Na prática a teoria é outra? ‒ Pensamento breve sobre a generalização de dados e a relação da teoria com a prática em Análise do Comportamento

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    Arranjos experimentais não são completamente generalizáveis às situações naturais, mas isso todo mundo sabe. O problema que isso causa, contudo, acerca de limites, usos e compreensão de uma teoria é algo um pouco mais problemático. Trata-se aqui da questão do fazer científico in loco: do trabalho do analista do comportamento e como este se relaciona a sua teoria ou princípios.
    Há certamente um vácuo entre os dados produzidos em laboratório e os dados tratados em situações menos controladas, como no caso da clínica. Contudo, também é certo que a prática do analista do comportamento, seja ele clínico ou trabalhando em qualquer ambiente para intervenção, é orientada por sua teoria. E aqui está um bom problema para tentar lidar de modo epistemologicamente orientado: o balanceamento entre uma teoria de viés experimental e sua utilização em ambientes cujo controle é inviável ou tem sua viabilidade prejudicada em alguma medida.
    Algumas incursões científicas programáticas [1] tem procurado lidar com este vácuo existente entre os dados produzidos na pesquisa básica e aquilo que é produzido na pesquisa aplicada ou mesmo na atuação profissional. É o caso, por exemplo, da concepção da Ciência Translacional que é, grosso modo, uma noção oriunda das ciências da saúde em geral que promove a produção intermediária entre o que é considerado básico e o considerado aplicado.
    Ao passo que este tipo de empreendimento poderá caminhar na direção de diminuir a distância entre o que é produzido no âmbito profissional e aquilo que é produzido em laboratório por meio de pesquisa básica, questões concernentes à distância, e mesmo sua redução, ainda restam na construção da compreensão compartilhada entre acadêmicos e profissionais.
    Uma das possíveis explicações para a diferença entre o que é feito pelos profissionais e o que é produzido em ciência básica é que ao longo do desenvolvimento da Psicologia (ou Análise do Comportamento) como atuação profissional e sua relação com o desenvolvimento da atividade de pesquisa no mesmo campo, é possível considerar que a atuação profissional começou “antes” que o conhecimento produzido nos laboratórios fosse generalizável em medida satisfatória: isto é, houve discrepância imediata entre o básico e o aplicado, sendo que o segundo iniciou um desenvolvimento autônomo, e profícuo, mas criando descompasso entre ambas as áreas. Skinner (1990), em sua última conferência, na ocasião do recebimento de sua Menção Honrosa da APA pela Notável Contribuição à Psicologia [2], afirma que o desenvolvimento da psicologia como profissão, como prática foi muito mais rápido que o desenvolvimento da psicologia como ciência. E isto então teria levado a construção de novas ciências, derivadas da prática (psicologia clínica, do desenvolvimento, p.ex.).
    À parte a razão para a diferenciação das atividades de pesquisa básica e atividade profissional, a questão da diferenciação em si ainda aparece sobre a possibilidade de transposição de dados de um ambiente mais controlado a um ambiente mais natural ou, de mesmo modo, acerca da compreensão de fenômenos cotidianos pelos princípios da pesquisa experimentalmente orientada [3].
    E, ainda, ao considerarmos que os corpos de conhecimento produzidos em ambas as atividades de produção de dados são diferentes abordagens sobre o mesmo tema, restam as dúvidas: onde reside a diferença entre os constructos? E, sendo constructos distintos, mesmo que convergentes, qual o caminho para unificá-los?
    São características da Análise do Comportamento, dentre outras, sua construção histórica sobre as bases do empirismo e busca por princípios fundamentais simples e gerais acerca do comportamento humano. Neste sentido, portanto, é possível compreender que, havendo diferenças entre os constructos teórico e prático, esta divergência seria de aspecto nomológico (referente às leis, à explicação) e não ontológico (de natureza) [4].
    Sendo encontradas diferenças explicativas e de variáveis entre os constructos, e garantindo então que não estamos tratando de diferenças ontológicas, o próximo passo seria a construção de uma relação lógica entre os enunciados constituintes das duas abordagens (básica a aplicada): uma vez que o fenômeno não divergiria, mas sim o acesso a ele em diferentes níveis explicativos [5]. E, levando em consideração a estrutura científica proposta por Ernest Nagel [6], por exemplo, poderia tratar-se de um processo de redução.
    O processo de redução em ciência costuma ser alvo de críticas, chegando a ser considerado um problema em si mesmo, no sentido de que a redução seria degenerativa às teorias científicas. Com relação a este aspecto degenerativo, bastaria um exemplo para demonstrar que a redução é um processo válido, contínuo e que promoveu avanços ao longo da história. Ilustrativamente, portanto, é possível citar a redução da física Galilaica à Newtoniana. A segunda, sendo mais abrangente e generalizável, acabou por incorporar as leis da primeira. Note que este é um processo redutivo e sem perdas ou sem “supersimplificação” (crítica costumeira, e ingênua, aos processos de redução científica). E sim, redução pode significar expansão teórica. Afinal, a redução é uma questão relativa à lógica dos enunciados e não ao escopo compreensivo da ciência, como pode ser pensado no senso comum.
    Assim, mantendo a perspectiva de Nagel para a análise desta questão, é razoável considerar que o processo de diálogo e transposição de teoria e prática (entendidas aqui como duas teorias autônomas) ocorreria por meio de uma redução homogênea. Redução homogênea, como no caso do exemplo da Física mencionado anteriormente, é, grosso modo, a situação em que uma teoria mais abrangente aparece e inclui a anterior. E esta inclusão ocorreria sem “conflito” teórico, uma vez que a teoria mais abrangente manteria os conceitos da teoria anterior e sem alteração de sentido. E, dessa maneira, o diálogo estaria preservado, a distância entre as interpretações laboratoriais e cotidianas diminuída, e ainda mantendo a elegância e plausibilidade teórica sem serem consideradas diferenças ontológicas entre os fenômenos [7].
    Em suma, as variáveis consideradas no campo da produção de pesquisa básica são diferentes das variáveis consideradas na atuação profissional e prática, o que pode demandar procedimentos mais elaborados para a transposição teórica e/ou metodológica do que a simples comparação. Programas de pesquisa, como é caso daqueles que envolvem a concepção de Ciência Translacional podem ser um caminho profícuo para a superação desta distância conceitual e procedimental entre ambas. Mas, mais do que isso, considerando a atuação do psicólogo, é bastante relevante manter vivo o questionamento constante de qual a relação entre o que se faz e o que se produz na teoria. Afinal, se a prática está dissonante da teoria, mais do que constatar esta condição, faria parte do desenvolvimento da área a compreensão da diferença: seja para delimitar campos, seja para unifica-los.
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    1. Como um exemplo deste tipo de incursão, de relevância crescente, é possível destacar recente criação do National Center for Advancing Translational Sciences (NCATS), em 23 de dezembro do ano passado nos EUA.
    2. Recentemente mencionado em coluna do Comporte-se.
    3. Para um exemplo do tratamento deste tipo de questão em Análise do Comportamento, é possível destacar o trabalho recente: Baum, W. M. (2012) Rethinking reinforcement: allocation, induction, and contingency. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 97, 101-124. (Disponível aqui)
    4. Uma boa parte do raciocínio presente deste momento em diante foi fruto da leitura, há pouco menos de um ano, de artigo mencionado adiante. Trata-se de uma análise do problema do Materialismo Eliminativo acerca das Neurociências em relação à Psicologia. Neste sentido, por considerar sua argumentação válida também para o caso aqui exposto, esta espécie de analogia tinha sido proposta e, na execução atual do texto, motivada também pelo aparecimento recente da proposição teórica de Baum, pareceu mais adequado ainda considerar estes aspectos de “fusão” teórica. O artigo: Araujo, S. F. (2011) O Materialismo Eliminativo e o problema ontológico da Psicologia. Revista Ética e Filosofia Política, 14, 1, 36-45.
    5. Novamente aqui, refiro-me ao texto de Baum (mencionado em 3, acima), que dá um exemplo de uma tentativa de unificação lógica entre os enunciados básico e aplicado. Não está em análise aqui a validade desta proposta de unificação específica, mas sim o processo em si.
    6. Ernest Nagel (1901 – 1985). Filósofo da ciência, comumente visto como integrante do movimento do Positivismo Lógico, escreveu, dentre outras obras, “The Structure of Science: Problems in the Logic of Scientific Explanation” (1961), onde relata as relações lógicas de reducionismo aqui mencionadas.
    7. Aqui estou fazendo referência mais uma vez ao texto de Baum (mencionado em 3, acima), que propõe a unificação das explicações moleculares (aproximadamente, as laboratoriais) e molares (aproximadamente, as cotidianas e de situações naturais), compreendendo que haja diferenças ontológicas entre elas.
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    Guilherme Leugi
    Guilherme Bergo Leugi é psicólogo e bacharel em Psicologia pela Universidade Federal de São Carlos, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da mesma universidade, discente do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Comportamento, Cognição e Ensino (INCT-ECCE) e, desde 2009, membro do Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da UFSCar. Foi também formado em Terapia por Contingências de Reforçamento pelo Instituto homônimo, em Campinas. Ao longo de sua graduação e pós-graduação desenvolveu trabalhos envolvendo Economia Solidária (especialmente comportamento de consumo), programação de condições de aprendizagem e fundamentação teórica no estudo comportamental da cultura. Atualmente tem se dedicado ao estudo de comportamento social, contingências sociais, cultura e práticas culturais sob o viés da Ciência do Comportamento e do Behaviorismo Radical.
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    2 COMENTÁRIOS

    1. Excelente texto, Guilherme. Me motivou, entre outras coisas, a ler o artigo do Baum.

      O tema é pra lá de complexo. Você menciona, de maneira muito pertinente, o “descolamento” histórico entre pesquisas “práticas” e “teóricas”. Mesmo que o problema se reproduza na AC, ainda acho que é em grau menor do que em outras abordagens. Mas é isso: as demandas sociais sobre a psicologia foram muitas, e os pesquisadores simplesmente não “esperaram” mais que a ciência básica fundamentasse a prática. A grana também estava minguando, é bem verdade.

      Talvez haja alguma artificialidade na distinção entre ciência básica e aplicada. Não é a presença ou não de uma laboratório (ou de uma situação da “vida real”) que define a distinção, mas sim o controle de variáveis, que é sempre uma questão de graus. Não há uma métrica absoluta para definir o quanto desse controle é necessário pra chamar uma pesquisa de “básica” ou “aplicada”.

      Por fim, concordo inteiramente com você: o problema não tem nada a ver com distinções ontológicas.

    2. Oi Alexandre.
      Obrigado pelos comentários em relação ao texto. Também acho que temos um pouco de sorte em Análise do Comportamento, no sentido de a teoria e a prática terem andado um pouco mais juntas do que em outras perspectivas. E, realmente, uma métrica para a delimitação dos campos seria “forçar demais a barra”.
      O texto do Baum é bem interessante e suspeito que dá margem a inúmeras análises e críticas. Eu, aqui, só fiz um recorte muito limitado.
      Grande abraço!

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