Existe espaço para o conceito de autoestima na Psicoterapia Analítico Comportamental? O papel dos reforçadores condicionados generalizados

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Autoestima é um conceito gerado na psicologia que, por sua vez, foi facilmente incorporado à linguagem cotidiana. Como diversos outros conceitos similares, é utilizado como causa de comportamentos. Principalmente de comportamentos de relevância clínica, como, por exemplo: “Ela não termina com esse mau caráter por causa da sua baixa autoestima”; “Ele não passa em concurso público porque tem baixa autoestima”; “Ela fala bem em público porque tem autoestima elevada”.

É muito comum observar no discurso leigo, ou mesmo, técnico de psicologia clínica que uma meta importante de tratamento é aumentar a autoestima. Uma vez que ela esteja aumentada, os comportamentos desejáveis passam a ser emitidos com mais frequência e os indesejáveis param de ser emitidos. Uma causalidade tipicamente mentalista.

       

Ao se realizar uma análise mecanicista de forma simplista, pode-se dizer que as pessoas possuem uma espécie de reservatório interno onde é armazenada a sua autoestima. De acordo com o nível desse reservatório, a pessoa vai agir ou não de certas e certas maneiras em determinadas situações. Desse modo, é desejável que este reservatório esteja sempre cheio. Nessas situações, os comportamentos desejáveis, principalmente relativos ao contexto social, são prováveis de serem emitidos. Por outro lado, caso os níveis estejam baixos, são comuns tentativas de evitar situações socialmente arriscadas, como a exposição pública, por exemplo.

As críticas a esse modelo são as comuns às outras explicações mentais, como o fato da autoestima não explicar nada, caso não seja explicada; segundo, porque seus efeitos na condição de variável independente não podem ser observados, já que não pode ser manipulada diretamente; e, por fim, trata-se de uma explicação circular (Skinner, 1953). 
Boa parte das definições de autoestima envolve alguma espécie reconhecimento pessoal das próprias qualidades e que, obviamente, tal reconhecimento influencia as atitudes do indivíduo. De certa forma, parte do pressuposto de que a maneira como o indivíduo se vê ou se define interfere sobremaneira nas suas atitudes. Por exemplo, pessoas que se descrevem como “incompetentes” tenderão a fracassar mais e evitarão situações onde o fracasso tenha chance de ocorrer. Pessoas, por outro lado, que se consideram “atraentes” se exporão a um número maior as situações em que possam conquistar ou serem cortejadas, já que o sucesso é provável na concepção delas nesses contextos. 
Os usos do conceito de autoestima possuem interseções com os usos de vários outros conceitos, como segurança e insegurança; coragem e covardia; timidez e extroversão, autoconfiança ou falta de autoconfiança entre outros. Não foi coincidência a apresentação do conceito e de seu antônimo. Autoestima é daqueles conceitos que embute tanto o que ele é, quanto o que ele não é. Ou seja, baixa autoestima como oposto ou polar de autoestima elevada. 
A despeito das discussões filosóficas envolvendo o conceito, o tópico de interesse é como trabalhar a autoestima em terapia e como elevá-la. Por mais que o conceito seja um bom resumo de relações comportamentais complexas, deixa a muito a desejar do ponto de vista da precisão para a previsão e controle tanto almejados pela a Análise do Comportamento. Obviamente não há como aumentar a autoestima, já que ela não pode ser manipulada diretamente na condição de variável independe e não pode sofrer influências quantificáveis de outras variáveis na condição de variável dependente. No fim das contas, aumentar a autoestima de alguém, se é que isso é possível, trata-se de mudar a probabilidade dos comportamentos descritos pelo termo. Para analistas do comportamento, mudar a probabilidade de um dado comportamento só possível ao manipular as variáveis ambientais das quais é função. Desse modo, o conceito de autoestima para a análise do comportamento é inútil, já que é um passo intermediário entre as variáveis ambientais e o comportamento que traz todos os problemas filosóficos comuns aos demais conceitos mentalistas como ele. A forma parcimoniosa do analista do comportamento trabalhar é descrevendo as relações comportamentais entre ambiente e organismo nos três níveis de seleção.
Não há como negar, entretanto, que aqueles comportamentos resumidos pelo conceito de autoestima são complexos e relevantes para a clínica psicológica. Desse modo, vale a pena discuti-los utilizando-se, para tanto, a linguagem comportamental:
A autoestima elevada ou positiva diria respeito a uma categoria relativa a comportamentos que descreve: a) uma alta probabilidade de comportamentos reforçados em sua maioria por reforçadores sociais (i.e., estabelecidos e mantidos por reforçadores condicionados generalizados); b) controle predominante por reforçamento positivo em detrimento do controle por reforçamento negativo; c) comportamentos respondentes condicionados públicos e/ou privados que ocorrem em situações nas quais os comportamentos acima são emitidos e quando são reforçados (respostas que variam juntas na animação, na empolgação e na disposição, por exemplo); d) respostas de autoconhecimento tendo como topografia categorias descritivas elogiosas (sou inteligente, sou bonita, sou capaz, sou competente etc.) que resumem os comportamentos dos itens anteriores e a alta probabilidade de reforçamento dos operantes envolvidos; e) para essas pessoas, as autodescrições do item “d” poderiam exercer a função de autorregras (Skinner, 1969/1984), de modo a exercer efeito discriminativo e estabelecedor sobre seus comportamentos, tornando os comportamentos do item “a” mais prováveis quando a pessoa se depara com a contingência; f) uma independência dos reforçadores condicionados generalizados para a emissão de autodescrições elogiosas, o que permite um controle maior de reforçadores naturais e não sociais sobre os seus comportamentos.
Como descrito acima, a baixa autoestima seria o oposto de tudo isso: a) uma baixa probabilidade de comportamentos seguidos de reforçadores em sua maioria sociais; b) uma predominância de controle por reforçamento negativo, daí decorre uma alta probabilidade de respostas de fuga e esquiva principalmente de exposição social, onde os comportamentos do item “a” têm baixa probabilidade de reforçamento ou alta probabilidade de punição; c) comportamentos respondentes aversivos condicionados públicos ou privados em contingências controladoras dos comportamentos dos itens “a” e “b” (respostas que variam juntas na ansiedade, no nervosismo, no estresse e na vergonha, por exemplo); d) respostas de autoconhecimento tendo como topografia outras categorias descritivas (sou incapaz, sou feio, não consigo fazer nada direito, nada do que eu tento dá certo etc.) que resumem os comportamentos dos itens anteriores, a baixa probabilidade de reforçamento e alta probabilidade de punição dos operantes envolvidos; e) para essas pessoas, as autodescrições do item “d” poderiam exercer a função de autorregras, de modo a exercer efeito discriminativo e estabelecedor sobre seus comportamentos, tornando os comportamentos do item “a” menos prováveis e os do item “b” mais prováveis quando a pessoa se depara com a contingência; e f) os reforçadores condicionados generalizados como admiração, respeito, posse, demonstrações de amor etc. são mais importante no controle do comportamento do que os reforçadores naturais por eles sinalizados.  
Como se pode observar, autoestima é um conceito complexo que envolve comportamentos operantes e respondentes, verbais e não verbais, assim como, respostas de autoconhecimento ou pelo menos, respostas autodescritivas, sejam elas precisas ou não. 
A tentativa mais óbvia de lidar com pessoas de baixa autoestima é fornecer elogios de forma a convencê-la que sua autodescrição depreciativa está equivocada. Esse tipo de intervenção é muito comum de ocorrer quando a pessoa relata desventuras ou se deprecia. De forma bem simples, essa tentativa proverá reforçamento arbitrário para comportamentos queixosos e autodepreciativos (Oliveira, 2009). Logo, ao invés de enfraquecer os comportamentos de baixa autoestima, essa intervenção irá fortalecê-los. Ao mesmo tempo, ao fortalecer as autodescrições pejorativas, que exercem função de autorregras, ocorrerá uma diminuição de exposição às situações de reforçamento incerto. Sendo assim, ele terá menos oportunidade de adquirir o repertório comportamental para lidar com tais situações. Fora isso, será mais difícil ocorrer a extinção da função respondente dessas mesmas situações. Respondentes estes que provavelmente concorrem com os operantes que produziriam reforçamento nas situações de exposição social. 
Na Psicoterapia Comportamental Pragmática[1], abordagem psicoterápica proposta por Medeiros e Medeiros (2012), a atuação se daria em várias frentes. A primeira delas seria levar o cliente a relatar, por meio do questionamento reflexivo e de deveres de casa, as suas próprias qualidades, consequenciando com reforço de comportamento de ouvinte relatos elogiosos e não consequenciando relatos pejorativos. Diante de relatos pejorativos, questionar acerca de iniciativas que o cliente poderia emitir para mudar esse quadro. Tal intervenção tem a função de por em extinção a possível função manipulativa de relatos pejorativos e, além de criar condições para o cliente operar no meio para modificar padrões comportamentais que não aprecia em si mesmo, levá-lo a tatear que as mudanças dependem dele próprio. Essa última função é a mais importante, no sentido em que muitos clientes se comportam como se falar sobre o que lhes traz sofrimento seria suficiente para a mudança, e as mudanças não dependem deles. 
Outro aspecto trabalhado é levar o cliente a tatear que os comportamentos são mantidos em esquemas de reforçamento intermitente. Ou seja, que diversos comportamentos do cliente, mesmo atendendo aos requisitos da contingência, não serão reforçados. É importante que tateiem que o fato de um comportamento não ser reforçado todas as vezes em que ocorre, não significa que ele não será reforçado nunca. Por fim, que as consequências são para o comportamento e não dizem respeito necessariamente a quem os emite. Em outras palavras, um comportamento que fracassou não transformaria quem o emitiu em um fracassado.
Em último lugar, a mudança mais profunda decorre da alteração da função dos reforçadores condicionados generalizados. Os comportamentos descritos nos itens “a” e “f” são mantidos principalmente por reforçadores condicionados generalizados. A obtenção de tais reforçadores se torna o principal Sd para que o cliente mude as descrições que faz de si mesmo. Se o cliente recebe elogios, admiração, demonstrações de afeto entre outros reforçadores generalizados passa a se descrever de forma mais elogiosa. Porém, como esses reforçadores são liberados apenas intermitentemente, não são suficientes para que a sua descrição acerca de si mesmo seja modificada, principalmente quando a principal forma de entrar em contato com esses reforçadores é a emissão de falas autodepreciativas. O controle pelos reforçadores desse tipo acaba por suplantar o controle exercido pelos reforçadores que sinalizam. Logo, a pessoa se comporta sob o controle de demonstrações de que é amada, mesmo que os reforçadores advindos de ser amada, como companhia, sexo e afeto advindos da pessoa com quem se relaciona não sejam tão reforçadores para ela. Possuir um lindo cachorro de raça que receba muito elogios mesmo que não goste de brincar e rolar no chão com ele. 
A PCP visa, portanto, fazer com que o comportamento fique sob o controle dos reforçadores sinalizados pelos generalizados mais do que pelos reforçadores generalizados em si. Mais importante que ter o dinheiro na conta, é gastá-lo consigo mesmo. Mais importante que ter um lindo cão é se divertir com ele. Mais importante que ter pessoas que te amam é o prazer da companhia que elas proporcionam. Para a PCP se amar não é bater metas, mostrar que é bom, capaz, competente e etc. É sim, usufruir dos reforçadores associados a esses reforçadores condicionados generalizados. 
Referências:
Medeiros, C. A. & Medeiros, N. N. F. A. (2012). Psicoterapia Comportamental Pragmática: uma terapia comportamental menos diretiva. Em C. V. B. B. Pessoa, C. E. Costa & M. F. Benvenuti. Comportamento em Foco. v. 01. [417-436]. São Paulo: Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental – ABPMC.
Oliveira, C. G. A. J. (2009). O efeito da escuta diferencial sobre a frequência do comportamento verbal queixoso. Monografia de Conclusão de Curso de Graduação em Psicologia, Centro Universitário de Brasília, CEUB, Brasília, DF.
Skinner, B.F. (1994). Ciência e comportamento humano. Tradução organizada por J. C. Todorov & R. Azzi. São Paulo: Martins Fontes. 9ª ed. (Trabalho original publicado em 1953).
Skinner, B. F. (1984). Contingências de reforço: Uma análise operante da resolução de problemas. Tradução organizada por R. Moreno. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural. 2ª. Ed. (Trabalho original publicado em 1969).
[1] A Psicoterapia Comportamental Pragmática, abordagem de terapia analítica-comportamental, proposta recentemente por Medeiros e Medeiros (2012), caracteriza-se por intervenções menos diretivas, sem a emissão de regras, sem a utilização de controle aversivo e de reforçadores arbitrários pelo terapeuta. Sua ênfase se dá na análise funcional do comportamento verbal, no uso da relação terapêutica como instrumento de mudança e na realização de análises funcionais individualizadas não lineares. Seus principais procedimentos de intervenção são o reforçamento diferencial, a audiência não punitiva, o questionamento reflexivo e o pensamento pragmático.
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Carlos Augusto de Medeiros
Graduação em Psicologia pela Universidade de Brasília (1997), mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília (1999) e doutorado em Psicologia pela Universidade de Brasília (2003). Atualmente é professor titular do Centro Universitário de Brasília e Professor e Orientador do Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento. Coordenador do Curso de Mestrado em Psicologia do UniCEUB. Tem experiência na área de Psicologia Clínica como terapeuta individual e de casais e como supervisor em nível de graduação e pós-graduação. Apresenta publicações na área de relações de equivalência, comportamento verbal, comportamento governado por regras, relações amorosas, questões conceituais, clínica comportamental, análise comportamental de filmes e princípios de análise do comportamento. Junto com Márcio Borges Moreira, é autor do Livro, Princípios Básicos de Análise do Comportamento.
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