À sombra de Darwin, Alfred Russel Wallace recebe o devido reconhecimento

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Alfred Russel Wallace (1823-1913) chegou a Cingapura em 1854 com um plano simples. Pesquisaria a fauna da região e enviaria espécimes de volta a Londres para venda a museus e colecionadores ricos. Sua segurança financeira dependia de espécimes exóticos estrangeiros, uma categoria de produto pela qual os britânicos da era vitoriana pareciam sentir apetite insaciável.
O naturalista britânico recolheu milhares de insetos e pássaros durante os oito anos que passou no sudeste da Ásia. E ainda que as estranhas criaturas de Wallace tenham encontrado compradores dispostos a pagar bom preço em seu país, o valor da coleção provou ser mais que monetário. Ao estudar cuidadosamente os animais, Wallace acabou por fazer uma das grandes descobertas científicas da história: a teoria da evolução por seleção natural.
O trabalho de Wallace quanto a essa teoria, bem como suas percepções reveladoras sobre a biodiversidade, está descrito em milhares de páginas de livros, artigos, desenhos e pinturas, que hoje estão sendo apresentados de forma integrada pela primeira vez em um projeto on-line comandado por John van Wyhe, historiador na Universidade Nacional de Cingapura. O projeto Wallace On-line foi bancado por um doador anônimo norte-americano, e está sendo lançado pouco antes do centenário da morte do cientista, que ocorrerá no ano que vem.
As publicações de Wallace estavam distribuídas entre milhares de revistas e jornais e jamais haviam sido reunidas em uma coleção unificada. O projeto apresenta 28 mil páginas de documentos abertos a buscas e 22 mil imagens. Entre elas há fotos deslumbrantes de plantas carnívoras, de irenidae asiáticos –pássaros com pelagem preta e azul celeste– com e desenhos meticulosos de borboletas e besouros.
Van Wyhe, que comandou um projeto semelhante com o trabalho de Darwin anos atrás, disse que a coleção de Wallace tem por objetivo servir como fonte confiável de informação sobre o naturalista cujo nome terminou completamente eclipsado pelo de Darwin. “Era preciso fazer justiça a Wallace. Ele é muito menos conhecido que Darwin, e já é mais que hora que as pessoas tenham acesso confiável ao seu trabalho”, disse Van Wyhe.
RESPEITO MERECIDO
A história da ciência está repleta de nomes que não recebem o respeito merecido, mas o caso de Wallace é extremo. Em julho de 1858, os primeiros estudos sobre seleção natural foram lidos para a audiência na Linnean Society, de Londres –um de Darwin, um de Wallace. Ainda que os dois cientistas tenham anunciado a teoria ao mesmo tempo, a publicação do trabalho de Darwin, “A Origem das Espécies”, lançado no ano seguinte, foi a semente da revolução, e atraiu a atenção dos cientistas renomados da era.
O livro não foi o único fator. A modéstia vitoriana influenciou em certa medida a posição discreta que Wallace conquistou na história, acompanhada por certa deferência pelo que ele, um homem pobre e de origens humildes, via como grandes figuras da ciência.
“Os vitorianos se esforçavam demais para superar os outros em modéstia. Modéstia era uma das grandes virtudes. Por isso Wallace, desde o começo, se referiu ao trabalho como a teoria de Darwin, e persistiu em fazê-lo até o final de sua vida”, disse Van Wyhe.
A partir de 1855, Wallace publicou uma série de artigos que se aproximavam mais e mais de declarar uma teoria de evolução via seleção natural. Em meio a um surto de febre malárica na ilha tropical de Ternate, Indonésia, ele teve um momento de clareza, uma percepção de que muitos nascem, muitos morrem, e apenas alguns sobrevivem.
Enviou um ensaio escrito na ilha a Darwin, que o repassou ao grande geólogo Charles Lyell, o qual propôs que o estudo fosse lido diante da Linnean Society em companhia de um ensaio de Darwin.
“É uma das grandes ironias da história. Wallace enviou seu ensaio ao único homem do planeta que estava trabalhando na mesma ideia há 20 anos. E Darwin, sendo outro perfeito cavalheiro, repassou o estudo a Lyell, o que resultou na decisão de publicar os estudos oferecidos pelos dois pesquisadores”, diz Van Wyhe.
A abrangente pesquisa de Wallace sobre a fauna levou a uma nova revelação científica em 1859, hoje conhecida como a linha Wallace. Ele percebeu que as espécies de cada lado de uma linha invisível que separa Austrália e Ásia eram substancialmente diferentes, a despeito de sua estreita proximidade geográfica. A observação conflitava com o pensamento da era, de que as espécies eram criadas para seu ambiente específicos.
Wallace propôs a hipótese de que os animais tinham vindo de suas antigas massas terrestres mais amplas, uma Super Ásia e uma Super Austrália, grande parte das quais posteriormente submergiu nos oceanos. “Ele não tinha como imaginar as placas tectônicas, que representam a verdadeira solução, ou que a Austrália surgiu na América do Sul”, disse Van Wyhe.
COMIDA
Entre os demais escritos de Wallace há anotações sobre as culinárias dos locais em que viveu. Em uma passagem sobre o durião, Wallace descreve essa grande fruta, do tamanho de um coco e dotada de espinhos curtos, causadora de grandes ferimentos ao cair das árvores e atingir os caminhantes incautos.
“Se levada para dentro de casa, seu cheiro é tão repulsivo que há pessoas que não conseguem se forçar a prová-la. Foi o que aconteceu comigo em minha primeira tentativa, em Malaca [na Malásia], mas em Bornéu eu encontrei um durião maduro caído no chão e o comi ao ar livre, o que logo me tornou adepto do durião”, ele escreveu.
Tendo declarado que era quase impossível descrever o sabor da fruta, ele tenta falando em “um molho doce e denso como manteiga, com um toque de amêndoa, serve como melhor indicação, mas há outros sabores que se pode sentir –queijo cremoso, molho de cebola, xerez e outras incongruências”.
Em outros de seus estudos, Wallace lamenta o ritmo de extinção forçada de diversas espécies, e faz um dos primeiros apelos pela conservação ecológica. Compara as espécies a cartas que compõem os volumes da história do planeta, e afirma que sua perda significa erradicar um registro inestimável sobre o passado.
“As eras futuras certamente nos verão como pessoas tão imersas na busca de riqueza que nos cegamos quanto a considerações mais elevadas”, ele escreveu em um ensaio redigido no arquipélago malaio, em 1863.
Tradução de PAULO MIGLIACCI.

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