Agressividade Humana: Contingências, Filogênese e Evolução

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No inverno de 1932 todos os suprimentos alimentícios na Ucrânia foram confiscados por mando de Stalin e um grande cordão foi criado em torno do país para que ninguém emigrasse. O ditador comunista havia determinado a coletivização das terras ucranianas (um dos maiores produtores de trigo do mundo), e o confisco dos alimentos foi uma reação stalinista à resistência dos camponeses. A fome foi tão grande que os ucranianos foram morrendo vagarosamente em suas próprias casas já que não possuíam mais alimentos e eram impedidos de produzi-los. Neste mesmo ano, a NKVD (“Comissariado do Povo para Assuntos Internos” da URSS) invadiu as casas das pessoas para coletar os corpos dos mortos. Os policiais recebiam 200g de pão por cada corpo que entregavam e, para isto, entravam nas casas e perguntavam “onde estão seus mortos?”. Muitos foram enterrados vivos. Alguns sobreviventes dizem que viam a terra se mexer. Foram documentados até mesmo casos de antropofagia. Em um ano, aproximadamente dez milhões de pessoas morreram de fome na Ucrânia. Este genocídio ficou conhecido como Holodomor, termo que deriva da expressão ucraniana “Морити голодом”, que significa “matar pela fome”.

Casos absurdos como este nos chocam, nos impressionam. Vários outros são conhecidos como os de Hitler, Mao, Pol Pot e Rwanda. Estarrecidos diante desses acontecimentos e dos que vemos todos os dias na TV, nos perguntamos o porquê de tanta agressividade. Afinal de contas somos bons ou maus? Nascemos bons e a sociedade é quem nos torna maus, ou o contrário? Por que ferimos, destruímos e matamos? Esta pergunta pode ter quatro respostas diferentes. Pretendo aqui abordar algumas reflexões voltadas à filogênese, mais especificamente à perspectiva evolucionista, apesar de tais entendimentos estarem totalmente relacionados a outros níveis explicativos, os quais serão também citados.

Em primeiro lugar vamos conceituar agressividade. Aqui, a entenderemos como um conjunto de repertório de comportamentos com função de autopreservação (contra-controle por manutenção de reforçadores e/ou fuga/esquiva de estimulações aversivas), acompanhados por sentimentos de raiva, nervosismo e até mesmo medo. Um dos pontos a ser considerado é que não somos “bons ou maus por natureza” (Zortea, 2013). Nossos sentimentos de raiva precisam ser entendidos como elementos fisiológicos cuja variação genética foi selecionada ao longo dos milhões de anos do processo evolutivo. Esta seleção se deu por tais variações terem contribuído para a sobrevivência e reprodução dos sujeitos que a apresentavam.

De fato, se observarmos a maior parte dos seres vivos do reino animal perceberemos que a agressividade é um dos principais instrumentos de sobrevivência. Geralmente usamos o termo “análogo” para nos referir à semelhança funcional dos processos comportamentais observados em sujeitos experimentais em relação aos seres humanos. No entanto, se considerarmos a continuidade das espécies tal como proposto por Darwin, seria mais adequado falarmos em “homólogo” [1]. Segundo Queiroz (2009), alguns evolucionistas sustentam a ideia de que, pelo fato de não termos sido evolutivamente dotados de armas biológicas mortíferas (venenos, chifres afiados, cascos, garras, grandes caninos, etc.), nós humanos também não desenvolvemos inibições mais sofisticadas e outras modalidades de controle instintual capazes de impedir que eventuais embates agressivos pudessem originar a morte do adversário. Entretanto, as contingências de adaptação evolutiva [2] oportunizaram o desenvolvimento de nossas capacidades de produção de instrumentos de defesa e ataque, presentes já no homo habilis e seus instrumentos líticos rudimentares (Rodrigues, 2009; Queiroz, 2009). Queiroz (2009) nota a presença do comportamento agressivo em todas as sociedades humanas.

Informações colhidas em praticamente todas as sociedades humanas parecem assegurar que em nenhuma delas se desconhece alguma modalidade de conduta agressiva. De todo modo, há as que valorizam e estimulam a agressividade, caracterizando-a como virtude, coragem e heroísmo, ao passo que outras atribuem valor positivo à passividade ou à resolução pacífica de conflitos. O modo como são socializados os imaturos desempenha, em ambos os casos, papel crucial” (p. 128).

Ao mesmo tempo em que fazemos guerra, também fazemos paz. Competimos, matamos. Mas também cooperamos e ajudamos. Como conciliar numa mesma explicação repertórios comportamentais tão antagônicos? Como podemos ser tão paradoxais? A resposta atual está nos processos que compõem as contingências de adaptação evolutiva, as quais selecionaram propensões comportamentais em contextos de sobrevivência e reprodução. Isto significa que os hominídeos que, dentre as diversas variações comportamentais, cooperaram num contexto específico de sobrevivência e/ou reprodução tiveram ampliadas as probabilidades de perpetuar seus genes [3] e sobreviver (Lewin, 1999). Um organismo que emite comportamentos com função de salvar alguém de sua família aumenta a probabilidade de ter seus genes (contidos neste parente) perpetuarem. Quando há a função de salvar alguém com quem não compartilha genes, aumentam-se as possibilidades de ser ajudado futuramente em contingências de periculosidade (Axelrod & Hamilton, 1981).

Da mesma forma que a cooperação possui um histórico de seleção, a agressividade também a tem, e suas premissas são as mesmas da ajuda mútua: a funcionalidade relacionada à sobrevivência e reprodução. Tomando o conceito que utilizamos aqui (citado acima), sobrevive nas savanas e perpetua seus genes o sujeito que emite comportamentos agressivos a fim de evitar qualquer tipo de prejuízo quando imerso em contextos que ameacem sua integridade física e a própria permanência da vida.

Precisamos lembrar aqui os outros níveis de seleção comportamental. A filogênese selecionou a propensão comportamental baseada na sobrevivência e perpetuação genética. Entretanto, as funções do comportamento agressivo foram ampliadas pela ontogênese e pela cultura. Se alguém se comporta desonestamente comigo e revido com agressões (sejam elas quais forem em termos topográficos), isto não significa que minha sobrevivência está diretamente em questão, mas sim os reforçadores que me foram retirados. O mesmo ocorre nos transtornos de ansiedade: usar um elevador não significa colocar em risco a vida, para haver reações corporais de medo tão intensos em alguns casos. Assim, nossa fisiologia, os comportamentos respondentes e todo nosso funcionamento neurofisiológico foram selecionados por contribuir durante milhões de anos à manutenção da vida, à sobrevivência. Considerando que se constituem mecanismos inespecíficos [4] será ao longo da ontogênese que tais estruturas fisiológicas assumirão outras funções através do condicionamento operante (que envolve processos respondentes, obviamente) (ver Darwich & Tourinho, 2005).

Sabendo a função filogenética da agressividade, as trajetórias ontogenética e cultural passarão então a ser o palco de explicações dos comportamentos agressivos. Ora, não era a sobrevivência (biológica) de Stalin que estava sendo questionada pelos camponeses ao negarem a entrega de suas terras, mas sim sua autoridade, poder e riqueza (já que a Ucrânia era o maior produtor de trigo do mundo nas décadas de 20 e início de 30). A resistência dos trabalhadores camponeses configurou uma contingência de ameaça ao governo soviético, ao ditador russo, à perda de possíveis reforçadores que manteriam financeiramente seu governo e garantiriam a coletivização das terras. Diante desta ameaça, Stalin não poupou esforços em reagir agressivamente. Suas medidas governamentais demonstram a função de contra-controle com punição negativa de reforçadores primários – retirando da população ucraniana todo e qualquer alimento disponível como consequência de sua reação opositora às imposições soviéticas.

Não somos bons ou maus. Nem anjos, nem demônios. Como diria o velho Nietsche, somos “humanos, demasiadamente humanos” (2000) o que significa que nossos comportamentos são função de um contexto. A evolução nunca, em situação alguma, pode ser entendida de modo isolado das circunstâncias, do contexto, do ambiente de vida dos organismos. Contingências diferentes selecionam repertórios diferentes, variações comportamentais diferentes. Distintas contingências de adaptação evolutiva selecionaram relações cooperativas e relações agressivas, as quais ganham hoje funções relacionadas aos outros níveis de seleção. Nossa análise, nossos microscópios precisam se voltar às relações funcionais estabelecidas nas mais diversas, variadas, complexas e imprevisíveis contingências que compõem a vida, nas quais estamos imersos. Se queremos reduzir os danos provocados pelas reações agressivas, nosso alvo de intervenção precisa ser a modificação de contingências. Caso contrário, talvez o investimento no apelo à boa-vontade dos humanos seja algo infrutífero.

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Notas:
[1] Papo para outro texto!
[2] Contingências ocorridas no ambiente de seleção natural. Para mais detalhes, ver Izar (2009).
[3] Para uma dimensão introdutória sobre a Teoria da Evolução, veja o texto “Quem tem medo da evolução?”.
[4] Os mecanismos são adaptativos às circunstâncias e, portanto, não se restringem a uma só contingência.

Referências

Axelrod, R. & Hamilton, W. D. (1981). The evolution of Cooperation. Science, 211, 1390-1396.

Darwich, R. A., & Tourinho, E. Z. (2005). Respostas emocionais à luz do modo causal de seleção por conseqüências. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, 7(1), 107-118.

Izar, P. (2009). Ambiente de Adaptação Evolutiva. In E. Otta & M. E. Yamamoto (Eds.), Fundamentos de Psicologia: Psicologia Evolucionista (1 ed., pp. 22-32). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Lewin, R. (1999). Evolução Humana. São Paulo: Atheneu Editora.

Nietzsche, F. (2000). Humano, demasiado humano. São Paulo: Brasiliense.

Queiroz, R. S. (2009). Agressividade Humana: Contribuições da Psicologia Evolucionista e da Antropologia. In E. Otta & M. E. Yamamoto (Eds.), Fundamentos de Psicologia: Psicologia Evolucionista (1 ed., pp. 127-132). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Rodrigues, M. M. P. (2009). Evolução Humana. In E. Otta & M. E. Yamamoto (Eds.), Fundamentos de Psicologia: Psicologia Evolucionista (1 ed., pp. 33-41). Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.

Zortea, T. C. (2013, Janeiro 20). Notas sobre criminalidade e sistema prisional. [Web log message] Recuperado de: http://comportamentoesociedade.com.

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Tiago Zortea
Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde atuou como pesquisador-bolsista do Ministério da Educação pelo Programa de Educação Tutorial em Psicologia. Possui mestrado em Psicologia pela mesma instituição na área de Evolução e Etologia Humana (Bolsista CAPES). Possui formação em Terapia Comportamental pelo Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR) e atua em consultório particular no trabalho com crianças, adolescentes e adultos. Atualmente é pesquisador de PhD na University of Glasgow (Escócia, Reino Unido), membro do Suicidal Behaviour Research Laboratory, onde pesquisa sobre comportamento suicida e práticas parentais. É membro da British Psychological Society e revisor do periódico Archives of Suicide Research (International Academy of Suicide Research). Trabalha com os seguintes temas/áreas: Suicídio; Comportamento Suicida; Autolesão; Prevenção ao suicídio; Práticas parentais; Psicologia Clínica; Análise do Comportamento; Etologia Humana; Investimento Parental.
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