Paulo Freire para Analistas do Comportamento

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Não é difícil encontrarmos em fóruns de redes sociais, Analistas do Comportamento se queixando sobre a dificuldade de inserção da abordagem alguns contextos. Do outro lado, também é bastante comum lermos críticas de profissionais sobre a linguagem hermética dela, além de questões mal resolvidas acerca de terminologias polêmicas (controle, punição, modelagem…). 
A Doutora Maria Esther Rodrigues (2006), discorre em seu trabalho sobre a necessidade da interlocução entre analistas do comportamento com outras comunidades verbais, a fim de que se façam entender e possam contribuir com mudanças sociais, seja em educação, ou em qualquer outra área.
Um exemplo desta interlocução pode ser observado em Fazzi e Cirino (2003). Os autores buscaram aproximações entre o conceito de autonomia para Paulo Freire e B. F. Skinner encontrando três possíveis semelhanças entre ambas as concepções:



 “1) a autonomia é entendida enquanto comportamento (ação) do sujeito que é aprendido a partir das interações sociais; 2) apesar de serem influenciados por fatores genéticos e ambientais, os seres humanos são capazes de arbitrar sobre estes fatores, sendo esta uma característica fundamental da autonomia; 3) ensinar consiste num dispor de circunstâncias para o desenvolvimento de comportamentos, incluindo a autonomia” (p. 7).

O trabalho em questão conclui que a aproximação entre Skinner e Freire pode contribuir para uma melhor compreensão dos fenômenos educativos e, em especial, da autonomia.
Outro exemplo de interlocução entre propostas analítico-comportamentais e freireanas para a educação vem de Belém, cidade situada no Estado do Pará, onde foi implementado em bairros pobres do município, um projeto de alfabetização de adultos baseado no método Keller (modelo de instrução personalizada) e no método Paulo Freire. A experiência foi exitosa tanto por ter alfabetizado os participantes do projeto, quanto pelo fato de eles terem lutado pela melhoria das condições sócio-econômicas de sua localidade (Amaral, 1983, apud Carmo & Batista, 2003¹). O fato deste programa de alfabetização ter tornado estes alunos autônomos e críticos de sua realidade corrobora com os ideais educacionais de Skinner, que pretendia formar alunos cônscios dos controles os quais estão submetidos a fim de exercer o devido contracontrole (Skinner, 1968). Além disso, corroboram com ideais freireanos, tendo em vista que Freire enfatiza a necessidade de termos uma educação voltada a formar cidadãos éticos, críticos, autônomos e engajados politicamente (Freire, 1996). Em síntese, ambos os trabalhos apontam para possíveis interlocuções e aproximações teóricas (Fazzi & Cirino, 2003) ou aplicadas (Amaral, 1983, apud Carmo & Batista, 2003) que podem favorecer a troca entre áreas (i.e., análise do comportamento e pedagogia), fomentar o respeito mútuo e o desenvolvimento de novas tecnologias.
Paulo Freire
Resolvi escrever sobre algumas semelhanças entre propostas skinnerianas e freireanas após uma discussão em sala de aula em que uma colega sugeriu a impossibilidade de tal feito.
Mas por que Freire?
Paulo Freire é um autor popular entre os pedagogos e tem a virtude de apresentar seus projetos para a educação com uma linguagem acessível aos demais leitores (habilidade que precisa ser mais desenvolvida nas produções analítico-comportamentais). Além disso, seu método se mostrou bastante eficiente na alfabetização de adultos.
Sobre as semelhanças…
Tanto para nós (Analistas do Comportamento), como para Freire, o ensinar é tido como um processo que depende de uma série de arranjos no contexto dos indivíduos, tendo por função não apenas depositar ou transferir conteúdos dos professores para os alunos, mas dar subsídios para que os mesmos possam se desenvolver criticamente quer seja no que diz respeito aos conteúdos previamente estabelecidos, quer sejam nas habilidades importantes para a vida, como a autonomia e a liberdade.
Para ambas as abordagens, a educação é encarada como um instrumento de mudança social. Uma forma de fazer com que o educando conheça melhor o mundo que o cerca a fim de poder lançar mão de diversos recursos afim de contracontrolar aspectos negativos de sua comunidade.
Sobre o papel do professor, também concordamos ao aceitarmos que o docente e o aluno são ativos na relação de ensino-aprendizado, participando dos dois processos. Freire também aponta o professor como fonte de reforçadores e modelo para os alunos, alertando para que ele seja coerente entre o que ensina e o como se comporta no dia – a dia. 
B. F. Skinner
Freire também leva em consideração o conhecimento prévio do aluno, devendo este servir de base para o desenvolvimento posterior das práticas de ensino. Skinner (1968/1972) e Freire (1996) defendem que o processo educativo deva conduzir o aluno para uma leitura mais rigorosa e sistemática do mundo que o cerca. Para tanto, qualquer forma de discriminação deve ser rejeitada e a prática educativa deve estar embasada em pressupostos éticos sólidos, devendo ter a liberdade como tema a ser trabalhado no contexto escolar, cada um segundo as suas especificidades epistêmicas.
O interessante é que quanto mais me aprofundo na leitura dos autores, noto que, apesar de estarem em diferentes contextos e cada um deles possuir um modus operandi e bases epistemológicas próprios, abordam vários aspectos básicos relativos à prática de ensino-aprendizagem que se assemelham em alguns pontos.
É possível – e bastante provável – que possam existir muitas outras semelhanças além das apresentadas aqui, já este é um trabalho interpretativo, e minha leitura se restringiu a apenas um livro freireano – “Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa” (Freire, 1996) –  e alguns trechos de outras obras do autor. Espero que tenhamos mais trabalhos deste tipo por aqui.
Para finalizar, um aspecto emblemático em Skinner e Freire é a disposição para mudança. Em sua obra “Walden II”, Skinner (1969), através de um romance utópico, expõe suas idéias para a solução de alguns problemas sociais, sugerindo o seguinte: “Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente”. Freire (1996), em sua obra “Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa” nos traz um pensamento bastante semelhante: “É a partir deste saber fundamental: mudar é difícil mas é possível, que vamos programar nossa ação político – pedagógica, não  importa se o projeto com o qual nos comprometemos é de alfabetização de adultos ou de crianças, se de ação sanitária, se de evangelização, se de formação de mão – de – obra técnica”

[1] Amaral, R. S. (1983). Alfabetização de adultos: relato de uma experiência em um bairro periférico de Belém. Manuscrito não-publicado, Universidade Federal do Pará, Departamento de Psicologia, Belém.
Referências
Carmo, J. S. & Batista, M. Q. G. (2003). Comunicação dos conhecimentos produzidos em análise do comportamento: Uma competência a ser aprendida? Estudos em Psicologia, 8 (3), 499-503.
Fazzi, E. & Cirino, S. D. (2003). A Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire e uma possível aproximação com a proposta de B. F. Skinner. In H. M. Sadi & N. Castro (Eds.). Ciência do Comportamento: conhecer e avançar. Santo André: ESETec, 3, 11 – 16.
Freire. P. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.  São Paulo: Paz e Terra.
Skinner, B. F. (1972). Tecnologia do ensino. Tradução de Rodolpho Azzi. São Paulo: EPU. Publicação original de 1968.
Skinner, B.F. (1978). Walden II: uma sociedade do futuro. São Paulo: EPU.
Rodrigues, M. E. (2006) Behaviorismo: Mitos, discordâncias, conceitos e preconceitos, Revista de Educação, 1 (2), 141-164.

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8 COMENTÁRIOS

  1. Excelente texto. Sou apaixonado por Educação, sempre fico atento ao que a Pedagogia tem a dizer e acredito na importância do diálogo teórico para que a Análise do Comportamento possa mostrar seu valor. Há três dias atrás eu comprei o Pedagogia da Autonomia (está na lista de espera para ser lido), confesso que seu texto me deixou bastante instigado.

    Abraço

  2. Muito bom, Rodrigo! Lendo seu texto, fiquei mais curioso em fazer relações entre a pedagogia e a AC. Acredito que podemos ganhar ainda mais terreno nessas discussões. Se buscamos melhores formas de educação, precisamos realmente fazê-la da melhor maneira possível.

    Abraço.

  3. Muito bom, Rodrigo! Lendo seu texto, fiquei ainda mais interessado nas articulações entre a pedagogia e a AC. Acredito que, ao fazer educação, devemos buscar as melhores soluções, e nesse sentido, podemos ganhar ainda mais terreno nessas discussões.

    Abraço.

  4. Gostei bastante da iniciativa em realizar essa relação entre as propostas de Skinner e de Freire para a educação. Essa é, realmente, uma das minhas principais preocupações como analista do comportamento: a escassez de reflexões como essas, que aproximam a Análise do Comportamento de outras comunidades verbais importantes.
    Ouso dizer que contribuiríamos MUITO MAIS à educação se dominássemos esse diálogo que você estabeleceu (por exemplo), pois tornar-se-ia possível ampliar as intervenções da Análise do Comportamento nessa área.
    Atuo com a educação e constantemente me dedico a explicar com base nos princípios do comportamento o que Piaget, Vygotsky, Wallon… falavam. É um exercício que exige estudo individual, pois há poucos teóricos que o façam em publicações. O que é uma perda. Por isso, meus parabéns pela iniciativa! =] Espero mais textos nessa perspectiva.

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