O estudo do comportamento facial humano

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“Ainda bem que foi produzida aquela série, porque ajuda a amplificar todos esses conhecimentos na área da expressão facial da emoção.”
Essas palavras foram extraídas da entrevista concedida pelo professor Freitas-Magalhães – diretor do Laboratório de Expressão Facial da Emoção da Universidade Fernando Pessoa em Portugal – e exibida no programa Porto Alive. A série à qual ele se refere é a produção norte-americana Lie To Me, que mostra as investigações de uma equipe formada por especialistas em detectar mentiras a partir da leitura de gestos e microexpressões faciais. Mas isso é possível? Segundo o próprio Freitas-Magalhães, isso é possível e cientificamente comprovado. Ele acrescenta que a parte científica da série está assegurada porque conta com a consultoria de Paul Ekman, considerado um dos cientistas mais destacados na área da expressão facial. O presente texto objetiva aproximar o leitor ao estudo das expressões faciais da emoção.


Panorama histórico do estudo das expressões faciais (EF’s) 
De acordo com Freitas-Magalhães (2011), o percurso da investigação da expressão facial da emoção pode ser dividido em três fases: 1) identificação e caracterização da estrutura dos movimentos faciais; 2) análise da função das EF’s; 3) percepção das implicações e promoção da aplicação dos estudos em diferentes contextos sociais (ex.: saúde, educação e justiça). 
Para Ekman (1999), a discussão a respeito da expressão facial da emoção ser universal ou ser específica de cada cultura começou a mais de 100 anos atrás, a partir da obra The Expression of the Emotion in Man and Animals de Charles Darwin, originalmente publicada em 1872. As evidências obtidas por Darwin a favor da universalidade das EF’s derivaram das respostas das cartas endereçadas a ingleses que estavam em diferentes partes do mundo. Eles afirmaram ter observado em terras estrangeiras as mesmas expressões da emoção que conheciam na Inglaterra, o que levou Darwin a dizer: “Segue-se, a partir das informações assim adquiridas, que o mesmo estado mental é expresso em todo o mundo com notável uniformidade (…)” ¹.
Após Darwin, a psicologia depositou pouca atenção ao estudo das expressões faciais. Erika Rosenberg (2005) alega que eventos ocorridos nas décadas de 1960 e 70 foram os responsáveis por atrair novamente o interesse pelo tema. Ela destaca, entre outros eventos, uma teoria do afeto proposta por Silvan Tomkins (1962), que colocava a face como local onde se manifestam as emoções; e os trabalhos transculturais sobre o reconhecimento das expressões faciais da emoção realizados por Ekman (Ekman, Sorenson, & Friesen 1969; Ekman & Friesen, 1971) e Izard (1971). 
Que emoções a face revela? 
Segundo Ekman & Friesen (2003), o método utilizado para determinar quais emoções podem ser verificadas na face humana tem sido apresentar fotografias e solicitar que observadores nomeiem as emoções verificadas nas fotos. O pesquisador, então, analisa as respostas e determina o grau de concordância na definição das emoções associadas às EF’s. Com base nos resultados obtidos, pode-se chegar a uma conclusão acerca de quais emoções a face é capaz transmitir. 
Nos últimos anos, pesquisadores que analisaram o comportamento facial conseguiram rotular com precisão seis configurações faciais associadas às emoções: alegria, tristeza, raiva, medo, surpresa e nojo. Provavelmente, existem outros displays faciais que sinalizam emoções, como a vergonha ou excitação, mas eles ainda não foram firmemente estabelecidos (Ekman & Friesen, 2003). Estudos subsequentes (Ekman & Friesen, 1986) apontaram para a classificação de uma sétima expressão facial da emoção: o desprezo. Esta ainda não foi inserida no hall das expressões básicas devido a algumas particularidades que não a discriminam plenamente do nojo e a raiva. 
A expressão facial da emoção é a mesma para todos os povos, ou é específica de cada cultura? 
Darwin disse que a expressão facial da emoção é biologicamente determinada e, portanto, universal. Produto da evolução do homem, não da cultura. Diversos autores discordaram dessa afirmação, no entanto descobertas científicas resolveram essa questão de forma conclusiva. Elas demonstraram que as EF’s de pelo menos algumas emoções (alegria, tristeza, raiva, medo, surpresa e nojo) são de fato universais, embora existam diferenças em relação a normas culturais para sua exibição (Ekman & Friesen, 2003). 
Em um experimento (Ekman, 1972), filmes que induziam estresse foram mostrados a estudantes universitários dos EUA e do Japão. Cada sujeito assistiu ao filme parte do tempo sozinho e outra parte acompanhado do assistente da pesquisa. Os movimentos faciais de cada sujeito foram registrados em vídeo e depois mensurados. Os dados revelaram que, quando sozinhos, americanos e japoneses emitiram EF’s virtualmente idênticas, mas quando acompanhados, os japoneses disfarçaram a expressão de emoções desagradáveis bem mais que os americanos. Este estudo concluiu que a característica universal da expressão facial é a sua configuração distinta para cada uma das seis emoções básicas. No entanto, pessoas de várias culturas diferem em relação à maneira como foram ensinadas a exibir suas EF’s em determinados contextos sociais. 
Ekman & Friesen (2003) nos contam que apesar das evidências encontradas, a universalidade das expressões faciais ainda não podia ser totalmente comprovada. Uma brecha nos estudos poderia ter dado margem a questionamentos. Afinal, as pessoas estudadas certamente já tiveram algum contato com filmes ou revistas estrangeiras, de onde poderiam ter aprendido determinadas poses. A única forma de solucionar esse entrave seria estudar pessoas de culturas visualmente isoladas, que nunca tiveram contato com qualquer produto estrangeiro. No intuito de atingir esse critério, Ekman conduziu uma série de experimentos com tribos isoladas da Nova Guiné. Suas pesquisas também concluíram que, embora o display facial para cada emoção básica fosse comum a todas as pessoas, existem convenções culturais que estabelecem diferentes regras para o comportamento facial em público. O estudo também mostrou que diferentes coisas eliciam diferentes emoções em diferentes culturas – por exemplo, pessoas de diversas localidades sentem nojo ou medo em resposta a coisas específicas. 
Pesquisas também se estenderam a outro tipo de população visualmente isolada. Os cegos congênitos. Matsumoto & Willingham (2009) realizaram um estudo inovador, em que examinaram fotos de vários atletas de judô tiradas nos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de Atenas em 2004 e, a partir daí, compararam as EF’s de competidores cegos e não cegos. O resultado foi que todos os competidores revelaram a mesma expressão em resposta a vitória ou a derrota. Os dados reafirmaram a universalidade da expressão facial da emoção e lançaram uma nova luz acerca de como os humanos aprendem a ajustar sua expressão facial em contextos sociais específicos. Os autores demonstraram que a habilidade de controlar as expressões não é aprendida apenas visualmente. A evidência para esta afirmação foram os “sorrisos polidos”, emitidos por atletas que não ganharam a medalha desejada, durante a cerimônia de premiação.



Considerações finais 
Para finalizar, é necessário enfatizar a enorme importância do estudo da emoção. Segundo Ekman (Emotions Revealed, 2003), as emoções podem substituir o que muitos psicólogos consideram os motivos fundamentais que dirigem nossas vidas: fome, sexo e o impulso de sobrevivência. Algumas pessoas podem se recusar a comer se tiverem nojo da única fonte de alimento disponível. Outros podem evitar o contato ou interromper a atividade sexual devido à interferência de emoções como medo, ansiedade, nojo, raiva, entre outras. E a desesperança pode motivar o suicídio. Em suma, a emoção pode triunfar sobre a fome, o sexo e a própria vida. 
Ser capaz de detectar emoções a partir das EF’s, analisando-as contextual e funcionalmente, é ter a oportunidade de operar sobre o seu ambiente a partir do reconhecimento de estímulos discriminativos (ou deltas). É ter a oportunidade de impactar positivamente sobre sua própria vida e sobre a vida das pessoas que o cercam: familiares, amigos, colegas de trabalho, alunos, pacientes… 
¹ Tradução do autor: [“It follows, from the information thus acquired, that the same state of mind is expressed throughout the world with remarkable uniformity (…)”]


Referências 
Darwin, C. (1998). The expression of the emotions in man and animals (3rd ed.). New York: Oxford University Press. 
Ekman, P. (2003). Emotions revealed: Recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. New York: Times Books. 
Ekman, P. (1999). Facial Expression. In: T. Dalgleish, & M. Power, Handbook of cognition and emotion (pp. 301-320). New York: John Wiley & Sons Ltd. 
Ekman, P. (1972). Universals and cultural differences in facial expressions of emotion. In: J. Cole, Nebraska Symposium on Motivation (Vol. 19, pp. 207-283). Lincoln: University of Nebraska Press. 
Ekman, P., & Friesen, W. V. (1986). A New Pan-Cultural Facial Expression of Emotion. Motivation and Emotion , 10 (2), pp. 159-168. 
Ekman, P., & Friesen, W. V. (1971). Constants across cultures in the face and emotion. Journal of Personality and Social Psychology , 17, 124-129. 
Ekman, P., & Friesen, W. V. (2003). Unmasking the face: A guide to recognizing emotions from facial expressions. Cambridge: Malor Books. 
Ekman, P., Sorenson, E. R., & Friesen, W. V. (1969). Pan-cultural elements in facial displays of emotions. Science , 164, 86-88. 
Freitas-Magalhães, A. (2011). O Código de Ekman. Porto: Edições Universidade Fernando Pessoa. 
Izard, C. E. (1971). The face of emotion. New York: Appleton-Century-Crofts. 
Matsumoto, D., & Willingham, B. (2009). Spontaneous Facial Expressions of Emotion of Congenitally and Noncongenitally Blind Individuals. Journal of Personality and Social Psychology , 96, pp. 1-10. 
Rosenberg, E. L. (2005). The Study of Spontaneous Facial Expression in Psychology. In: P. Ekman, & E. L. Rosenberg, What the face reveals: Basic and applied studies of spontaneous expression using the facial action coding system (FACS) (pp. 3-18). New York: Oxford University Press. 
Tomkins, S. S. (1962). Affect, imagery, consciousness. New York: Springer.

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