Por trás dos tiros – Entenda o Bullying e as suas consequências.

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A presente entrevista foi dada pelo Psicólogo Marcelo Souza, parte da equipe do Comporte-se para a construção de uma matéria sobre Bullying chamada “Por tras dos tiros” do Jornal Comunicação da Universidade Federal do Paraná – UFPA. (Abril, 2012)

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1. Embora o Bullying tenha se tornado um assunto de conhecimento geral, nem sempre os motivos dos agressores são conhecidos. Há algo que explique por que alguns jovens praticam esse tipo de violência?
R – Existem diversas variaveis que podem ajudar a entender essa questão. A motivação de um agressor pode ter diferentes funções. Sabemos que em muitos casos, o agressor obtem aprovação social e reconhecimento pelas agressoes no meio que está inserido e essa aprovação funciona como combustivel para que a violência seja continua e crescente. Geralmente o agressor é um individuo com baixa autoestima que encontra nas agressoes a um individuo menor ou mais fraco o reconhecimento social que não poderia ser encontrado de outra forma. Em minhas pesquisas e atendimentos, percebo que existem dois tipos de agressores.
O primeiro tipo é o agressor ativo, aquele que pratica a violencia, a provocação e a humilhação de outro individuo. O segundo tipo e o que eu considero mais cruel são chamados de agressores passivos. Eu chamo de passivos por que não participam diretamente da violencia, mas são aqueles que dão risada das piadas, e dão o reconhecimento social ao agressor gerando um ciclo interminavel de violência. Geralmente é um grupo grande que somado ao agressor ativo, acaba se tornando um exercito que deixa a vitima mais encolhida e com mais medo de reagir às provocações. Em tese não existe uma motivação que possa ser generalizada para todos os casos, mas o reconhecimento social da violencia está presente em grande parte dos casos.

2. Os agressores geralmente possuem características em comum ou algo que os torne bullies em potencial? É possível traçar um perfil para os agressores?
R- Como disse anteriormente, os agressores geralmente são pessoas com baixa autoestima, com problemas de autoconfiança, intimidade e notóriamente tem uma capacidade de empatia muito prejudicada. Não conseguem se colocar no lugar do outro e de fato em muitos casos podem até sentir prazer com as provocações e violência. Não é possivel determinar um perfil padrão que possa ser generalizável, pois cada agressor tem uma história de vida e vai ser nessa história de vida que iremos encontrar explicações sobre a motivação dele para a violência. Embora exista uma topografia de ação parecida em todos os casos de bullying, podemos dizer que existem funções diferentes a cada um dos agressores.
3. E quanto às vítimas, há como traçar um perfil geral?
R- As vitimas possuem algumas caracteristicas em comum. Geralmente são pessoas que possuem uma baixa assertividade e habilidades sociais prejudicadas. São calados, timidos e podem apresentar problemas mais intensos como a depressão e transtornos de ansiedade. O Bullying podem não ter ligação direta com o comportamento da vitima e sim com algum outro aspecto que ela possui. Podemos citar como exemplo, um nariz maior, uma orelha de abano, cor da pele e etinia nos casos de racismo ou outros problemas fisicos. Obviamente, não são todas as vitimas que vão apresentar as caracteristicas comportamentais ditas anteriormente, pois muitas outras variaveis influem como a resiliencia, tolerancia a frustração, capacidade de lidar com o sofrimento etc…
4. Quanto ao cyber bullying, por que esta forma é considerada mais violenta? De que forma a Internet pode “proteger” o agressor?
R- O Cyber Bullying é uma forma de violência relativamente nova que envolve a agressão e humilhação através da internet.  É considerada mais violenta por que a vitima não sabe de onde está vindo o ataque e ao invés de ter um agressor, pode-se ter dezenas ou centenas de agressores. Podemos pensar também que o alcance da internet é muito grande e com isso, mais humilhações podem ser adicionadas por pessoas que estão fora do convivio social da vitima aumentando então o poder destrutivo do Bullying. Um efeito interessante da internet é que as vitimas de bullying tem utilizado a internet para contra atacar os seus agressores contando com o anonimato que a internet proporciona.
Nesse caso, a vitima se torna agressor. O ambiente virtual protege a identidade e nesse ambiente não existe forte, fraco, timido ou calado, pois todos tem o mesmo poder de atacar sem possibilidade de contra ataque.
A vitima pode atacar um agressor muito maior se quiser e sua identidade vai ser preservada pelo anonimato. No Brasil não existe uma legislação especifica sobre Cyber Bullying, mas a justiça tem se empenhado em criar e desenvolver leis que protejam as pessoas de serem vitimizadas pela internet.
5. A Internet, por proporcionar o anonimato, tem aberto portas para que tipos de violência existentes no convívio social se estendam também para as redes sociais?
É notório que o Bullying e Cyber Bullying nos mostram algo muito maior que apenas a violência direcionada a uma vitima especifica. Mostra também que existe uma falta de dialogo entre pais e filhos, existe uma deficiencia de orientação na escola sobre valores éticos e morais e existe em nossa cultura uma permissividade inadmissivel em relação à violência. Episódios de humilhação, agressão verbal e agressão fisica se transformam em “brincadeira de criança”, pois não se tem a cultura de entender os problemas que tais “brincadeiras” causam a uma criança e posteriormente a um adulto.
A internet através do anonimato possibilita que um nivel muito maior de crueldade seja aplicado, pois quase sempre o agressor está protegido e a vitima está bem caracterizada. Muitas vezes a agressão pela internet tras, nome, telefone, numero de documentos e endereço da vitima, alem de ser crime passivel de prisão para o agressor, ainda expoe a vitma a mais violência. O Bullying e Cyber Bullying é a ponta do iceberg para uma realidade mais assustadora, a de uma cultura dominada por controle coercitivo e aversividade.
6. O senhor diz que algumas marcas ficam para a vida toda. O que é possível fazer é um “controle de danos”. Como se dá esse controle?
Algumas marcas realmente ficam por toda uma vida. Uma criança vitima de violencia vai se transformar em um adulto com sérios problemas de autoestima e de relações pessoais pobres na imensa maioria dos casos. Pode se tornar uma pessoa calada, com medo da vida, muito introvertida com habilidades sociais muito baixas. Em grande parte dos casos, transtornos de humor como a depressão e transtornos de ansiedade como síndrome do pânico, transtorno de ansiedade generalizada e até transtorno de stress pós-traumático costumam se instalar nas vitimas, levando a uma vida de intenso sofrimento com necessidade de intervenção especializada como Médicos Psiquiatras e Psicólogos.
Podemos salientar que muitos agressores na vida adulta também foram agredidos na sua infancia. Na psicologia temos um ditado que diz que “nem todo abusado se torna um abusador, mas todo abusador já foi um abusado”. Isso quer dizer que essas crianças que estão sofrendo com os maus tratos hoje, podem se tornar potenciais agressores no futuro e com isso o ciclo de violência nunca para.
O controle de danos tanto para a criança, adolescentes ou adultos que estão sendo vitimas de agressões pode ser feito em tres frentes. A primeira é a notificação da vitima ou de seus cuidadores ao local onde as agressões estão ocorrendo. Se acontece na escola, os pais devem primeiramente notificar os diretores e cobrar providencias, se for no trabalho, os supervisores ou chefes devem ser notificados e assim por diante.  A segunda frente é a judicial. Caso exista agressão fisica, ameaças de morte, publicação de documentos, endereço ou fotos na internet, a policia deve ser notificada através de boletim de ocorrencia com representação ao Ministério Publico, para que o poder judiciário tome as medidas apropriadas.
A terceira frente é a da saude, como disse anteriormente, Transtornos de Humor e Transtornos de Ansiedade costumam se instalar nas vitimas e para que esses problemas sejam cuidados, é necessário um encaminhamento para tratamento psicológico e em muitas vezes o tratamento psiquiatrico com o médico.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Ola Eduardo Signori.

    Obrigado pelo elogio ao texto.
    Realmente o Bullying tem aparecido cada vez mais nas mídias, porém o problema ainda está longe de ser resolvido.

    Volte sempre.
    Um grande abraço
    Marcelo Souza

  2. Muito boa e oportuna a sua entrevista.
    É um tema que precisa ser cada vez mais divulgado, visto que, o bullying está presente quase sempre em todos os lugares onde habita o ser humano.
    Conheço vários casos verídicos que acontecem tanto nas escolas públicas como na privada.

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