Entrevista Exclusiva com Ms. Marcelo José M. Silva – Psicologia Organizacional [10ª JAC UFSCar]

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Dando continuidade à série de entrevistas realizadas durante a JAC UFSCar, apresentamos agora a realizada com Marcelo José Machado Silva, engenheiro mecânico pela Unicamp, psicólogo pela PUC-SP e mestre em psicologia experimental pela USP, com mais de dez anos de experiência profissional como consultor, professor universitário e que trabalha há cinco anos como psicólogo na Petrobras. 

Neto Olá Marcelo. Gostaria de começar pedindo para que você fale um pouco sobre o seu trabalho na Petrobrás, enquanto Psicólogo Organizacional na empresa. 
Marcelo – Eu trabalho como Analista de Recursos Humanos. A gente operacionaliza os processos geridos pelo RH Corporativo, que define normas a serem adaptadas às diferentes realidades locais da empresa espalhadas por todo o Brasil, terra e mar. Trabalho na Unidade de Tecnologia da Informação e Telecomunicações, na Regional São Paulo/ Sul. 
Sou um dos integrantes de uma equipe responsável pela execução dos processos de Recursos Humanos, como gestão de carreira, gestão de desempenho, acompanhamento de situações sociofuncionais, gestão de ambiência organizacional, etc. 
N Pelo que você falou, as políticas já são definidas pela gestão da empresa. É isso?
M – Exatamente. A Petrobrás tem uma diretoria executiva e é essa diretoria executiva que dá unidade à corporação. Ela integra diferentes partes e obtém ganhos de produtividade com isso. 
O Diretor de RH estabelece essas políticas, e à medida que você vai passando aos órgãos e gerências hierarquicamente abaixo da diretoria, você tem que interpretar estas normas e adaptá-las aos contextos e realidades locais, sempre garantindo a continuidade e conformidade com os processos definidos pelo RH Corporativo da empresa. 
NTendo em mente (risos) que esta equipe é formada por profissionais de diversas áreas e até psicólogos que trabalham com outras abordagens, que dificuldades você encontra na aplicação dos princípios da Análise do Comportamento em seu trabalho? 
M – Sobre a aplicação da Análise do Comportamento, acho que a dificuldade básica vem do desconhecimento e da dificuldade para que se entenda o modelo de Ciência do Comportamento com que ela trabalha. Ele é bem diferente da explicação que se sedimentou sobre o comportamento humano em nossa cultura. Então, muitas vezes, eu me vejo na situação de ter que traduzir minhas análises, interpretações e propostas de intervenção para a linguagem do senso comum, para colegas de outras áreas profissionais, e isso é complicado. Um jargão técnico é o que é porque ele tem uma especificidade, que é muito importante no trabalho experimental e também no aplicado. Mas na hora de você conversar com pessoas que não dominam este jargão, você tem que ter capacidade de convencimento e argumentação, o que não é bem uma postura de quem sabe mais, por assim dizer. Você tem que partir do que a pessoa sabe para tentar se comunicar com ela. E acredito que ninguém é dono da verdade. Então, pode parecer óbvio lembrar isso, mas acho que cabe mesmo a gente tentar se entender com quem não é Analista do Comportamento. 
NDurante a sua conferência, você falou sobre a importância da aplicação do conceito de metacontingência no trabalho do Psicólogo Organizacional e achei realmente de extrema importância neste contexto. Poderia falar um pouquinho para nossos leitores? 
M – O conceito de metacontingências teve uma definição muito clara em um texto da Maria Amália Andery e Teresa Sério(1). Elas definem metacontingência como selecionado por um produto que não poderia ser obtido pela mera soma de comportamentos individuais, mas sim, pela combinação, pelo entrelaçamento destas contingências individuais. 
É possível então analisar a divisão do trabalho a partir deste modelo conceitual. Ao se distribuir tarefas e metas, ou regras para encadeamentos de comportamentos, aquilo que uma pessoa faz produz resultados que servem de insumos para o trabalho da outra, e você busca obter ganhos de produtividade no trabalho de equipe com esta distribuição. Isto é algo que eu entendo que pode ser propriamente analisado com o conceito de metacontingência. É possível apontar fatores que possam originar e manter através da seleção por consequências este padrão de comportamentos da equipe, que resulta em maior produtividade. 
NGostaria também que você deixasse alguma dica para quem estuda Análise do Comportamento, que possa contribuir para a aplicação deste conhecimento nas organizações. 
M – Bom… O primeiro, claro, é dominar sua própria ciência. Conhecer bem a Análise do Comportamento. Eu acho que vale muito a pena trabalhar com pesquisa básica, você desenvolver esta competência de pesquisador básico e aproveitá-la ao interpretar sua realidade de trabalho. 
Eu não tenho experiência com clínica, mas ouço relatos de profissionais que tem e gostam de aproveitar esta experiência no mundo do trabalho, por desenvolver uma sensibilidade, um repertório discriminativo de leitura do comportamento das pessoas – embora no mundo das organizações, você não esteja trabalhando diretamente com fenômenos individuais, mas sim com fenômenos sociais, com grupos de pessoas. 
Além de você dominar a Análise do Comportamento, você tem que conhecer a cultura da sociedade em que você vive. É bom estudar Administração, Economia, é bom conhecer artes, é bom conhecer coisas que permitam ter assunto pra conversar com outras pessoas (risos). Nesse ponto, eu me identifico muito com o ideal iluminista. A gente pode lembrar de Leonardo Da Vinci, que deu contribuições marcantes para a cultura de sua época, nas ciências e nas artes, e por aí vai. 
N – Obrigado pela entrevista, Marcelo. Quem tiver interesse no tema e quiser entrar em contato com você, poderá fazê-lo como? 
Sou eu quem agradeço a oportunidade e parabenizo vocês pelo trabalho do Comporte-se. Quem quiser entrar em contato, pode usar meu e-mail: marcem@usp.br
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(1) ANDERY, M. A. P. A., SÉRIO, T. M. P. (1997) O conceito de metacontingências: afinal, a velha contingência de reforçamento é insuficiente? Em R. Banaco (Org.) Sobre comportamento e cognição, vol. 1, p. 106-116. Santo André: ARBytes/ESETec. Ou em Todorov, J. C., Martone, R. C. e Moreira, M. B. (Org.), Metacontingências: comportamento, cultura e sociedade, cap. 12, p. 149-159. Santo André, SP: ESETec, 2005.
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Terapeuta Comportamental e Supervisor Clínico, especialista em Psicologia Clínica pelo ITCR - Campinas/ SP, com formação em ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso) e FAP (Terapia Analítica-Funcional) pelo Instituto Continuum - Londrina/ PR. É sócio-proprietário da Clínica Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Comportamento. Co-organizou dois livros de Terapia Comportamental: Terapia Comportamental: Dos Pressupostos Teóricos às Possibilidades de Aplicação (Artmed, 2012) e Depressão: Psicopatologia e Terapia Analítico Comportamental (Juruá, 2015). Atualmente tem se dedicado ao estudo da Terapia Comportamental Dialética.
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