Sindrome de Otélo – O Cíume Patológico

    6
    Otelo, o mouro de Veneza, é personagem principal do romance do famoso britânico Willian Shakespeare, que conta a história de um homem que ama demais a esposa e que, convencido de sua infidelidade, acaba a matando para logo após descobrir a inocência dela.
    O conto de Shakespeare traça muitos paralelos com a nossa vida cotidiana. Nenhum relacionamento está livre das desconfianças e das tentações que o mundo oferece, ainda mais nos dias de hoje em que o apelo sexual está em cada esquina. Porem existe pessoas que passam dos limites nas desconfianças e qualquer indicio, por mais absurdo que seja, é uma prova cabal da traição do parceiro.
    De fato, não são todos os relacionamentos que terminam em morte como o caso de Otelo, mas o crime passional tem aumentado; vemos na TV vários casos de assassinatos ligados a términos de relacionamentos e traições.
    Vamos falar um pouco do ciúme patológico, algo que movimenta grande parte dos casos de procura por terapia.
    O ciúme patológico é definido como a persistente ideia de que o parceiro(a) possui outros relacionamentos, não importando qual seja a realidade da relação amorosa, pois a sensação é que a relação afetiva está em constante ataque por parte de outras pessoas. Nesse sentido, a pessoa com ciúme patológico interpreta tudo no ambiente como uma prova da infidelidade do parceiro, já que a todo o momento o sentimento é de que o relacionamento corre perigo.
    Dizem que o ciúme é algo natural e esperado de qualquer relacionamento, afinal, quem gosta cuida e quer proteger o relacionamento e a pessoa amada. 
    Não existe uma escala que nos diz quando o ciúme passa de “normal” para patológico, mas podemos perceber que o ciúme patológico causa intenso sofrimento para o ciumento e para o parceiro, que precisa se submeter a questionários, brigas, controles de todas as formas e, em alguns casos, pode ter sua integridade física ameaçada.
    A Síndrome de Otelo é diagnosticada quando existem sintomas e sinais específicos e em conjunto. Podemos dizer que as principais características dessa síndrome incluem: ter o controle da pessoa amada, checar contas de telefone, ler e-mails particulares, vasculhar bolsos, agendas, contas de cartão de crédito, contratar detetives, seguir a pessoa, dar fonemas constantes, implicar com roupas que o outro usa, implicar com amigos(as) e até mesmo parentes, não permitir que o parceiro saia desacompanhado, entre outros.
    É importante ressaltar que a pessoa que sofre do ciúme patológico fundamenta suas ações em distorções e falsas interpretações da realidade. Quando o ciúme ameaça a integridade do relacionamento e qualquer estímulo é interpretado como uma prova de traição, por mais irracional e absurdo que sejam os argumentos usados pelo ciumento, então é preciso ficar atento.
    Quando existe agressão física e ameaças de diversas ordens, o relacionamento não tem mais chances de se tornar saudável sem a ajuda profissional de um terapeuta treinado para tal.
    Quem se envolve com um ciumento patológico vive em constante ameaça, cobranças, brigas e precisa se justificar de tudo que faz a todo o momento. É um tipo de relacionamento penoso e desgastante, e transtornos de ansiedade e depressão costumam se instalar na vítima do ciumento.
    A vítima perde a identidade e a paz e, como no caso de Eloá Pimentel, que foi mantida como refém por 68 horas por Lindenberg Alves em 2008, pode também perder a vida.
    As terapias de abordagem comportamental (Analise do Comportamento) e Cognitivo Comportamental (TCC) são as mais indicadas para o tratamento desse tipo de caso, possuindo estudos e pesquisas de alto grau de evidência científica, atestando que de fato funcionam.
    O ciúme patológico ou Síndrome de Otelo é um problema que existe há séculos e que afeta milhões de pessoas no mundo todo, sendo contudo um problema tratável e com grandes possibilidades de melhora quando realizado por um profissional qualificado e devidamente treinado.
    Aguardem os próximos textos sobre o tema.
    AnterioresO esquizofrênico é um sujeito perigoso?
    SeguintesPrêmio Arthur Bispo do Rosário chega à sua 6ª edição
    Marcelo Souza
    Psicólogo especialista em Análise do Comportamento pela Universidade de São Paulo / HU-USP. Pesquisador do Centro para o Autismo e Inclusão Social da Universidade de São Paulo IP-USP. Psicólogo estagiário do Programa de Pós Graduação Stricto Sensu (nivel mestrado) do Instituto de Psicologia Experimental da Universidade de São Paulo / IP-USP. Monitor da Prof. Dra. Martha Hubner no curso de especialização em Terapia Comportamental da Universidade de São Paulo / HU-USP. Psicólogo do Programa de Orientação ao Aluno da Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP. Professor convidado do curso de Fundamentos da Terapia Comportamental Clinica do InPA-EAD, ministrando as disciplinas " Análise Funcional do comportamento e Conceitos Básicos da Análise do Comportamento".
    COMPART.

    COMENTE VIA FACEBOOK

    6 COMENTÁRIOS

    1. Excelente texto, Marcelo. Esse tema me intriga e me faz suscitar muitas perguntas. Teriam os ciumentos patológicos vivido histórias de vida semelhantes? Se sim, em que consistiu suas vivências? Há, como preconizam alguns evolucionistas, uma base filogenética do ciúme? Se há (ou se há genes mais ou menos relacionados), algumas pessoas podem nascer mais ou menos predispostas a desenvolver esse tipo/padrão de comportamento? Como nós, psicoterapeutas, poderíamos intervir mais adequadamente sobre esse tipo de problema (é claro, levando em conta a particularidade de cada caso)?

    2. Acho que é aquela coisa, pré-disposição genética pode até existir mas sem dúvida nenhum foram acontecimentos durante a vida e o desenvolvimento dessa pessoa que formaram essa situação de ciúmes patológico.

    3. Parabéns pelo texto Marcelo.

      Indo na mesma mão do Daniel, seria interessante verificar a influência dos modelos do sujeito ciumento. Como é a relação dos pais etc.

      Conheço ciumentos que traem suas companheiras… Creio que ser ciumento nestes casos, poderia ter relação com auto-regras do tipo: se eu faço, todos estão sujeitos a fazê-lo também.

      Abraços

    4. E quando há o ciúme patolágico em uma determinada relação, mas não em outras. Por exemplo alguém que não era ciumento com uma parceira, com uma próxima passa a ser extremamente ciumento e apresentar sintomas de ciúme patológico e no próximo relacionamento o ciúme não existir?? Como explicar?

    5. Excelente texto!
      Aliás, excelente site!
      Todos vocês estão de parabéns. A Psicologia só engrandece com psicólogos que a divulgam de forma tão positiva como vocês.

      Grande abraço!!!
      Bruno BV Farias

    DEIXE UM COMENTÁRIO