Entrevista com Cláudia Oshiro

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No mês de setembro de 2011 aconteceu o XX Encontro da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental, na cidade de Salvador – Bahia.  O Comporte-se estava lá, cobrindo o evento. Nós realizamos uma entrevista com a nova presidente da Associação, a Dra. Cláudia Oshiro, que você confere agora, aqui em nossa página.
1) Gostaria de começar pedindo que nos contasse um pouco sobre como foi sua aproximação com a Análise do Comportamento. Começou ainda na graduação?
A minha aproximação com a Análise do Comportamento foi, digamos, algo de mãe para filha. Minha mãe é psicóloga clínica e eu a acompanhei em várias situações que envolviam a Análise do Comportamento (aulas que ela ministrava na Universidade –  eu ganhava giz de várias cores para desenhar na lousa; congressos da ABPMC que eu frequentava de final de semana quando pequena). Também “experimentei” alguns procedimentos comportamentais: eu tinha um quadro de tarefas diárias que, de início, me rendia chocolates. Durante minha adolescência e período de mestrado de minha mãe, eu tive a oportunidade de conhecer pessoas encantadoras e apaixonadas pela Psicologia (posso citar algumas delas: Vera Raposo do Amaral, Hélio Guilhardi, Cristina Miyasaki, Eliane Falcone, Edwiges Silvares). Pude conviver com elas de perto e vivenciar um pouco as “aventuras” dos vários papéis do psicólogo: clínico, pesquisador, professor, supervisor, estudante de pós-graduação. Assim, sob essa influência, eu comecei a graduação na UFSCar curiosa para aprender sobre a abordagem comportamental. Eu me encantava a cada disciplina que fazia. É claro que isso se deveu ao fato de eu encontrar excelentes professores, todos dispostos a ensinar com propriedade cada conceito, princípio, processo. A partir do primeiro ano de faculdade, comecei a frequentar os congressos nacionais e internacionais da nossa área, o que ajudou a concretizar a minha paixão pela Análise do Comportamento.

2) A proposta da chapa Interatividade: Avanço da Ciência para o Desenvolvimento Sustentável é sintetizada como um esforço da ABPMC para aumentar as possibilidades de integração e cooperação entre os membros da comunidade comportamental, visando a coesão interna. Gostaria de pedir que falasse um pouco também sobre como será a postura da ABPMC com relação ao diálogo da Análise do Comportamento com outras áreas do conhecimento, como a Neurociência, Antropologia, entre outras.
A nossa diretoria considera importante o diálogo da Análise do Comportamento com outras áreas do conhecimento, apesar de admitirmos que podemos aumentar a comunicação com elas. Entendo que um dos fatores para que a comunicação seja mais restrita é a diferença na postura filosófica para o estudo do comportamento. Por entendermos que a Psicologia é uma ciência natural, consideramos o comportamento um produto de eventos do ambiente, ou seja, os organismos que se comportam são produtos naturais de processos biológicos evolutivos. De qualquer forma, um primeiro passo para melhorarmos esta comunicação pode ser incentivando os analistas do comportamento a publicarem em revistas fora de nossa área, uma forma de divulgarmos o que fazemos de melhor e iniciarmos esta conversa (temos publicado em revistas da Psiquiatria, por exemplo).  Temos algumas ideias bem iniciais, como a de convidarmos pessoas de outras áreas para discutirem temas ligados aos fenômenos comportamentais. É claro que ainda temos muito o que discutir sobre essas iniciativas, principalmente com o nosso conselho. Retomando um pouco a sua pergunta, penso que o tema Interatividade refere-se a outras interlocuções, como por exemplo, entre nós e a comunidade (e temos projetos interessantes para continuar com a ABPMC Comunidade).
3) Sabemos que historicamente algumas áreas apresentam grande resistência à participação de analistas do comportamento, chegando, por vezes, a cercear a prática destes profissionais. Há algum projeto ligado à inserção e fortalecimento da Análise do Comportamento nos contextos educacionais, de saúde e desenvolvimento de políticas públicas?
De certa forma, ao pensarmos nos membros desta diretoria, tivemos o cuidado de agregar profissionais que transitavam em diferentes áreas. Por exemplo, nossas tesoureiras, Dra. Elaine Catão e Ms. Fátima Tomé, tem forte influência da área de Psicologia Escolar e da Saúde, respectivamente. A nossa principal iniciativa é de aproveitar o conhecimento específico de cada membro da diretoria para expandir e promover diálogos com as diferentes áreas. Podemos destacar que a alteração de Psicoterapia para Psicologia no nome da ABPMC também incentiva que analistas do comportamento de áreas diferentes (que trabalham nas organizações, hospitais, escolas, esporte) sintam-se acolhidos e com espaço para divulgarem seus trabalhos. Para isso, a divulgação de nosso congresso torna-se importante para que os diferentes contextos passem a submeter seus trabalhos científicos, iniciando esta parceria.

4) Em uma gestão anterior, a ABPMC fez parte do Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira, mas já não faz há um tempo. Qual a posição da diretoria eleita sobre o assunto? Considera relevante para a Associação integrar o fórum?
Entendemos que o FENPB é um espaço para discussão de temas relevantes da Psicologia entre as várias entidades brasileiras.  Se eu não estou enganada, a criação da FENPB foi uma iniciativa dos conselhos regionais e federais da Psicologia para liderar as sociedades científicas. A ABPMC participou oficialmente do Fórum na gestão do Prof. Wander mas não é membro oficial do Fórum. A ABPMC, que compartilha da mesma postura que a SBP, prefere adotar a posição de membro convidado em pautas de seu interesse. Isso se justifica porque a ABPMC não quer se sentir engessada em ter que aceitar pautas determinadas pelo Fórum devido á obrigatoriedade do consenso (está no estatuto do Fórum esta obrigatoriedade). Posso citar um exemplo de como isso é complicado: a ABPMC discordou veementemente sobre a forma como o Conselho Federal de Psicologia e o FENPB conduziram três resoluções em julho de 2010 que regulamentavam as atividades desenvolvidas pelos psicólogos jurídicos (CPP 008/2010: dispõe sobre a atuação do psicólogo como perito e assistente técnico no Poder Judiciário; CFP 009/2010: regulamenta a atuação do psicólogo no sistema prisional e, CFP 010/2010: institui a regulamentação da Escuta Psicológica de Crianças e Adolescentes envolvidos em situação de violência, na rede de proteção), deixando de consultar pesquisadores renomados desta área como a Dra. Lúcia Williams e Dra. Paula Gomide. Assim, a ABPMC prefere manter esta liberdade para contribuir nos diversos assuntos da Psicologia.
5) Faz parte da proposta da diretoria eleita oferecer apoio aos eventos regionais de Análise do Comportamento, as JAC’s e EAC’s. Em termos práticos, quais serão as iniciativas da ABPMC em apoio a estes eventos?
Desde o ano de 2010 a ABPMC proporcionou o encontro entre diversos organizadores de JAC´s/Eac´s, encontro que pretendemos manter nos próximos dois anos. Isso é importante porque temos um espaço para discutirmos os parâmetros, evolução, planejamento e futuro desses eventos. Esse espaço também tem a função de facilitar que os organizadores se conheçam e se ajudem, construam parcerias, troquem informações e divulguem as diversas JACs em seus estados. Como a Profa. Martha Hubner salientou, as Jac´s têm se tornado grandes pilares de divulgação e difusão da Análise do Comportamento no Brasil, principalmente em áreas com um baixo número de analistas. Continuaremos auxiliando na divulgação desses eventos por meio do site da ABPMC, lista de emails dos associados/participantes etc. Outros tipos de parceria entre a ABPMC e Jac´s/Eac´s estão sendo discutidas (como por exemplo, descontos na inscrição do congresso da ABPMC).
6) Gostaria de pedir que deixasse uma mensagem final aos leitores do Comporte-se, como nova presidente da ABPMC.
Eu gostaria de dizer que, como eu salientei na nossa proposta, embora nós sejamos uma diretoria jovem, somos uma geração disposta a trabalhar intensamente pela ABPMC, e temos como base e respaldo a experiência de nossos antecessores e de nossos professores. A Profa. Martha Hubner me disse que aprendeu com Carolina Bori a importância de se investir na nova geração e preparar sucessores.  Então, estamos aí para unirmos força com a geração anterior, para aprendermos muito com eles e para fazermos um excelente biênio 2012/2013. E aproveitando, quero dizer a cidade-sede para o próximo congresso será Curitiba. Espero todos vocês lá!
·         A entrevista foi realizada por nosso Diretor Geral Esequias Neto. Ela foi postada anteriormente no Portal RedePsi, parceiro do Comporte-se na cobertura do evento.
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Terapeuta Comportamental e Supervisor Clínico, especialista em Psicologia Clínica pelo ITCR - Campinas/ SP, com formação em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) e FAP (Terapia Analítica-Funcional) pelo Instituto Continuum - Londrina/ PR. É sócio-proprietário da Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento. Co-organizou dois livros de Terapia Comportamental: Terapia Comportamental: Dos Pressupostos Teóricos às Possibilidades de Aplicação (Artmed, 2012) e Depressão: Psicopatologia e Terapia Analítico Comportamental (Juruá, 2015). Atualmente tem se dedicado ao estudo da Terapia Comportamental Dialética.
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