Quem tem medo da evolução?

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“Tábula rasa: A negação contemporânea da natureza humana” é o título de um dos livros de Steven Pinker (2004), um professor de Psicologia da Universidade de Harvard (EUA) com algumas ideias e concepções questionáveis acerca do funcionamento dos processos comportamentais. Título um pouco ousado, confessemos. Ao adentrarmos em suas páginas, no entanto, podemos entender sua função e visualizar o lugar em que Pinker quer chegar (apesar de usar para isso alguns caminhos um tanto quanto tortuosos): a proposição de que não somos um livro em branco cuja escrita será dissertada exclusivamente pela ontogênese, mas de que algumas de nossas páginas possuem pautas, outras marcações e indicações que farão diferença no processo de sua composição durante as décadas de nossa existência.

A ideia, entretanto, de uma “natureza humana” construída na evolução assusta não somente aos religiosos, mas também a um bom punhado de psicólogos. Controlados pela concepção idealizada e romântica de que tudo aquilo que diz respeito aos processos comportamentais se constitui uma “construção social” e como tal pode ser “descontruído”, caracterizando-se como objeto passível de plena modificação, grande parte desses profissionais desconsidera a existência de mecanismos construídos ao longo do processo evolutivo por seleção natural. No outro lado da canoa, contudo, há um grupo de evolucionistas que afirmam os humanos como seres completamente determinados por sua história evolutiva, reduzindo as relações comportamentais a expressões diretas de ações genéticas. Talvez aqui caiba a menção de uma clichê cansado por excesso de usos: “nem tanto ao mar, nem tanto à terra!”.

Em “Selection by Consequences”, um dos maiores feitos de sua obra, Skinner (1981) explana a construção dos três níveis de seleção por consequências à partir da evolução por seleção natural. Entretanto, apesar de abrir precedentes para a inclusão de aspectos filogenéticos como nível de análise na explicação do comportamento, vemos que a principal preocupação de Skinner ao longo de sua obra foi o aprofundamento na compreensão dos fatores ontogenéticos de controle sobre as relações comportamentais. Mas ainda assim, para o velho Skinner, o comportamento se caracteriza como fenômeno natural cuja área de estudo, a saber, a Análise do Comportamento, se constituiria uma ciência natural, com métodos e conceitos diferentes daqueles tradicionalmente adotados pela psicologia (Carrara, 2005; Tourinho, 2006).

Para muitos analistas do comportamento, “Filogênese” resume-se a processos respondentes incondicionados. Todavia, como nível de seleção, as variáveis biológicas não se restringem a mecanismos fisiológicos eliciados, e se nossas características nos tornam uma espécie (Homo sapiens sapiens), isto significa que há “traços” [1] também universais do humano, que pertencem à espécie, construídos ao longo de nossas história evolutiva, compartilhados por todos os humanos. É neste sentido que Pinker se refere a uma “natureza humana”. Obviamente não a trataremos aqui como guilhões biológicos determinantes de nossa história, mas como tendências, propensões comportamentais que coevoluíram com os dois objetivos filogenéticos fundamentais: sobrevivência e reprodução, tendências essas que se adaptam às contingências, sobre as quais se constrõem as peculiaridades individuais e culturais, tendências essas que subjazem a variabilidade e a diversidade das relações comportamentais humanas. Em outras palavras, as contingências do ambiente de adaptação evolutiva [2] selecionaram aqueles reperórios comportamentais cujas consequências oportunizaram a sobrevivência e a reprodução (trasmissão genética do indivíduo para a população descendente). Considerando que este processo durou milhões de anos, nosso corpo e nossos mecanismos fisiológicos atuais foram selecionados para funcionar em savanas, em ambientes perigosos, desprotegidos cuja exigência principal era a de manter a vida, seja por sobrevivência ou reprodução. Deste modo, temos um corpo ancestral em tempos de modernidade, tempos esses que estabelecem exigências completamente diferentes mas capaz de discriminar contingências do ambiente de adaptação evolutiva e desencadear em nós propensões comportamentais que coevoluiram com os dois objetivos filogenéticos fundamentais. Um exemplo seria o medo. Oliva et al. (2006) descrevem:

Cada emoção atua sobre vários outros programas adaptativos, desativando alguns, ativando outros e mudando os parâmetros de terceiros, permitindo que todo o sistema opere de modo eficaz e harmonioso, toda vez que se defrontar com certos tipos de condições. Numa situação típica de medo, por exemplo, ativa-se o circuito de detecção da presença de algo ameaçador. Ocorrem mudanças na percepção e na atenção, exemplificáveis pela redução do limiar para pequenos ruídos. Há mais detecção de perigos à custa do aumento de alarmes falsos. A mudança motivacional é notável; a segurança ganha prioridade máxima. Não se tem mais fome, não se pensa mais em conquistar um namorado, ou em treinar nova habilidade. Há um redirecionamento de objetivos: Onde está meu bebê? Onde estão meus pais? Meus amigos? Onde estão os que podem me proteger? Ganham prioridade determinadas categorias, como perigoso ou seguro. As reações fisiológicas parecem depender da natureza exata da ameaça e da melhor maneira de enfrentá-la. (p. 57).

Deste modo, a evolução atuou muito mais do que uma “seleção natural de padrões fixos de ação” da espécie, pois não são fixos, mas modulados conforme os estímulos discriminativos do ambiente. Isto significa que os mecanismos selecionados não são exclusivamente respondentes, mas se mostram também na influência sobre a emissão de comportamentos operantes. Conhecemos os estímulos incondicionados que eliciam respondentes em nós. No entanto, a própria possibilidade de condicionar estímulos neutros a respostas reflexas foi selecionada durante a evolução, dada a diversidade de ambientes de inserção dos grupos humanos ancestrais e o fator imprevisibilidade neles envolvidos quanto à sobrevivência e à reprodução.

Vale ressaltar, no entanto, que não são todos os nossos comportamentos que possuem valor de sobrevivência, já que a seleção natural atuou sobre contingências específicas. À partir deste ponto de vista, o nível filogenético possui limites de explicação, tal como os demais níveis. Estes limites, obviamente, não estão completamente claros, eis porque diversos programas de pesquisas delineiam diferentes métodos para alcançar tal compreensão. Mas é essencialmente importante que os analistas do comportamento amplifiquem suas visões acerca da filogênese (como tem sido feito no nível cultural com o crescimento de pesquisas nesta área), cujas descobertas podem contribuir significativamente para a compreensão de nosso objeto de estudo, e para a amplificação do entendimento dos outros dois níveis.

Já temos bem desenvolvidos os procedimentos para a redução de medos específicos, tal qual a desensibilização sistemática e a submissão às contingências em detrimento do controle por regras. Se a Teoria da Evolução ainda nos é um estímulo com função aversiva (seja por quaisquer motivos, inclusive pelo questionamento de nossas estruturas teóricas supostamente estáveis), já sabemos o caminho para que ela deixe de ser um bicho-papão e se torne um arcabouço a mais de contribuições à nossa ciência e filosofia, a Análise do Comportamento e o Behaviorismo Radical.

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Notas:
[1] No sentido não-mentalista do termo.
[2] Ambiente de vida de nossos ancestrais. “Ambiente de Adaptação Evolutiva” caracteriza-se como um conceito importante da Psicologia Evolucionista. Para um aprofundamento ver Izar (2009).

Referências:

Carrara. K. (2005). Behaviorismo Radica: Crítica e metacrítica. São Paulo: Editora UNESP.

Izar, P. (2009). Ambiente de Adaptação Evolutiva. In: Otta, E. & Yamamoto, M. E. Fundamentos de Psicologia: Psicologia Evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 22-31.

Oliva, A.D., Otta, E., Ribeiro, F.L., Bussab, V.S.R., Lopes, F.A., Yamamoto, M.E., & Seidl de Moura, M.L. (2006). Razão, emoção e ação em cena: A mente humana sob um olhar evolucionista. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 22, 53-62.

Pinker S. (2004). Tabula rasa: A negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras.

Skinner, B. F. (1981). Selection by consequences. Science, 213 (4507), 501-504.

Tourinho, E. Z. (2003). A produção de conhecimento em psicologia: A análise do comportamento. Psicologia: Ciência e Profissão, 23, 30-41.

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Tiago Zortea
Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, onde atuou como pesquisador-bolsista do Ministério da Educação pelo Programa de Educação Tutorial em Psicologia. Possui mestrado em Psicologia pela mesma instituição na área de Evolução e Etologia Humana (Bolsista CAPES). Possui formação em Terapia Comportamental pelo Instituto de Terapia por Contingências de Reforçamento (ITCR) e atua em consultório particular no trabalho com crianças, adolescentes e adultos. Atualmente é pesquisador de PhD na University of Glasgow (Escócia, Reino Unido), membro do Suicidal Behaviour Research Laboratory, onde pesquisa sobre comportamento suicida e práticas parentais. É membro da British Psychological Society e revisor do periódico Archives of Suicide Research (International Academy of Suicide Research). Trabalha com os seguintes temas/áreas: Suicídio; Comportamento Suicida; Autolesão; Prevenção ao suicídio; Práticas parentais; Psicologia Clínica; Análise do Comportamento; Etologia Humana; Investimento Parental.
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5 COMENTÁRIOS

  1. O “temor” às ideias evolucionistas é claro nos ambientes acadêmicos, especialmente na psicologia. As palavras “gene”, “genética”, “natureza”, são imediatamente associadas a fatalismo, imobilidade, estaticidade, então corremos às léguas delas, pois não queremos ver essas características atribuídas ao nosso tão complexo, fluido e mutável ser humano. Natural não é sinônimo de estável, imóvel, a-histórico, como muitas teorias dão a entender. A compreensão e o aprofundamento do que áreas como o evolucionismo tem a dizer, certamente contribuiriam para acabar com muitos tabus.

    Parabéns pelo texto!

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