sábado, 26 de fevereiro de 2011

Terapia Cognitivo-Comportamental: Uma Palavrinha sobre as Crenças.

A Teoria Cognitiva é uma teoria monista, no sentido em que mente e corpo são entendidos como parte de uma mesma realidade (a realidade física, material). A mente não é compreendida aqui como qualquer elemento ou entidade separada do corpo, mas como um nome dado a atividade neural. Mais especificamente, pensamentos, crenças e esquemas cognitivos. Ela é também uma teoria mentalista por trabalhar com a hipótese de que a mente exerce influência no comportamento.


O pensamento, conceito chave desta abordagem, é divido didaticamente em três categorias: Crenças Centrais; Crenças Intermediárias e Pensamentos Automáticos.



As Crenças Centrais são o núcleo da personalidade do sujeito. Também chamadas de suposições básicas; e, por alguns autores, de esquemas cognitivos¹, elas compreendem a maneira como o sujeito percebe a 1) Sí Mesmo; 2) O Mundo e os Outros, e; 3) O futuro. Por exemplo, se uma pessoa possui crenças centrais de catastrofização, muito provavelmente interpretará a sí mesma como alguém incapaz de lidar com as dificuldades, o mundo e os outros como potencialmente perigosos e o futuro como incontrolável e cheio de riscos.

As Crenças Intermediárias são as estratégias usadas pelo sujeito de maneira inconsciente² com a função de se proteger da angústia causada pelo contato de suas crenças centrais com a realidade³. Caracterizam-se por afirmações condicionais, do tipo "eu tenho que...", "eu devo...", "se... então...", etc.

Seguindo o exemplo anterior, imaginemos Sandra, uma jovem e bem sucedida administradora de 25 anos, bonita, divertida e inteligente, em uma grande festa de sua cidade. Ela vê ao longe Rogério, um rapaz de 28 anos, promotor de justiça, muito bem sucedido profissionalmente e financeiramente, papo inteligente, divertido e elegante.  Sente vontade de abordá-lo, mas não o faz por acreditar que "se 'chegar' em um homem, fará papel de oferecida e não será respeitada por ele".

Justificando-se por este pensamento, Sandra passa a noite inteira observando Rogério dançar, se divertir e conversar com outras pessoas. Ao fim da festa, culpa-se por ter ficado "só na vontade" e deixado a oportunidade passar.

Estas regras que contribuíram para que Sandra não abordasse Rogério, são as chamadas Crenças Intermediárias. Elas escondem as Crenças Centrais; que, neste exemplo, provavelmente seriam do tipo "Sou Incapaz de criar uma boa imagem de mim mesma", ou "Sou Incapaz de conquistar o respeito de Rogério.

Os Pensamentos Automáticos são geralmente a primeira coisa que passa pela nossa cabeça frente a uma situação qualquer. São rápidos e muitas vezes só se percebe a emoção associada a eles. Com um certo treino de auto-observação, entretanto, o sujeito torna-se capaz de descrevê-los.

Alguns dos pensamentos automáticos que possivelmente Sandra teria, são:

1) Sandra vê Roberto rindo e pensa: "ele tá rindo de mim";
2) Sandra vê Roberto virando as costas quando ela vai em sua direção, e pensa: "ele sabe que estou afim".

Como esta abordagem foca muito no pensamento na hora de explicar o comportamento, muitos acreditam que ela não leva em conta a história de vida e as contingências atuais da vida do sujeito. Pelo contrário. Um pensamento só existe contextualizado e seu conteúdo é definido de acordo com a história de aprendizagem de cada um. Isto se aplica a todas as categorias de pensamento.

O pensamento exerce sim, importante papel na causa do comportamento, mas não é a sua "causa primária". Para compreender isto, no entanto, é importante que se conheça o Modelo Cognitivo, assunto de um próximo post sobre a abordagem. Não deixe de acompanhar a série.


¹ - Os Esquemas Cognitivos são como regras que coordenam a organização das interpretações que fazemos de nossas experiências. Alguns autores os tratam como coisas diferentes das crenças; sendo, os esquemas a "forma" pela qual as experiências são interpretadas e as crenças o conteúdo destas interpretações. Outros tratam como se fosse a mesma coisa, já que as crenças centrais é que determinam a interpretação que o sujeito fará da realidade.
² - Consciente e Inconsciente, para esta abordagem, não são tratados como substantivos, mas como adjetivos. Algo é mais ou menos consciente à medida em que o sujeito consegue falar a respeito. Pode ser feita uma analogia com um contínuum, no qual em um extremo temos o não reconhecimento da existência e no outro temos seu reconhecimento total. 

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