoas a examinarem as condições externas nas quais viviam. Todavia, à medida que a pertinência da história ambiental se tornou mais clara, questões práticas começaram a ser propostas, não sobre sentimentos e estados mentais, mas acerca do meio ambiente, e as respostas [os comportamentos]se vêm revelando cada vez mais úteis.

    Observa-se, portanto, que as demandas sociais acabam por modelar, também, o que a própria comunidade verbal modelará em seus membros. Assim como a música Esse cara sou eu apresenta, encontramos atualmente muitas pessoas capazes de descrever seus próprios comportamentos, mas frágeis em discriminar as contingências que os controlam. Vemos uma excessiva autorreferência que, carente de uma perspectiva maior, contribui para que as pessoas atuem de maneira a não considerarem sua própria história de aprendizagem e, tampouco, as possíveis consequências de seus atos. Muito investem, exaustiva e esperançosamente, mas pouco se sentem satisfeitas com o que fazem.

    A Análise do Comportamento é uma ciência capaz de contribuir para esta realidade ao auxiliar pessoas no desenvolvimento do autoconhecimento, oferecendo condições para melhor preverem e controlarem seus próprios comportamentos.

    Referências

    Baum, W. M. (2006) Compreender o Behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 2. ed. Porto Alegre: Artmed.
    Imagem disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/-Q22CW55LcCQ/UMopbRPDkRI/AAAAAAAABm4/hkyADWZgn5Q/s1600/Esse+cara+sou+eu.jpg> Acesso em: 03/05/2013.
    Skinner, B. F. (1974/2006). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Cultrix. Souza, A. da S., & Abreu-Rodrigues, J. (2007). Autoconhecimento: contribuições da pesquisa básica. Psicologia em Estudo, 12(1), 141-150. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722007000100017&lng=en&tlng=pt. 10.1590/S1413-73722007000100017> Acesso em: 01/05/2013.

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