Contribuições da Análise do Comportamento para Avaliação e Tratamento da Doença de Alzheimer

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    Erica Vila Real Montefusco, Psicóloga pela Universidade Federal do Ceará (2009), Pós-Graduada em Neuropsicologia pela Faculdade Christus (2011) – Fortaleza, CE


    Paulo Estêvão da Silva Jales, Psicólogo pela Universidade Federal do Ceará (2011) – Fortaleza, CE

    A velhice é associada, popularmente, a um estado de perdas, limitações e deficiências. Para além das modificações biológicas, há também mudanças psicossociais, incluindo aquelas de personalidade e das relações sociofamiliares, que podem desembocar na chamada “velhice patológica”. Nesse período da vida muitas questões passam a permear o indivíduo, sendo as mais frequentes aquelas relacionadas às doenças e à morte.
    Nesse contexto, destaca-se a doença de Alzheimer, que é, hoje, considerada um problema relevante de saúde pública, tanto pelo aumento do numero de casos (decorrentes, dentre outros motivos, do aumento da expectativa de vida), como pelo impacto da enfermidade na vida de pacientes e familiares.

    Segundo a literatura da área, não há consenso sobre suas causas. Sabe-se que se trata de um quadro degenerativo do sistema nervoso, de aparecimento insidioso, com déficits precoces na memória recente seguidos pelo desenvolvimento de afasia, apraxia e agnosia após vários anos (TOMAZ, 1996). 

    De acordo com o acima explicitado, consideramos importante fazer um parêntese para uma melhor explicação dos termos mencionados. A afasia consiste numa desordem de linguagem consequente a uma lesão encefálica focal (GIRODO e SILVEIRA, 2008). A agnosia ocorre quando o paciente perde a capacidade de reconhecer objetos, sem que se verifique comprometimento dos órgãos sensoriais, e a apraxia pode ser definida como um distúrbio na execução de movimentos aprendidos (GRIEVE, 2006).
    Alguns indivíduos podem apresentar alterações da personalidade ou maior irritabilidade nos primeiros estágios. Nos estágios posteriores, podem desenvolver perturbações motoras e da marcha, podendo por fim ficar mutdos e confinados ao leito (DSM-IV, 1995). O mecanismo de atrofia cerebral se dá inicialmente em áreas como o hipocampo, estendendo-se posteriormente a todo o córtex cerebral, afetando não apenas a memória, mas também as demais funções cognitivas (PETERSEN, 2006).
    Pessoas acometidas por esta patologia podem se esquecer de datas, de pessoas importantes em suas vidas, assim como perder objetos e demonstrar desorientação em relação ao tempo e espaço. O engajamento em atividades rotineiras diminui, assim como em atividades de convívio social. Podem também se tornar agitados, impacientes, confusos, agressivos, ansiosos ou apresentar comportamento social inadequado. O desempenho cognitivo decai até que, em geral, a morte sobrevém como consequência da inatividade e da manifestação de outras doenças (GIL, 2007).

    É importante ressaltar que, independente das alterações neurológicas apresentadas pelo portador de Alzheimer, o diagnóstico dessa doença é primariamente baseado na avaliação dos prejuízos à memória e no comprometimento das atividades cotidianas do indivíduo (fazer compras, voltar pra casa etc) (PETERSEN, 2006).

    Perceba-se que o critério da avaliação recai sobre alterações no comportamento apresentado pelo paciente. Um bom diagnóstico deve considerar a conduta passada e presente do paciente, comparando seu desempenho com desempenhos anteriores. Mais do que isso, um bom profissional reconhecerá alterações no ambiente próximo do paciente, estando atento à mudança de atitudes dos parentes, amigos e cuidadores.
    Essa perspectiva relacional, que foca a análise não apenas no organismo mas também no ambiente com o qual interage , já há muito é trabalhada pela clínica analítico-comportamental para a qual o treinamento ministrado ao profissional enfatiza a análise de contingências. Isso significa que o analista do comportamento, na sua prática regular, busca, na interação organismo-ambiente, eventos que possam influenciar na frequencia das respostas-alvo. Isso possibilita uma intervenção ampla de auxílio no convivo com a doença de Alzheimer. Ao retirar o foco das limitações e déficits apresentados pelo paciente e direcionar a observação para as contingências que controlam as classes de respostas com alta e baixa frequência, a análise do comportamento privilegia a obtenção de reforçadores e minimiza os produtos colaterais da punição, promovendo uma convivência menos aversiva com os efeitos da doença, tanto para o paciente como para aqueles que lhe são próximos.
    Pontes e Hübner (2008), ao falar sobre reabilitação neuropsicológica, apontam algumas razões pelas quais os métodos comportamentais são eficazes no tratamento da doença aqui discutida. Destacam-se a abundância de procedimentos tanto para diminuição de comportamentos-problema como para a instalação de novos comportamentos desejáveis, o estabelecimento de objetivos explícitos e com dificuldade e complexidade graduais, avaliação integrada ao planejamento da intervenção, tratamento individualizado e possibilidade de treinamento dos cuidadores para auxiliar e gerenciar as atividades propostas.
    Obviamente que (ainda) não é possível impedir completamente a progressão da degeneração neuronal na Doença de Alzheimer, mas, a análise do comportamento é profícua em arranjar contingências para a proliferação de respostas alternativas que produzam os mesmos reforçadores. Apesar do componente neuroanatômico limitar o comportamento, os anos de prática da clínica comportamental e os resultados apresentados nas mais diversas áreas do conhecimento demonstram que a influencia do ambiente, a estimulação contínua e o treinamento, são capazes de conjurar comportamentos muitas vezes considerados impossíveis (para mais informações sobre o assunto sugerimos a leitura do livro Guia da Clínica Mayo sobre o Mal de Alzheimer, 2006, especialmente o capítulo 6 para esta questão).
    O profissional chamado à intervir nos casos de pessoas com idade avançada, notadamente os portadores da doença de Alzheimer, também atua junto à família e aos cuidadores, trabalhando, além do diagnóstico, aspectos do prognóstico, prestando esclarecimentos e fazendo acompanhamento em caso de óbito. Dada a ampla atuação e à expansão dos conhecimentos no campo de trabalho, o psicólogo constantemente se sente estimulado e instigado a coletar dados sobre a patologia, possibilitando uma maior compreensão da Doença de Alzheimer e posterior incremento das práticas e intervenções clínicas, atingindo, assim, o objetivo de promover melhorias na qualidade de vida do paciente e de seus familiares.

    Palavras-chave: Neuropsicologia, Doença de Alzheimer, Análise do comportamento.


    Referências Bibliográficas

    DSM-IVManual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais. Porto Alegre, Ed. Artes Médicas, 1995.
    GIL R. Neuropsicologia. São Paulo: Santos; 2007.
    GIRODO, C.M, GIRODO, G.A, SILVEIRA, V.N. Afasias. In: Neuropsicologia teoria e prática. Daniel Fuemtes [et. al].Porto Alegre: Artmed, 2008.
    GRAEFF [et. al]. Neurobiologia das doenças mentais. São Paulo; Lemos Editorial, 1996.
    GRIEVE, J. Neuropsicologia em terapia ocupacional. São Paulo: Santos, 2006.
    PETTERSON, R. Guia da Clínica Mayo sobre o Mal de Alzheimer. Rio de Janeiro, Anima, 2006.
    PONTES, L. M. M., HÜBNER, M. M. C. A reabilitação neuropsicológica sob a ótica da psicologia comportamental. Revista de Psiquiatria Clínica, 35 (1); 6 – 12, 2008.
    PETERSEN, R. C., STEVES J. C., GANGULI, M., TANGALOS, E. G., CUMMINGS, J. L. & DeKOSKY, S. T. Practice parameter: early detection of dementia: Mild Cognitive Impairment. Neurology. 56,p.1133-1142, 2001a.  Disponível em: <http://www.siumed.edu/neuro/AAA2010/documents/41.pdf> Acesso em: 08 fev 2011.

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