Contingências, coincidências e superstições

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    Às vezes, andando pelo centro de Bom Despacho, minha cidade natal, avistava de longe um amigo ou conhecido. Quando, à medida que caminhávamos, nos aproximávamos, notava que a pessoa que avistara não era quem eu havia imaginado. Isso acontecia com certa regularidade… e o que estava por vir deixava-me com uma pulga atrás da orelha. Cerca de quatro ou seis minutos após o engano, não raro acabávamos de fato nos encontrando: o conhecido e eu. Impressionado, deixava-me seduzir pela ideia de que aquele equívoco se tratava de premonição (sinal de que algo vai acontecer) ou telepatia (sentir à distância). Era excitante imaginar que temos, ou que eu tinha, superpoderes ou estranhas habilidades superdesenvolvidas. Era. Hoje, mais cético e instruído sobre o comportamento humano, tenho nas mangas explicações razoáveis para os eventos que nos convidam à superstição e à pseudociência.

    Contingências e coincidências
    Apoiada na literatura behaviorista radical, Souza (2001) assevera que, “em sentido geral, contingência pode significar qualquer relação de dependência entre eventos ambientais ou entre eventos comportamentais e ambientais” (destaque meu). Vejamos alguns exemplos de eventos contingentes ou dependentemente relacionados:
    • Se trabalhamos, então ganhamos dinheiro;
    • Se chegamos no banco antes que feche, então somos atendidos;
    • Se somos alertados sobre o perigo da estrada, então dirigimos com mais cautela;
    • Se comemos, ou mesmo se avistamos certos tipos de comida, então salivamos.
    Souza, citando Todorov (1989, p. 354), ressalta que “a cláusula ‘se’ pode especificar algum aspecto do comportamento ou do ambiente, e a cláusula ‘então’ especifica o evento […] consequente. Assim, os enunciados [como os descritos acima]apresentam-se como ‘regras’ que especificam essas relações entre eventos”. Trocando em miúdos, certos eventos (como salivar e ganhar dinheiro) tendem a ocorrer na ocasião ou no contexto em que outros eventos (como ser exposto à comida e trabalhar) se fazem presentes. Há uma relação de dependência entre esses eventos, e esse tipo de relação é comumente denominada relação causal. O behaviorismo radical, contudo, chama-a relação funcional(1) ou, mais simplesmente, contingência.
    Note-se que estamos lidando com eventos comportamentais. Comportamentos são interações organismo-ambiente. Pensamentos, emoções e condutas públicas são ocorrências naturais e contingentes aos fenômenos mundanos. Não há dualismo; não há mundos paralelos. Toda atividade humana é determinada e, por se tratar de um conjunto de interações, igualmente determinante — ambiente e organismo modificam-se mutuamente. Essas interações podem ser observadas (ou inferidas), medidas, controladas/manipuladas e mesmo previstas. Temos a chance de fazer, e fazemos, uma ciência do comportamento.
    Mas vejamos as seguintes situações:
    • Relampejou quando abri a janela;
    • O ônibus parou no ponto assim que cheguei;
    • Sempre que aperto o botão com a mão direita, o elevador chega logo;
    • Paulo usa sempre a mesma lapiseira para fazer provas; diz que isso faz com que ele escreva respostas corretas (Souza, 2001).
    Souza chama atenção para o fato de que abrir uma janela e, no mesmo momento, um relâmpago cortar o céu não se refere a uma relação de dependência. “Os dois eventos podem ocorrer temporalmente próximos, mas de modo totalmente independente: o relâmpago teria ocorrido quer eu abrisse ou não a janela.” Por essa razão, relações como essa não são contingentes/dependentes, mas de contiguidade, acidentais ou coincidentes. Não há uma relação de dependência entre chegarmos no ponto e o ônibus imediatamente despontar na esquina. Similarmente ao caso do relâmpago, o ônibus teria dobrado a esquina naquele momento independentemente de o querermos pegar. Há não mais que uma justaposição, uma relação temporal entre aqueles eventos, e agir como se fossem contingentes (ou causalmente relacionados) caracteriza a superstição.
    Superstição
    Somos curiosos e inteligentes. Quando certas coisas ocorrem, tendemos a indagar “Por quê?”. Formular regras que descrevem o funcionamento do mundo é, em última análise, uma questão de sobrevivência. Podemos confeccionar regras ao fazer parte de ou observar certos acontecimentos, como quando um blogueiro verifica que seus textos de divulgação científica são mais acessados e comentados do que os de filosofia. Essa observação, que poderia gerar uma regra como “As pessoas interessam-se mais por divulgação científica”, tende a aumentar a probabilidade de aquele blogueiro postar textos sobre o tema que levou suas estatísticas às alturas. Por aumentar a frequência desse comportamento (postar textos sobre divulgação científica), dizemos(2) que aquelas consequências (mais acessos e comentários) o reforçam.
    Pode acontecer, entretanto, de um blogueiro desatento realizar observações equivocadas. Em vez de abstrair a regra “Se posto textos de divulgação científica, então tenho mais acessos e comentários”, poderia inferir “Se coloco mais imagens ao longo dos textos, tenho mais acessos e comentários”. Como não há uma relação de dependência entre publicar imagens e receber mais comentários, dizemos que o comportamento de postá-las é supersticioso. Em termos técnicos, o comportamento supersticioso “trata-se de um tipo de comportamento no qual existe apenas uma relação acidental entre uma resposta [publicar imagens]e a apresentação de um evento subseqüente [receber comentários]” (Santos & Micheletto, 2010, destaque meu). Em vez de publicar mais textos de divulgação científica, nosso blogueiro começaria a publicar textos variados adornados com inúmeras figuras.
    Voltemos ao caso do ônibus. Maria, atrasada para uma entrevista de emprego, está diante de uma excelente chance de transformar sua vida. Mesmo que apressada, faz uma prece e, logo ao sair de casa, é abordada por um mendigo. Impaciente, dá-lhe algumas moedas e o deixa falando sozinho. Faltando exatos quinze minutos para a entrevista, Maria chega ao ponto no mesmo instante em que o ônibus desponta na esquina. Pega-o, é entrevistada e consegue o emprego. A partir de então, antes de sair para o trabalho, Maria invariavelmente faz uma pequena prece e dá alguns trocados ao primeiro mendigo que encontrar. Maria: “Essa é a forma [rezar e ajudar os miseráveis]de fazer com que Deus intervenha sobre o mundo de forma a ajudar seus fiéis [conceder-lhes empregos e promoções, por exemplo]”.
    Quebrando o encanto 

    [É] muito melhor, para as afirmações que ainda não foram refutadas ou apropriadamente explicadas, conter a nossa impaciência, nutrir certa tolerância em relação à ambiguidade e esperar — ou, ainda melhor, procurar — a evidência de que as confirme ou conteste (Sagan, 1996/2006, p. 258).

    Costumamos interpretar o mundo conforme a regra “Post hoc, ergo proper hoc” — expressão latina que significa “aconteceu após o fato, logo foi por ele causado”. Mesmo que não possamos descrever por que fazemos o que fazemos, a justaposição de eventos explica por que regamos nossas plantas, por que estudamos para uma prova e por que cuidamos, abraçamos e dizemos “Eu amo você…”: aprendemos que o crescimento das plantas, o resultado de uma avaliação e o fortalecimento dos laços interpessoais dependem dos ou são causados pelos eventos que os antecedem. No primeiro caso, aprendemos mediante a instrução de uma terceira pessoa. Nos outros, comumente aprendemos na medida em que interagimos com o mundo — na medida em que somos afetados pelas consequências daquilo que fazemos. Acontece, contudo, que a justaposição de eventos pode gerar ambiguidades e, como vimos, comportamentos supersticiosos. Eventos que se sucedem temporalmente não estão necessariamente em relação contingente ou de dependência uns com os outros — podem ser coincidentes ou acidentais.
    Quando contei a um dos meus irmãos sobre minhas fantásticas mas hipotéticas premonições, fui simultaneamente surpreendido e convidado ao pensamento cético. “Interessante, Daniel”, comentou Thiago, “mas aposto que, em diversas situações, suas supostas previsões telepáticas falham. Você deve memorizar as que se concretizaram, mas inúmeras que falharam certamente foram esquecidas.” A princípio, frustrei-me com aquela inteligente observação. Era inebriante crer naquelas habilidades atípicas e misteriosas — ainda mais à medida que aconteciam comigo. Mas ele tinha razão, e só mais tarde comecei a entender e a valorizar o ceticismo.
    Thiago, naquela época, alertara-me sobre a falácia de selecionar observações (destacamos aquelas que confirmam nossas crenças/desejos e omitimos ou esquecemos aquelas que as refutam). Sagan (1996/2006), sobre a relação desse comportamento com a religiosidade, ressalta que as orações que não foram atendidas tendem a ser esquecidas ou abandonadas. Se alguma das rotineiras orações é seguida de um evento desejado, então as orações são vistas como variáveis independentes ou causais daquilo que acontece (“Post hoc, ergo proper hoc“). A falta de merecimento ou a pouca fé podem ocasionalmente justificar por que certas orações não são atendidas. Mas nós tendemos a esquecer a maioria delas. E deve ser, como alerta Sagan, que “no âmago de algumas pseudociências reside a ideia de que é o ato de desejar que dá forma aos acontecimentos” (p. 39).
    A parapsicóloga Susan Blackmore, citada por Sagan, assevera que é fácil ser enganado pelo próprio desejo de acreditar. Apenas um exame minucioso e cético pode nos livrar dos enganos, tanto dos bons (ter habilidades atípicas superdesenvolvidas) como dos ruins (ser vítima de mau-olhado). O blogueiro pode, ao longo de suas publicações, refinar suas observações e concluir que a inserção de imagens não é a principal variável que faz aumentar seus acessos e comentários. Aos poucos, textos sobre temas variados e recheados de imagens tendem a diminuir (essa classe de comportamentos começa a se extinguir) e aqueles que se dedicam à divulgação científica aumentam de frequência (por serem consequenciados ou seguidos por eventos [acessos e comentários]que reforçam esse tipo de comportamento [publicar textos científicos]).

    E o que dizer de Maria? Há condições em que podemos observar e manipular variáveis com certa facilidade (como aconteceu com o caso hipotético do blogueiro desatento). Maria, caso deixasse de rezar e ajudar mendigos, poderia notar que as razões pelas quais certos eventos desejados acontecem, como ser promovida, são outras (digamos, trabalhar com empenho, ser simpática com seus colegas de trabalho e cooperar). Ocorre, entretanto, que seus comportamentos supersticiosos são mantidos por regras abrangentes e por relações que estabelece com outras pessoas. Exemplos dessas regras são “Se há um mundo e pessoas, então deve haver Deus, Quem criou tudo” e “Se há Deus, então podemos ser punidos ou gratificados”. Se acreditamos nesses condicionais, tendemos a crer que certos eventos do mundo levam um “dedo de Deus”. Se começamos a questionar como, quanto, quando e se Deus interfere nos acontecimentos, podemos ser reprimidos por aqueles com quem partilhamos nossas crenças. Ainda, se cremos que Deus — à semelhança de nós — pune quem quer que Lhe desagrade, o questionar silenciosamente pode igualmente ser evitado. Quando menos, como é o caso dos “religiosos liberais”, o questionamento pode estar presente mas não fazer desvanecer certas regras rudimentares. Exemplos dessas regras são “Deus existe e pode intervir sobre o mundo” e “Há vida após a morte do corpo”, as quais são difícil ou impossivelmente refutadas e, portanto, são mais resistentes à extinção — o que não quer dizer que não possam ser indiretamente confrontadas.
    Contra o “sussurro de Deus”
    Há alguns dias atrás, deparei-me com um artigo cujo autor sugere que jamais estaremos livres do “sussurro de Deus”. O comportamento supersticioso, e sobretudo o do tipo religioso, seria um subproduto da evolução. Nossos genes codificariam os mecanismos básicos que, juntos, possibilitariam o desenvolvimento provável da crença religiosa. Sou simpático às teorias evolucionistas. Contudo, desconfio que aquele sussurro seja satisfatoriamente explicado por um processo geral e deveras simples: o condicionamento operante. A disposição, que é herdada, de aprender com as consequências explica a flexibilidade e a riqueza do comportamento humano. Ser sensível aos eventos (isto é, ser modificados por esses eventos) que sucedem nossas ações é uma condição sine qua non para a aprendizagem. Se, contudo, certos eventos coincidem com nossos comportamentos, uma associação não-contingente pode ser estabelecida.  O “sussurro de Deus”, ou o ícone do comportamento supersticioso, seria o resultado de aprendizagens cujo evento reforçador não é contingente ou dependente ao comportamento previamente emitido. Esse é o erro do tipo “Post hoc, ergo proper hoc“, e nós e boa parte dos demais animais estamos a ele sujeitos. O que nos permite o comportamento inteligente acaba, como um efeito colateral, nos fazendo crer no poder mágico de cristais, água benta e crucifixo, amuletos, preces, pensamentos positivos e, no meu caso, equívocos premonitórios.
    Contra o sussurro ou o grito da pseudociência, Sagan (1996/2006) aconselha-nos a ser curiosos, duvidar e investigar. Em casos sobre os quais não temos uma explicação baseada em evidências, levantemos hipóteses e escolhamos, mesmo que provisoriamente, a mais razoável e simples. No meu caso, é mais provável que eu tenha habilidades premonitórias cujos mecanismos são impassíveis de ser investigados ou que, em uma cidade interiorana, eu tenha aprendido, mesmo que inconscientemente, que a certas horas e lugares é possível que eu trombe com fulano ou sicrano, que trabalha ou estuda naquelas proximidades? Embora a primeira opção seja mais excitante, a segunda provavelmente descreve melhor e aproximadamente o que acontecia. Passo a palavra a Sagan:

    O pensamento cético se resume no meio de construir e compreender um argumento racional — de reconhecer um argumento falacioso ou fraudulento. A questão não é se gostamos da conclusão que emerge de uma cadeia de raciocínio, mas se a conclusão deriva da premissa ou do ponto de partida e se essa premissa é verdadeira (p. 241).

    Notas e referências:
    (1) Cruz e Cillo (2008), baseados em David Hume e Ernst Mach, comentam que “o conceito de função irá expressar uma concepção relacional que não tem um fim em si mesma”. Em vez de dizermos de relações causais, que trazem a ideia de relações necessárias e suficientes (o que conhecemos como mecanicismo), podemos simplesmente dizer que um evento é função de outro evento, sendo que o primeiro influencia a provável ocorrência do segundo.
    (2) Quando falo “dizemos”, refiro-me aos behavioristas radicais/analistas do comportamento.
    Cruz, R. N., & Cillo, E. N. P. (2008). Do Mecanicismo ao Selecionismo: Uma Breve Contextualização da Transição do Behaviorismo Radical. Psic.: Teor. e Pesq., Brasília, 24, n. 3, pp. 375-385.
    Sagan, C. (1996/2006). O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras.
    Santos, G. M., & Micheletto, N. (2010). Relação entre comportamento supersticioso e estímulo reforçador condicionado: uma replicação sistemática de Lee (1996). Rev. Bras. de Ter. Comp. Cogn., Campinas-SP, Vol. XII, nº 1/2, 146-175.
    Souza (2001). O que é contingência? Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista. Banaco, R. A., & Santo, A. São Paulo: ESETec.
    Todorov, J. C. (1989). A Psicologia como o estudo de interações. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 5, 347-356. Em: Souza (2001). O que é contingência? Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em Análise do Comportamento e Terapia Cognitivista. Banaco, R. A., & Santo, A. São Paulo: ESETec.

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