O Paradigma Respondente na clínica psicológica – Parte I

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    Existe na abordagem analítico-comportamental um excesso de atenção aos consequentes e certa desvalorização dos antecedentes e estímulos eliciadores. Obviamente os consequentes são muito importantes, mas vamos falar, nesse pequeno tratado, sobre outra forma de se atuar na modificação de comportamentos alvos, não mais olhando para o estímulo consequente (Sc), e sim para a manipulação de estímulos eliciadores.
    Algumas estratégias foram desenvolvidas para lidar com comportamentos que não são controlados pelas consequências, mas são disparados e controlados pelos seus antecedentes. Nesse caso, modificando a relação entre o antecedente e a resposta o comportamento irá mudar.
    Vamos falar em algumas estratégias baseadas no paradigma respondente, modificando pareamentos previamente existentes ou realizando outros, criando com isso, condições para que novas respostas sejam emitidas.
    Os avanços nos estudos dos reflexos condicionados e incondicionados propiciaram o desenvolvimento de técnicas baseadas no paradigma respondente que são utilizadas na clinica de psicologia em uma infinidade de casos clínicos.
    1 – Extinção respondente

    É chamada Extinção Respondente o processo de se enfraquecer a associação entre um Estimulo Condicionado e um incondicionado a qual ele foi pareado anteriormente. Com isso se espera que o produto do pareamento (a resposta condicionada) deixe de ser emitida. Com o enfraquecimento do estimulo condicionado, ele vai voltar a ser neutro, ou seja, vai perder a função de eliciar a resposta condicionada a qual ele estava ligado. RIES (2003) diz que a função da extinção respondente é diminuir progressivamente a magnitude da resposta e aumentar a latencia da mesma. Esse processo é importante na pratica do analista do comportamento, pois muitos casos que chegam aos consultórios possuem diversas reações respondentes como as fobias e alguns transtornos de ansiedade como a síndrome do pânico. 
    Um dos marcos do estudo de respondentes foi o desdobramento de uma experiencia do fisiologista russo Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936), que sistematizou conhecimentos sobre os reflexos e como eles podem ser aprendidos. Inicialmente o estudo de Pavlov não teria nenhuma relação com a psicologia, mas possui implicações para o estudo do comportamento humano evidentes e inegáveis.
    O experimento estava sendo realizado para estudar o sistema digestivo de cães, porém, no meio da experiencia, Pavlov começou a perceber que a salivação que estava sendo eliciada em seus animais na presença da comida aparecia mesmo sem a mesma estar sendo apresentada. Como Pavlov era um cientista e por isso prestava atenção nas variaveis que poderiam estar acontecendo, propos outro estudo para investigar o que fazia os cães salivarem mesmo sem a apresentação da comida. 
    O procedimento adotado foi tocar uma campainha (estimulo neutro) e logo após apresentar a comida fazendo com que a campainha deixasse de ser um estimulo neutro e se tornasse um estimulo condicionado, eliciando uma resposta de salivação. Para que a associação seja quebrada, basta apresentar o estimulo agora condicionado (campainha) sem ser seguido pela apresentação da comida. Em algumas sessões de pareamento, a campainha voltara a ser um estimulo neutro e o condicionamento estabelecido será quebrado. Pavlov demonstrou como um estimulo incondicionado pode se tornar condicionado e isso foi ponto de partida para muitos investigadores do comportamento humano entenderem os fenomenos comportamentais. É importante dizer que Pavlov, além de demonstrar cientificamente como um estimulo neutro se torna condicionado, ainda nos mostrou como se transforma um estimulo condicionado em um estimulo neutro novamente. As implicações para os estudos do comportamento humano são inegáveis. 
    Um exemplo do procedimento de extinção respondente baseado nos estudos de Pavlov seria a de uma criança que possui um intenso medo de palhaços.  Descobriu-se em terapia (1) que a criança era severamente punida em um comodo que possuia um grande quadro de um palhaço pintado. Ela era colocada de frente para esse enorme quadro e era fisicamente punida. A partir dos principios do condicionamento respondente, o quadro do palhaço que anteriormente era um estimulo neutro (sem função de eliciar uma resposta) acabou se tornando um estimulo condicionado, pois foi pareado intensamente com o castigo que a criança recebeu.
    A solução proposta foi à orientação dos pais para que tais punições não fossem mais apresentadas e a punição fosse trocada por processos de reforçamento diferencial de outras respostas e de respostas alternativas (DRO e DRA). Com a suspensão da punição frente ao quadro do palhaço e com a ajuda dos processos de reforçamento, as reações da criança ao ver um palhaço no comodo (chamado de cantinho do castigo),ou qualquer outro palhaço, foram diminuindo gradativamente de intensidade até o ponto em que houve de fato uma quebra no pareamento entre o estimulo condicionado (palhaço) e a resposta fóbica. Portanto o estimulo condicionado que anteriormente eliciava a resposta, agora voltou a se tornar um estimulo neutro, não mais causando sofrimento a criança.
    (1) É importante ressaltar que nenhuma terapia comportamental se baseia unicamente em paradigma estimulo – resposta e sim em uma série de procedimentos baseados em investigação de dados com rigor científico. 
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    Nos próximos textos estarei falando sobre outras técnicas baseadas no paradigma respondente.
    Fiquem atentos

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