Qualidade da Vida Conjugal. Parte 1.

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Grande parte dos clientes que buscam a terapia queixam-se de problemas relacionados direta ou indiretamente com sua vida conjugal. Algumas vezes de fato a relação não vai bem. Mas em outras, o queixar-se é um comportamento mantido por atenção social e nada tem a ver a existência ou não de problemas na relação. Importante lembrar também, que o cliente não reclamar de seu casamento não significa que ele esteja a mil maravilhas. É possível que ele simplesmente evite tocar no assunto ou mesmo não reconheça que os problemas estão na relação.
Pensando nisto, o Psicólogo Analista do Comportamento Nicolau Kuckartz Pergher escreveu o artigo Variáveis que devem ser consideradas na avaliação da qualidade do relacionamento conjugal, publicado na Revista Perspectivas em Análise do Comportamento. O autor compõe o corpo de professores da Universidade Presbiteriana Mackenzie  e do Núcleo Paradigma de Análise do Comportamento, de São Paulo. 
Em seu artigo, Nicolau enumera diversas variáveis que merecem ser investigadas ao longo de uma terapia de casal e que dão um direcionamento sobre as possíveis origens da insatisfação com a relação. Na série de textos que se segue, será apresentada uma breve discussão das ideias do autor. Importante citar um alerta dado pelo próprio Pergher, no que se refere a complexidade da discussão. Ele explica que cada um dos temas apresentados em seu artigo, merece por si só uma extensa revisão bibliográfica. Mas para os fins deste post, um simples resumo basta. 
As variáveis discutidas pelo autor são: 
1) Motivos de Início do Relacionamento 
a) Porque, dentre as milhares de opções, foi por aquela pessoa que o cliente se atraiu e se estabeleceu? 
A resposta a esta pergunta pode oferecer fortes evidências sobre o que o cliente considera importante em uma relação, além de dicas sobre que caminhos deve seguir uma intervenção.

Estas coisas que o cliente considera importante, ainda existem na relação? Eram apenas fantasias?

Ainda há a possibilidade daquilo que atraiu o cliente ter se tornado um problema. Por exemplo, um dos principais motivos pelo qual o cliente se atraiu por outra pessoa é a sua dedicação ao trabalho. Ao longo do tempo e da convivência, esta dedicação ao trabalho pode se traduzir em falta de atenção ao cônjuge, falta de assuntos não relacionados ao trabalho, etc. 

b) Quanto tempo durou cada fase (paquera, primeiro beijo, primeiro eu te amo, namoro, casamento, filho, etc) da relação e o que acontecia na vida do cliente na transição? 
Este dado poderá indicar como acontece o processo de tomada de decisões do casal, se é mais impulsivo, pensado, movido por fatores externos à relação, fatores internos, etc.

Muita gente adianta o casamento para fugir de pressões da família nuclear (pai, mãe, irmãos), como por exemplo, de um pai agressivo. Não que não exista amor entre o casal que se forma, mas o motivo de se casaram alí, naquela época específica, não é este amor, mas uma fuga dos problemas enfrentados em casa. As chances do casal apresentar problemas é grande, e muito provavelmente, serão parecidos com os problemas dos quais está fugindo.  

c) O casamento ocorreu em decorrência de uma gravidez? 
Em alguns casos, a gravidez pode funcionar como uma estratégia para prender o cônjuge, especialmente, quando este mostra sinais de desistência do casal. Em outros, pode ser uma alternativa da mulher para adiantar sua saída de um ambiente coercitivo em meio a família nuclear. 

d) A união foi arranjada? 
É possível que o casal fique feliz e satisfeito. Mas é provável também que ambos se questionem quanto a possibilidade de serem felizes, especialmente quando o casal possui interesses divergentes ou incompatíveis com a união. 
2) Histórico de Relacionamentos 
a) Histórico de Rejeição 
Pessoas com histórico de rejeição ou abandono por parte de seus cuidadores ou parceiros antigos, poderão formular auto-regras que descrevam contingências comuns na relação como potencialmente ameaçadoras, e que as tornem menos sensíveis ao que de fato ocorre no momento. Estas pessoas reagem com agressividade ou esquiva da relação com muita facilidade.

Vale observar também como é o processo de tomada de decisão do casal. Pessoas com este histórico podem emitir mutios comportamentos com função de evitar uma nova rejeição e se submeter-se às vontades do cônjuge de maneira indiscriminada, o que pode trazer sofrimento.

b) Relacionamentos Tardios 
É esperado que as pessoas iniciem suas experiências com relacionamentos íntimos (namoro) ainda na adolescência e que nesta fase, aprendam a entender e lidar com as várias dificuldades e conflitos comuns às diversas fases da formação de um casal. Nos casos em que o cliente não aprendeu a compreender e lidar com estas dificuldades na adolescência, ele terá de fazê-lo na idade adulta, fase em que será cobrado a se estabelecer com alguém. E caso o cliente se envolva com outra pessoa que já passou por estas experiências, certamente irão emergir dificuldades, conflitos e inseguranças específicas, e é papel do terapeuta ajudar o cliente a lidar com elas.

Um exemplo desta diferença pode ser encontrada em casais em que ao homem inexperiente usa uma cueca rasgada em uma situação íntima com a namorada. 
c) Violência Sexual 
Com frequência, chegam a clinica de Psicologia pessoas que foram vítimas de algum tipo de violência sexual. Os efeitos desta violência variam entre as pessoas, mas alguns dos mais comuns são: dificuldade em colocar limites na relação, tendência a revitimização, tendência à dificuldades para envolver-se com pessoas do mesmo sexo que o agressor, reprodução da violência e promiscuidade. Estes casos merecem atenção especial do terapeuta. 
d) Profissionais do sexo 
Algumas mulheres que já foram garotas de programa procuram ajuda na terapia. Geralmente, com medo de que seu passado seja descoberto pelo parceiro ou com sentimento de culpa por já ter se envolvido com vários homens. E no caso dos homens que se interessam por estas mulheres e se envolvem com elas, conscientes da situação, deve-se investigar se sua atração possui alguma relação com o fato da parceira já ter sido garota de programa. 
e) Excesso de Exigência 
Algumas pessoas se decepcionam com muita facilidade em seus relacionamentos. Pode ser que existam mesmo motivos para uma decepção. Mas pode ser também que o cliente seja inflexível quanto ao que considera pré-requisito na relação e que tenha baixa tolerância a frustração. Neste caso, temos uma demanda específica a ser trabalhada. Caso não seja, é provável que o nível de exigência do cliente aumente e sua tolerância à frustração diminua ao longo do tempo, o que pode fazer dele uma pessoa incapaz de se estabelecer em uma relação amena e sadia. 
3) Divisão Financeira 
a) Marido como Provedor 
Ainda é bastante comum o formato de família em que o marido é o provedor financeiro da casa. Muitos homens sentem-se na obrigação de sê-lo e quando não conseguem, sofrem. Além disso, é comum aquele que tem o controle financeiro da casa assumir também o controle sobre o comportamento do outro, já que “é ele quem está pagando”. Dependendo das proporções deste controle, ele poderá trazer sofrimento clinicamente relevante à cônjuge, que muitas vezes, sofre calada. 
Outro ponto conflituoso é quando o homem possui condições financeiras consistentes, mas não provem a mulher de recursos compatíveis a esta condição. A situação pode gerar sentimentos de desvalorização na esposa. 
b) A mulher como provedora 
Ultimamente as mulheres tem ampliado suas potencialidades profissionais e seu salário, muitas vezes, assumindo o posto de provedora do lar. Se ela gosta desta posição e encontra um homem que almeje ser sustentado por uma mulher, nenhum dos lados do casal sofrerá. Mas é possível que ela se questione sobre este papel que acabou assumindo e sinta-se indignada com a posição escusa do marido. Em outros casos, o homem pode sentir-se incomodado por ser sustentado por uma mulher ou sofrer com as possíveis pressões sociais decorrentes disto. Além disso, vale lembrar que muitos homens sentem-se intimidados diante de uma mulher bem sucedida profissional e financeiramente. 
c) Conta Conjunta 
Alguns casais possuem contas conjuntas, nas quais ambos tem acesso e podem gastar o dinheiro como quiserem. Quando há recursos financeiros fartos, é possível que não hajam desentendimentos. Quando o casal passa por problemas financeiros, várias brigas podem surgir daí, inclusive sobre outros temas. É importante que o casal converse, desde cedo, sobre o quais regras definem uma divisão financeira adequada naquela relação. 
Alguns questionamentos comuns merecem atenção especial, tais como: quem será o responsável financeiro pela casa? Um dos dois assume as contas da casa ou elas são compartilhadas? Quem é o encarregado de acumular recursos? É preciso ou desejável um saber quanto o outro ganha? Cada um deve manter economias individuais e administrar seu próprio dinheiro? 

4) Diferenças de Idade e Cultura 
a) Diferenças de idade 
Diferenças de idade sugerem momentos diferentes da vida, com expectativas, responsabilidades e interesses diferentes, característicos de cada fase. Estas diferenças, se mal administradas, podem gerar sérios conflitos, parecidos com o que ocorre quando falamos de situações como as narradas em “Relacionamentos Tardios”. 
Quando o cliente mantém um padrão de atração por pessoas com idades distantes da sua, temos outra questão a ser investigada. É possível que o padrão seja um tipo de esquiva gerado por experiências especialmente conflituosas do passado. 
b) Diferenças culturais 
Cultura pode ser definida como o conjunto de práticas verbais e não verbais que um determinado grupo compartilha (Baum, citado por Pergher) e valoriza. Quando um casal é formado, é possível que cada um dos cônjuges cresceu em famílias diferentes, que valorizam práticas diferentes daquelas valorizadas pela família do outro. Estas discrepâncias tornam-se especialmente evidentes quando os cônjuges professam religiões diferentes ou vem de classes sócio-econômicas diferentes. Por exemplo, para Joãozinho, um churrasco com cerveja e linguiça assada no quintal de casa é mais interessante do que um jantar no restaurante mais refinado da cidade. 
Nestes casos, além dos cônjuges terem de lidar com as pressões de seus familiares para que não se casem, terão de aprender a se comportar de maneiras completamente novas, o que pode ser oneroso a ponto de levar a desistência da relação. 
**Não perca os próximos textos da série, os quais trarão uma síntese do que diz Nicolau Pergher sobre: 
5) Graus de Intimidade 
6) Práticas Sexuais 
7) Padrões de Interação 
a) Vigilância 
b) Comunicação Indireta 
c) Competição 
d) Quem toma das decisões pelo casal 
e) Gabar-se 
f) Agressividade 
8) Fontes de Reforçamento extracônjuge (outras atividades não ligadas ao relacionamento) 
9) Traições 
10) Doenças 
a) Abuso de Drogas 
b) Depressão 
c) Outras doenças psiquiátricas 
d) Doenças crônicas ou terminais 
11) Filhos 
a) Aborto 
b) Decisão de ter filhos 
c) Tratamento para engravidar 
d) Teste de DNA 
e) Estilos parentais 
f) Independência dos filhos 
12) Planos de vida 
13) Separação 

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