A inteligência humana: entrevista com Marcela Mansur-Alves

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Trarei ao palco um tema que mereceu calorosos debates no século passado e que, de certa forma, ainda é brasa que incendeia: a inteligência humana. Entrevistei, com esse intuito, a pesquisadora Marcela Mansur-Alves. A Marcela é graduada em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), possui mestrado em Psicologia do Desenvolvimento Humano (UFMG), é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFMG e é pesquisadora do Laboratório de Avaliação das Diferenças Individuais (LADI/UFMG). Ela tem especial interesse pelas áreas de Psicodiagnóstico/Avaliação Psicológica, Psicologia das Diferenças Individuais, Neurociências Cognitivas e Desenvolvimento Humano.



1 – Inicialmente, Marcela, conte-nos um pouco sobre seu percurso acadêmico (sobre como, por exemplo, você se interessou pela Psicologia Diferencial), bem como sobre quais são suas principais atividades atualmente.

Bom, eu creio que desde o início da graduação estive bastante envolvida com pesquisa. Comecei trabalhando com avaliação cognitiva de bebês e crianças fenilcetonúricas no Ambulatório São Vicente do HC-UFMG. A pesquisa era fruto de uma colaboração entre o Laboratório de Desenvolvimento Cognitivo e da Linguagem (UFMG) e do NUPAD (Faculdade de Medicina-UFMG) e foi uma experiência muito importante na minha iniciação na área científica. Trabalhei por dois anos nesse projeto, o que despertou meu interesse inicial pela avaliação. Logo depois, em 2002, envolvi-me em um mega estudo longitudinal desenvolvido pelo LADI, então coordenado pela profa. Carmen Flores-Mendoza. O estudo, cujo término será em 2012, objetiva avaliar e acompanhar o desenvolvimento cognitivo e de personalidade de crianças escolares. Entrei para o estudo como voluntária em decorrência do interesse em aprender um pouco mais na prática o que estava vendo nas disciplinas da área de Avaliação. Foi nesse momento que entrei em contato mais direto com a área da Psicologia Diferencial e, desde então, tenho trabalhado mais ativamente na área. Essa não é uma área muito difundida no Brasil, mas vem crescendo a cada dia. Enquanto a Psicometria/Avaliação Psicológica estão voltadas para a construção de instrumentos para a mensuração das características psicológicas e sua aplicação em contextos específicos, tais como a clínica e as organizações, a Psicologia das Diferenças Individuais investiga as origens, desenvolvimento e capacidade preditiva dessas características, tais como a inteligência e a personalidade humana. Em 2004, decidi entrar para o mestrado, o qual me possibilitou conhecer mais a área da Psicologia Diferencial. Realizei um estudo sobre a estrutura da personalidade infantil e sobre a capacidade preditiva desses traços em contextos como a escola e a saúde. E mesmo no intervalo entre o término do meu mestrado e o início do doutorado, quando estive mais envolvida com a docência e a prática profissional, estive em contato com a área por meio de grupos de discussão e colaboração em pesquisas. Atualmente, faço doutorado em Neurociências buscando uma interface entre esta e a Psicologia Diferencial. Venho desenvolvendo um programa de treinamento cognitivo para crianças com diferentes níveis intelectuais. A ideia não é apenas promover modificação na inteligência, mas também verificar se tal mudança é vista em nível de funcionamento cerebral. Os resultados encontrados no estudo piloto, feito no ano passado, foram bastante interessantes. 
2 – Que tal falarmos de um assunto ainda polêmico? O construto “inteligência” sofreu muitas críticas no final do século passado, entre as quais a de que não existiria a inteligência, mas as inteligências, e a de que, com efeito, não haveria um consenso sobre a definição do termo. Como você vê essas e outras críticas à noção de inteligência humana?

Na verdade, o estudo da inteligência humana sempre foi muito polêmico justamente pela importância que a inteligência assume em nossas vidas. Ninguém se ofende ao ser chamado de “tímido”, mas, em geral, ninguém gosta de ser chamado de “ignorante” ou “burro”. Da mesma maneira que quando digo que alguém é inteligente, isso funciona como um elogio. Talvez essa seja a razão de ser tão difícil aceitar que há o que a gente conhece como inteligência geral, ou seja, uma capacidade mental ampla de fazer escolhas, de resolver problemas, de se adaptar ao ambiente e compreender o mundo à nossa volta — o que é independente do conteúdo da atividade ou problema. Uma pessoa com elevada inteligência geral é boa em quase tudo que faz, enquanto uma pessoa com deficiência mental possui extensas dificuldades para responder a demandas cognitivas de seu ambiente físico e social. É, então, mais fácil acreditar que existem várias inteligências e que cada pessoa é “boa” em uma delas. Embora haja uma grande quantidade de estudos em vários países que apresentam evidências favoráveis à existência de um fator geral de inteligência, o suporte científico para a existência de múltiplas inteligências é quase nulo.  Mas aí vocês me perguntam: se existe um fator geral de inteligência, por que então existem pessoas que se destacam em áreas tão diferentes? Por que algumas pessoas são boas em matemática e outras, em literatura e português? É porque existem as habilidades cognitivas específicas, tais como a compreensão e fluência verbal e o raciocínio abstrato. Elas não são inteligências diferentes, mas apenas formas diferentes de expressão da mesma inteligência. Einstein, por exemplo, tinha alta inteligência que se expressou especificamente através de conteúdos matemáticos e físicos, enquanto que Gandhi também com alta inteligência com maior facilidade para conteúdos verbais. Mas apesar das diferentes habilidades específicas, nenhum dos dois tinha dificuldade de fazer uma ligação telefônica, de pegar ônibus sozinhos, de se formar na faculdade, de conseguir um bom emprego, porque ambos eram pessoas inteligentes. Aí se encontra a diferença entre habilidades específicas e inteligências múltiplas. A teoria das inteligências múltiplas assume que as várias inteligências são independentes, enquanto que ao considerar a existência de uma inteligência geral eu assumo que as habilidades específicas estão relacionadas a ela. No exemplo que dei, a teoria das inteligências múltiplas nos diria que Einstein sendo um gênio matemático poderia ter uma inteligência verbal inferior, o que o levaria a ter um péssimo vocabulário, dificuldades enormes de interpretação de textos e de compreensão das situações e dilemas sociais. Contudo, quando penso em habilidades específicas e inteligência geral, posso afirmar que o fato de se destacar enormemente em matemática não faz com que Einstein não consiga ler e interpretar textos, se comunicar e se relacionar com as pessoas e muito menos que não tenha vocabulário suficiente  para escrever uma teoria, como o fez.

Quero apenas destacar que em diferentes culturais e momentos, determinadas habilidades cognitivas específicas são mais valorizadas do que outras. Há, ainda, o que chamamos de “talentos”. Os talentos são pessoas que realizam com alto grau de qualidade uma determinada atividade ou profissão, alcançando reconhecido sucesso. Por exemplo, Beethoven pode ser considerado um talento musical. 

3 – Como, no âmbito das neurociências, a inteligência é estudada? A propósito, haveria uma espécie de definição ou descrição neurobiológica da inteligência?
É importante destacar antes de começar a responder a essa pergunta que, de forma geral, há dois enfoques principais para as investigações neurobiológicas da inteligência. O primeiro está relacionado aos estudos em genética comportamental e molecular e o segundo engloba os estudos sobre a estrutura e a fisiologia do cérebro humano. Para responder a essa pergunta, vou me concentrar no segundo aspecto, ok?
O avanço alcançado pelas neurociências nos últimos 20 anos possibilitou compreensões importantes para as investigações sobre o comportamento humano. Isso também se aplica às investigações sobre a inteligência humana. Os primeiros estudos sobre a relação cérebro-inteligência estavam interessados em verificar associações entre o volume (tamanho) cerebral e o nível intelectual do sujeito, sendo que foram baseados nas concepções antropológicas e arqueológicas de que cérebros maiores seriam capazes de armazenar e processar maior quantidade de informação. Um grande conjunto de estudos aponta para a existência de associação entre volume cerebral e medidas psicológicas da inteligência e, embora consistentes, tais associações são pequenas ou moderadas. Com isso quero dizer que mesmo que cérebros maiores também tendem a ser mais inteligentes, o tamanho do cérebro nos conta apenas uma pequena parte da história sobre o nível intelectual de uma pessoa. Justamente por isso, os estudos subseqüentes se interessaram por investigar outras questões, como as áreas cerebrais ativadas durante tarefas cognitivas. Estudos como esses só foram possíveis graças ao enorme desenvolvimento alcançado pelas técnicas de neuroimagem como a Ressonância Magnética Funcional e a tomografia por emissão de pósitrons, que nos possibilitam “ver” o cérebro no momento em que está funcionando. Os resultados desses estudos mostram que diferentes áreas cerebrais são ativadas durante tarefas cognitivas específicas. Por exemplo, os córtices visual (fica na parte de trás do cérebro, do lado oposto à testa) e parietal (que é vizinho do córtex visual) são ativados durante tarefas cognitivas visuo-espaciais e o córtex temporal (fica mais ou menos acima das orelhas) durante tarefas de linguagem. Contudo, há evidências de que todo o córtex cerebral está envolvido na resolução de problemas, sendo que diferentes etapas da resolução de problemas aconteceriam em diferentes regiões cerebrais. A tendência atual está em verificar se o cérebro de pessoas com alta e baixa inteligência funciona da mesma maneira. Tais estudos são feitos através do controle do consumo de glicose durante a realização de testes de inteligência. Quanto mais o cérebro trabalha, mais ele precisa de alimento (glicose). A hipótese por trás desses estudos é de que o cérebro de pessoas mais inteligentes precisa trabalhar menos do que o de pessoas menos inteligentes para resolver um dado problema, sendo, portanto, mais eficientes. Vários estudos com pessoas de diferentes sexos e idades apresentam evidências favoráveis a essa hipótese. Em suma, o foco das investigações neurocientíficas está em verificar se a estrutura e o funcionamento cerebral diferem entre indivíduos mais e menos inteligentes.

Com relação à definição neurobiológica para a inteligência humana, apesar de não haver consenso, posso dizer que há uma tendência atual em considerar que a inteligência seria função de quão eficientemente o cérebro (aqui, no caso, as redes neuronais) humano processa informações. Assim, inteligência seria sinônimo de Eficiência Neuronal.

4 – Afinal, Marcela, nossas habilidades intelectuais são herdadas, aprendidas ao longo do desenvolvimento ou um pouco de cada?
São um pouco de cada. Os estudos em genética comportamental têm nos indicado que tanto a genética quanto o ambiente contribuem para as diferenças individuais em inteligência. A genética comportamental é uma área relativamente recente que se concentra em explicar porque as pessoas são diferentes com relação às suas características psicológicas. Eles estudam grupos de pessoas (famílias e irmãos gêmeos e não gêmeos biológicos e adotivos) para nos dizer o quanto das diferenças entre as pessoas pode ser atribuído aos genes ou a aspectos do ambiente. As pesquisas feitas indicam que a maior parte (cerca de 60%) das diferenças intelectuais entre as pessoas pode ser atribuída à genética, bem como que o restante ficaria a cargo do ambiente. Algumas das descobertas da genética comportamental são bastante interessantes. Veja: eles nos dizem que há dois tipos de ambientes: o compartilhado e o não-compartilhado. O primeiro se refere àquele ambiente que separa as famílias, como o nível socioeconômico, a escolaridade dos provedores e a religião, ou seja, características que compartilhamos apenas com os membros de nossa família. O segundo é aquela parte do ambiente que não compartilhamos nem com a nossa família — em especial, nem com nossos irmãos. É a forma como nossos pais nos tratam, como são nossos amigos, nossos professores e colegas de classe, as experiências que tivemos quando estávamos na barriga das nossas mães etc. A genética comportamental nos diz que o ambiente não-compartilhado (30%) possui uma contribuição maior do que o ambiente compartilhado (10%) para as diferenças intelectuais entre as pessoas. Outra descoberta interessante é que a influencia da genética e do ambiente mudam ao longo do ciclo vital. Quando pequenos o ambiente possui maior influência, enquanto que à medida que crescemos a genética dita mais nossas escolhas em termos intelectuais.  Além disso, quanto maior a desigualdade econômica e social, maior a influência do ambiente na determinação das diferenças intelectuais entre as pessoas.  Esse achado se faz importante demais, tendo em vista que vai na mesma direção das pesquisas que mostram que, apesar da ampla determinação genética, o cérebro humano responde e se modifica em função do ambiente em que está inserido. Isso é o que chamamos de Plasticidade Cognitiva. O cérebro se modifica tanto em função de ambientes empobrecidos quanto de enriquecidos. Essas descobertas despertaram o interesse em desenvolver programas de treinamento para melhorar a inteligência, ou seja, a eficiência cerebral. Esses programas atuariam através do aumento do volume de estruturas específicas, como o hipocampo (envolvido com a memória declarativa), ou por meio da modificação do padrão de funcionamento cerebral. Conforme eu disse anteriormente, estou desenvolvendo um programa com esse objetivo para crianças. 
5 – Gostaria, para finalizar, que você nos deixasse dicas sobre o que podemos fazer para preservar ou até mesmo melhorar nosso rendimento intelectual.
A primeira dica que posso dar é para ficarem atentos quanto a fórmulas simples de modificação da inteligência que estão disponíveis na internet. Embora ter uma alimentação saudável, fazer exercícios físicos e não assistir tanto à televisão possam melhorar sua qualidade de vida, isso não torna ninguém mais inteligente. Se a modificação cognitiva fosse tão simples assim, os pesquisadores não estariam empenhando tantos esforços financeiros e humanos para desenvolver programas de melhoramento intelectual. Contudo, há algumas coisas que podemos fazer para prevenir o envelhecimento cerebral, e isso, por si só, já retarda o aparecimento de doenças que afetam a cognição, como o Mal de Alzheimer, e previne o declínio cognitivo. Por exemplo, ler livros, fazer palavras cruzadas, desenvolver atividades que requerem concentração, evitar a rotina, desenvolver hobbies — enfim, todo tipo de atividade que estimula o cérebro. Há, ainda, sites que disponibilizam pacotes para melhorar aspectos específicos da cognição, como a memória e a atenção. Veja mais informações sobre tais programas nos seguintes links:

  • http://www.happy-neuron.com/ e
  • http://www.lumosity.com

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4 COMENTÁRIOS

  1. Só posso dizer: excelente,excelente, excelente,excelente……….porque foi muito prazeroso usar a minha inteligência para ler essa entrevista.
    Parabens e obrigada a essa jovem tão inteligente assim como aos autores desse blog maravilhoso!!!

    Thais Maia

  2. “Outra descoberta interessante é que a influencia da genética e do ambiente mudam ao longo do ciclo vital. Quando pequenos o ambiente possui maior influência, enquanto que à medida que crescemos a genética dita mais nossas escolhas em termos intelectuais. Além disso, quanto maior a desigualdade econômica e social, maior a influência do ambiente na determinação das diferenças intelectuais entre as pessoas”.

    Encasquetei nessas duas afirmações… Você sabe de pesquisas sobre isso, Daniel?

  3. Excelente pergunta, Aline. Tentei desenvolver uma resposta no seguinte texto: http://danielgontijo.blogspot.com/2010/11/entre-os-genes-e-o-ambiente.html

    Basicamente, e pegando emprestadas as palavras de Flynn (2006):

    “Uma criança nasce com um cérebro levemente maior do que outra [consideremos, por funções didáticas, que o tamanho do cérebro corresponde ao nível intelectual]. Qual delas tenderá a gostar da escola, ser estimulada, começar a frequentar a biblioteca, entrar em turmas com desempenho superior [e] frequentar a universidade? E se essa criança tiver um irmão gêmeo idêntico [separado na infância] que tem mais ou menos a mesma história acadêmica, o que responderá por seus QIs semelhantes quando adultas? Não apenas os genes idênticos, [mas] a capacidade desses genes idênticos de atrair ambientes de qualidade semelhante será a peça que falta no quebra-cabeça (p. 391).”

    Em outra ocasião (2009):

    “[…] há uma forte tendência de uma vantagem ou desvantagem genética se encaixar em um ambiente correspondente. A criança que considera o trabalho escolar fácil tem mais probabilidade de enxergá-lo como um modo de vencer na vida, de se motivar para fazer as tarefas e de receber mais trabalho dos professores. A criança que precisa lutar para acompanhar o ritmo é mais provável de ser desestimulada e de passar mais tempo fazendo esportes do que envolvida com os estudos (p. 75-76).”

    É mais ou menos por aí, mas acho que seria legal dar uma lida no meu texto para maiores detalhes.

    Um abraço.

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