Factoides da Psicologia Contemporânea

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Periodicamente, o noticiário mainstream veicula matérias sobre curiosas descobertas da pesquisa psicológica. Sexualidade, inteligência, diferenças de gênero e genética comportamental estão entre os temas mais quentes sobre os quais psicólogos e afins, com autoridade de ciência, se dedicam a investigar. Entretanto, ainda que tais pesquisas muitas vezes sejam encabeçadas por celebridades psi e apresentem algum suposto rigor metodológico, quanto crédito elas de fato merecem?

Muitas descobertas intrigantes brotaram no cenário da psicologia científica nos últimos anos, mas aqui faço menção particularmente a factóides. Pesquisas que relacionam padrões comportamentais (ou “traços de personalidade”) a grupos específicos geralmente geram bastante controvérsia, vendem mais, e, por isso mesmo, são freqüentes em publicações não especializadas. Polêmicas também se estendem à conduta de profissionais. No Brasil, nos últimos anos, um psicólogo foi acusado de atear fogo na paciente[1] (e incêndio), outras viraram manchete por supostamente oferecer terapia de reversão a homossexuais que desejassem mudar de orientação sexual, e, ano passado, os jornais contaram o caso da psicóloga que passou três dias num porta-malas porque estava “perdida dentro de si”[2]. Sem falar no Australiano de 64 anos que fazia a cliente de 22 usar coleira de cachorro e chamá-lo de “mestre”[3]. E isso em terapia, e não fazendo bondage. Será que ao menos o título de mestre ele tem?

Mas voltemos às pesquisas. Recentemente foi noticiado que mulheres preferem homens que não demonstram seus sentimentos[4]. Não tive acesso ao paper original da Psychological Science, periódico da publicação original, mas imagino que os autores tenham feito as devidas ressalvas, assinalando que os resultados desse tipo de estudo são necessariamente probabilísticos (para além de N possíveis restrições metodológicas). Mas quando pessoas que têm acesso a esse tipo de informação via meios de divulgação científica (não raro sensacionalistas) a utilizam cegamente como guia de conduta, demonstram uma certeza deslumbrada pela ciência que cientista algum é capaz de justificar.

Longe de mim criticar o modo como a imprensa “sensacionaliza” resultados de pesquisa: sempre fui e sigo favorável a uma imprensa absolutamente livre! Culpar a imprensa, creio, desvia a atenção do ponto nevrálgico: a vulnerabilidade de um público cuja formação científica muitas vezes é miserável. Incluir disciplinas como História da Ciência e Filosofia da Ciência nos currículos do ensino básico poderia, por exemplo, ser um meio de prevenir reações descabidas ao contato com a pesquisa científica.

Lembro-me também de um estudo citado no documentário For the bible tells me so (2007)[5]: dentre gêmeos idênticos, quando um é homossexual, o outro também é em 70% dos casos. O narrador acrescenta ainda que “esse estudo mostra que os genes exercem um papel mais importante em determinar a orientação sexual do que em determinar se a pessoa é destra ou canhota”. Sem negar a relevância da história filogenética, no caso citado seria interessante questionar: dentre os gêmeos que compuseram a amostra, quantos viveram e vivem no “mesmo ambiente” (leia-se, um contexto relativamente semelhante, pois comportamentalmente falando o ambiente nunca é o mesmo para organismos diferentes), e quantos não? O ideal seria uma amostra composta por ambos. Se esse cuidado metodológico em isolar a variável “genes” não for tomado, e supondo que a grande maioria dos gêmeos foi criada em contextos muito semelhantes, supervaloriza-se o papel das variáveis genéticas, e negligencia-se o papel das variáveis ambientais na configuração da orientação sexual. Levantar questões que coloquem teorias em cheque (à la Karl Popper, em sua proposta de conjecturas e refutações), é inerente ao jogo científico. E é do embate entre teorias em conflito que se desenvolve o conhecimento, de uma perspectiva evolucionária[6].

Um fato de especial interesse à comunidade de analistas do comportamento, que alguns ainda talvez desconheçam: quando publicado, o incendiário The Bell Curve (Herrnstein & Murray, 1994)[7] provocou reações em todo o mundo, inclusive no Brasil. Merece destaque a réplica[8] das professoras Tereza Sério (in memorian, uma das pessoas mais fantásticas que conheci!) e Maria Amália Andery, da PUC-SP. A resposta delas à obra, além de um exame crítico dos pressupostos e da metodologia empregada, indica incompatibilidade entre as suposições da obra e as do Behaviorismo Radical. É desse modo, discutindo idéias e contrastando pontos de vista, e não censurando tudo aquilo que é julgado (por quem?) politicamente incorreto, que a ciência pode progredir de modo razoável.

Tomemos como último exemplo um estudo que saiu na Social Psychology Quarterly, amplamente divulgado pela mídia brasileira quando de sua publicação[9], em que se afirmava que homens que traem são menos inteligentes. Uma das medidas de inteligência empregadas foi o Q.I., o que per se já é muito questionável. Além disso, pesquisas dessa natureza geralmente trabalham com o relato verbal dos sujeitos (já que a observação direta seria, em princípio, inviável). Lembro-me que à época alguém questionou: nesse caso, os resultados da pesquisa não se deveriam, talvez, ao fato de que somente os homens menos inteligentes confessam que traem?

Questionar as relações estabelecidas entre potenciais variáveis dependentes e independentes é tarefa imprescindível de qualquer pesquisador com senso crítico, mas isso não deve ser confundido com a paranoia fomentada por teorias de conspiração. Há aqueles que, com uma abordagem menos objetivista (discípulos de Kuhn[10] e Feyerabend[11]), consideram a relevância dos fatores ideológicos e da fragilidade dos cânones metodológicos no desenvolvimento da ciência. Por exemplo, a mesma pesquisa supracitada sustenta que a opção pelo liberalismo político e pelo ateísmo é característica distintiva dos mais inteligentes.

Ocorre que há quem argumente que, uma vez que os resultados do estudo favoreceriam um grupo específico (homens fiéis, ateus e liberais), estes seriam forjados (por exemplo, via manipulação da amostra ou dos instrumentos) sob interesses desonestos. Já os mais confiantes na neutralidade científica (a metodologia preveniria manipulações, afinal, esta é a sua função), advogariam que “contra fatos não há argumentos”: um estudo nesses moldes (que relaciona a inteligência à personalidade) obviamente sempre acabará “favorecendo” um grupo em detrimento de outro, logo, isso não seria evidência suficiente para engendrar suspeita de fraude.


Será que a percepção da tênue linha que distingue um senso crítico prudente de um paranoico sempre dependerá, no fim das contas, do velho (e quiçá relativo, arbitrário e subjetivo) “bom senso”?

Referências:

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Comporte-se
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