Educação Baseada em Ciência: da utopia à realidade

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É muito comum encontrarmos críticas à aplicação da Análise do Comportamento ao contexto escolar. Porém, como evidenciado por alguns autores, estas críticas não parecem ter bases muito sólidas.

Gioia (2001) objetivou analisar as descrições a respeito da abordagem behaviorista radical contidas em livros introdutórios de psicologia direcionados à formação docente. Para tanto, selecionou 25 livros de psicologia cujos títulos continham os termos educação, aprendizagem ou ensino. Os livros foram analisados quanto à precisão na descrição: a) dos conceitos básicos da análise do comportamento, b) dos princípios do behaviorismo radical e c) da visão de Skinner sobre ensino. Os resultados do trabalho apontam para uma desqualificação da abordagem por esta lidar com animais não humanos, que, no entendimento dos autores dos livros em análise, não “raciocinam”, “conhecem” ou “pensam”, características que os deixariam a mercê do condicionamento de respostas simples e impediria a generalização dos estudos que utilizam estes animais para o entendimento do comportamento humano. Além disso, a autora evidencia o grande número de descrições conceituais incompletas e equívocas. Em geral os livros analisados descrevem a Análise do Comportamento como uma abordagem eficiente, porém inadequada para assuntos maiores e complexos, como a educação.

Rodrigues (1999) realizou um estudo envolvendo 119 profissionais da rede pública de ensino, sendo que a maioria (68,06%) atuava em sala de aula; o nível de formação dos participantes variou do 2º grau em magistério à pós-graduação. Para mensurar a simpatia ou afiliação dos profissionais à Análise do Comportamento, a autora utilizou um questionário englobando diferentes abordagens psicológicas. Foi observado uma não identificação e uma antipatia com a análise do comportamento. A autora discute dois fatores como sendo os preponderantes para que isso ocorra. O primeiro diz respeito à formação de educadores nessa abordagem e sugere investigá-la, e o segundo é a utilização de uma linguagem de difícil compreensão para outras comunidades verbais.


A despeito das inconsistências teóricas dos livros introdutórios utilizados em Pedagogia e da dificuldade em entender os pressupostos analítico-comportamentais, esta abordagem tem apontado grandes contribuições para a Educação (Hubner, Marinott & Cols, 2004).

Recentemente me deparei um o texto do Kester Carrara (2004), que, além de levantar vários aspectos relacionados às contribuições da Análise do Comportamento para a Educação e refutar algumas críticas, enumera 17 princípios utilizados pela comunidade utópica (real, porém baseada em uma utopia) Los Horcones como modelo de ensino para suas crianças, que tem mostrado resultados animadores.

A Los Horcones surgiu em outubro de 1973 com um grupo de 7 pessoas (alguns deles psicólogos comportamentais), interessados na prevenção e solução de problemas sociais. Está localizada no subúrbio da cidade de Hermosillo, capital do Estado de Sonoro, no norte do México. O objetivo de seus membros é criar e desenvolver no presente uma sociedade ou cultura alternativa à dominante. Esta cultura está baseada nos princípios de cooperação, igualdade, pacifismo (não-violência), cooperativismo e respeito ecológico.

A comunidade não se baseia em opiniões ou idéias subjetivas de um líder ou guru, e sim em evidências científicas sobre o comportamento humano. Sua inspiração surgiu por meio da obra de B. F, Skinner, Walden II, escrita em 1948, após a II Guerra Mundial 1.


Os 17 princípios são:

1. O comportamento do professor e do aluno são eventos naturais, ou seja, trata-se de fenômenos observáveis e mensuráveis.

2. O comportamento do professor e do aluno tem causas; não ocorrem sem razão. Seu comportamento é resultado de uma interação com o meio educativo. A definição comportamental difere da definição comum desse termo, ou seja, trata-se de tudo que afeta o comportamento, quer seja um evento físico, químico, biológico ou comportamental.
3. O comportamento do professor e o comportamento do estudante estão sujeitos a explicações com bases científicas, que por sua vez constituem objeto de estudo do behaviorismo.

4. O professor aprende a ensinar efetivamente pelas conseqüências que recebe ao ensinar.

5. O professor não apenas ensina comportamentos aos estudantes, mas também lhes ensina como certos eventos podem ser reforçadores, neutros ou aversivos.

6. A relação entre professor e aluno é bidirecional, afetando-se reciprocamente: daí a importância de manejo do meio que afeta seus comportamentos.

7. Todo professor e todo o estudante são dignos de serem tratados como pessoas, o que inclui evitar eventos aversivos. A ciência do comportamento contribui para que cada pessoa seja tratada com dignidade, evitando punições e priorizando consequências positivas.

8. Por considerar aluno e professor pessoas únicas e não como grupo, a filosofia behaviorista promove a utilização de métodos de ensino personalizados, e sistemas de avaliação não-comparativos.

9. O behaviorismo não considera o ser – humano como passivo diante do ambiente. A ciência do comportamento entende que há interação de meio e pessoas.

10. A filosofia comportamentalista de educação é otimista: isso quer dizer que o comportamento do professor e do estudante não está pré – determinado de modo fatalista. Todo professor pode aprender e ensinar efetivamente e todo estudante pode aprender com êxito.

11. O ensino eficaz requer conhecimento científico sobre como ensinar. O educador precisa adquirir competência na aplicação dos princípios comportamentais.

12. O reforçamento positivo é mal interpretado quando se diz que: sua aplicação produz efeitos colaterais negativos, como dependência e falta de criatividade. É claro que a aplicação inapropriada de reforçamento positivo produzirá efeitos negativos.

13. A filosofia comportamentalista enfatiza o uso de reforçamento natural na manutenção de comportamento.

14. O uso da extinção e reforçamento de comportamento incompatíveis são técnicas comportamentais propostas pelo comportamentalismo como alternativas ao uso do castigo.

15. A análise do comportamento usa o princípio de modelagem com aproximações sucessivas. É importante esclarecer que a expressão técnica “modelagem” não guarda similaridade com qualquer idéia de “modelar a pessoa” 2.

16. Os professores também devem ensinar habilidades sociais e pessoais, não apenas habilidades acadêmicas. Relacionar-se apropriadamente com outras pessoas, comunicar-se efetivamente, ser capaz de solucionar e prevenir problemas interpessoais, são condutas que a escola deve ensinar e manter nos estudantes.

17. A filosofia comportamentalista de educação promove o ensino de comportamentos pró-sociais (comunitários) que contribuam para um mundo melhor para todos e rejeita a idéia de escola que ensine aos seus estudantes, preponderadamente, sobrevivência fundada na competição, desigualdade e descriminação e que fomenta uma sociedade competitiva, desigual e discricionária. Em Los Horcones ensina-se efetivamente a cooperação, a igualdade, o compartilhamento, a não-violência e a importância dos cuidados com a preservação do meio ambiente.

A simplicidade com que os princípios são apresentados e sua aplicabilidade ao contexto educacional são extremamente relevantes tanto para a comunidade de analistas do comportamento, como para os demais profissionais interessados em educação que ainda possuem uma série de preconceitos contra a abordagem. Vale a pena debatermos sobre eles e criarmos maneiras de aplicá-los em larga escala.

Para quem quiser saber mais sobre os Los Horcones e como esta comunidade aplica a Análise do Comportamento, vale conferir o site: http://loshorcones.org/. Lá vocês encontrarão outros textos sobre educação. Em breve explorarei mais o tema.

Notas:


2- Dizer que modelamos comportamentos e não pessoas diz respeito a uma postura não organicista, partindo do pressuposto que comportamentos são interações entre um organismo e o ambiente. Delimitar nosso objeto (o comportamento) desta maneira abre um leque de possibilidades para intervenções sociais (ambientais) que podem aumentar a probabilidade de comportamentos benéficos para a comunidade em questão surgirem.

Referências:

Carrara, K. (2004). Behaviorismo, Análise do Comportamento e Educação. Em Carrara K. (Org.) Introdução à Psicologia da Educação, seis abordagens (pp. 109-133). São Paulo: Avercam

Gioia, P. (2001) A abordagem behaviorista radical transmitida pelo livro de Psicologia da educação direcionado à formação docente. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: São Paulo.

Hübner, M. M. C., & Marinott, M. (2004). Análise do Comportamento para a Educação: Contribuições Recentes. Santo André: ESETec.

Rodrigues, M. E. (1999) Algumas concepções de profissionais de educação sobre Behaviorismo. In R. R. Kerbauy

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