Assertividade na novela Fina Estampa

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    Você já parou para pensar sobre o efeito que o modo como expressa suas emoções e opiniões tem sobre os outros? E sobre a importância de defender seus direitos de forma clara e direta, sem desrespeitar os direitos dos demais?

    Muita gente enfrenta sérias dificuldades para expressar o que pensa e sente sobre as coisas e defender seus direitos. Alguns sequer conseguem fazê-lo. Outros já o fazem de maneira agressiva, desrespeitando os demais, e muitas vezes, causando sérios danos à sua convivência com estas pessoas. Ainda existem aqueles que além de não falarem do que sentem e pensam de maneira honesta, se expressam por meio de agressões sutis e veladas.

    Para falar sobre o assunto, escolhi alguns personagens da novela Fina Estampa, exibida atualmente no horário nobre da Rede Globo de televisão.

    Uma personagem que ilustra muito bem alguém que com freqüência tem dificuldades para defender seus direitos e expressar aquilo que pensa e sente é Celeste (Dira Paes), esposa de Baltazar (Alexandre Nero) e pai de Solange (Carol Macedo), na trama. Ela permanece calada e passiva diante das agressões do marido. Quando manifesta algum incômodo, é de maneira tão indireta e temerosa que dificilmente conseguirá estabelecer limites claros quanto ao que a incomoda¹.

    Esta dificuldade é chamada em Psicologia Comportamental² de Inassertividade³.  A pessoa que se comporta  em maior frequência de maneira inassertiva sofre muito por isto: geralmente não consegue eliminar uma fonte de incômodo que a simples expressão deste incômodo eliminaria. Além disso, em casos extremos, pode desenvolver doenças como depressão, doenças do trabalho, doenças respiratórias, cardíacas e muitas outras relacionadas ao estresse.
    O extremo-oposto da Inassertividade é a Agressividade. O comportamento agressivo é caracterizado pela expressão exagerada, geralmente por meio de gritos, palavrões ou mesmo agressão física, daquilo que se sente e pena. Um exemplo de alguém que com frequência se comporta assim é Baltazar, marido de Celeste na novela.

    Quando Baltazar vai falar com sua esposa e com sua filha, ele o faz aos berros! Em algumas situações, chega a agredi-las fisicamente. E embora esta conduta, algumas vezes, resolva o problema presente, na grande maioria das vezes traz conseqüências bastante indesejáveis. Um exemplo disso é mostrado quando ele foi buscar sua filha Solange no Baile Funk e acabou apanhando dos seguranças do lugar quando agrediu um rapaz que tentou protegê-la de seu pai.

    Outras conseqüências comuns são a redução ou ausência de expressão de carinho entre as pessoas envolvidas, aparecimento de sentimentos como raiva, angústia, tristeza, entre outros, e com muita freqüência, criação de uma falsa ilusão de controle do agressor. Na novela, esta falsa ilusão é expressa ainda no mesmo capítulo em que Baltazar apanha. Ao invés de não ir para o Baile Funk, como seu pai havia proibido, Solange vai sem que ele saiba.

    Baltazar é um personagem muito rico em termos de análise porque permite explorar ainda, com facilidade, comportamento Passivo – Agressivo. Este padrão comportamental é caracterizado pela não expressão dos sentimentos e defesa dos direitos diante das coisas de forma honesta e pela adoção de condutas agressivas de modo sutil ou velado como forma de fazê-lo. No caso de nosso personagem, isto acontece quando ele corta toda a fiação da luz do jardim da mansão Velmont, logo após ser punido por Teresa Cristina. Foi este o jeito que ele encontrou de expressar seu desagrado.

      
    O Passivo-Agressivo é considerado o pior padrão comportamental de todos. Geralmente o agressor age de maneira muito sutil , de forma que o agredido não consegue comprovar a agressão. Em algumas situações, nem se dá conta dela e fica achando que “é coisa de sua cabeça” ou “implicância boba”. Esta situação é bastante comum em empresas.

    O padrão comportamental mais saudável é o Assertivo. Assertividade significa expressão das idéias, opiniões e defesa dos próprios direitos quando necessário, respeitando os mesmos direitos no outro. O comportamento Assertivo é observado quando a pessoa fala com clareza daquilo que precisa falar. Não faz rodeios, é bastante honesta e respeita a integridade física e moral de seu interlocutor. Griselda (Lilia Cabral) é um exemplo de personagem que com frequência se expressa com clareza e respeito. Ela não liga para a opinião dos outros sobre seu jeito. Com freqüência, fala o que precisa falar “na lata”, mas sem agredir ninguém.

    Observe que, no texto, as classificações Assertivo, Inassertivo, Passivo-Agressivo e Agressivo são utilizadas apenas em referência a padrões de comportamento (conjuntos de ações que geralmente aparecem juntas em uma mesma pessoa, p.e., gritar e usar palavrões em uma discussão) e nunca às pessoas que se comportam. Isto porque alguém nunca é Assertivo ou Inassertivo o tempo todo, mas se comporta de modo Assertivo ou Inassertivo em algumas situações, a depender do contexto. Por exemplo, Baltazar. Embora, junto a sua esposa e filha, comporte-se com maior frequência de maneira Agressiva, ele não o faz junto à sua patroa, pois, se o fizesse, certamente seria duramente castigado ou perderia o emprego.

    ¹ – Nem sempre a expressão clara e direta dos sentimentos e opiniões é a melhor alternativa. Por exemplo, é bem provável que Celeste sofra agressão física como conseqüência de uma expressão clara e direta de seu incômodo a seu marido.
    ² – Psicólogos cognitivistas e cognitivistas comportamentais também usam esta nomenclatura. A expressão teve origem nos Estados Unidos, através dos estudos de um psicólogo chamado Wolpe, na década de 70.  Atualmente a Assertividade é considerada uma subárea de uma área mais ampla, chamada Habilidades Sociais.
    ³ – Dificuldades como estas refletem o que os psicólogos comportamentais chamam de Déficit Comportamental.  Um déficit comportamental é caracterizado quando um conjunto de ações deixa de ocorrer 1) na freqüência necessária, 2) com intensidade necessária ou 3) nas situações em que é necessária para atingir seu objetivo. O outro extremo – a agressividade –, encaixa-se no que estes mesmos psicólogos chamam de Excessos Comportamentais.  Um excesso comportamental é caracterizado pela ocorrência de comportamento em 1) freqüência acima da necessária, 2) intensidade acima da necessária e em 3) situações em que não é necessário.

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    Esequias Neto é Psicólogo (CRP: 04/ 35023), especializando em Terapia comportamental. Atua na Clínica, atendendo nas modalidades Adulto, Infantil/ Orientação de Pais, Familiar, Casal e Grupo. É consultor em Desenvolvimento Humano e Empresarial pela Êzito Inteligência Organizacional e Clínica de Psicologia. E-mail: neto@ezito.com.br/ Cel: (34) 8406-8181/ Fixo: (34) 3061-2961

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