[Entrevista Exclusiva]: Roosevelt Starling

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O Professor Roosevelt Starling concedeu uma entrevista exclusiva ao [“Comporte-se”], na qual fala sobre sua história e de aspectos históricos e políticos da Análise do Comportamento. Ele trata muito cuidadosamente os temas da entrevista, e é enfático ao falar da importância de se manter o caráter científico da abordagem.

Segue abaixo a entrevista com suas respostas na íntegra. Vale muito a pena ler completa.

1 – Olá Dr. Starling. Primeiro gostaria de saber um pouco de sua história. Em breves linhas, o que te levou à Psicologia e, posteriormente, ao Behaviorismo? 

Quando me interessei pela clínica psicológica – o curso de psicologia foi uma decorrência disso – já havia cursado duas graduações e encaminhava a terceira. As contingências e suas vicissitudes, parafraseemos, encaminharam meus interesses primeiro para a Física e, a seguir, para a Economia. Contudo, a densidade de reforçamento que uma e outra produziram não foi suficiente para manter minhas respostas cá e, depois, lá. Permanecia incomodado. Em retrospectiva, parece-me que o catalisador da escolha que me conduziu ao curso de psicologia foi a minha terapia pessoal, que então se encaminhava para a sua conclusão. Filho, sobrinho e primo de médicos, havia desde sempre vivido num ambiente de médicos e de hospitais e a minha história de reforçamento apontava o ofício de “curandeiro”, aqui na melhor acepção da palavra, como algo desejável.   Minha própria terapia psicológica deu-me o modelo do tipo de “curandeiro” que desejava ser e o caminho mais rápido para ele não era a medicina, mas sim a psicologia. Na época, tinha ainda menos clareza do que hoje de que “rápido” e “melhor” podem conduzir a resultados bem diferentes…

Não foi exatamente o behaviorismo que me atraiu, mas sim a Análise do Comportamento. Tanto quanto posso me dar conta, este interesse se deu principalmente por dois acontecimentos acidentais superpostos ao pano de fundo de duas histórias incidentais que, creio, haviam deixado prontos os alicerces históricos para que a exposição a um projeto naturalístico para a psicologia de pronto ganhasse a minha atenção. O primeiro deles foi a descoberta e a leitura de um livro encontrado ao bisbilhotar o acervo da biblioteca da PUC-MG, onde cursava economia. Era o “Principles of Psychology”, de Fred S. Keller (1899-1996) e William N. Schoenfeld (1915-1996). O segundo foi ter conhecido e me aproximado do Prof. Oyama A. Ramalho, dono de extenso conhecimento da obra de B. F. Skinner (1904-1990) e de uma arguta percepção das implicações dela, sobretudo para a educação, mas que, por circunstâncias históricas e contingências pessoais, é virtualmente desconhecido em nossa comunidade.

Incidentalmente, eu havia sido criado sob a influência de duas pessoas com forte repertório experimentalista e empiricista, meu avô paterno e meu pai, embora pense que ambos ficariam surpresos se isso lhes fosse dito. Finalmente, a primeira graduação que eu cursei, ainda muito jovem, foi em Física, bacharelado, um curso que não promoveu em seus estudantes uma visão naturalística do mundo – exceto no âmbito restrito dos fenômenos do seu interesse – mas que instalou um repertório rigoroso quanto à natureza das demonstrações aceitáveis como verdade científica.

Imerso numa dieta de puro mentalismo, que era a dos cursos de psicologia da época, fiquei interessado na conversa daqueles Keller e Schoenfeld e fiquei interessado na conversa do Prof. Oyama. Maravilha: pareceu-me que ali estava uma psicologia que eu podia, literalmente, pegar com as minhas próprias mãos; ali estava uma psicologia que não me exigia fé, mas sim verificação.  E, é claro, ali estava uma psicologia que se alinhava à minha história de reforçamento. O preço que paguei junto aos professores e colegas da época por tais interesses heréticos e excêntricos é uma lição da história.

 2 – Qual a sua visão sobre a psicologia no Brasil hoje e quais as perspectivas de futuro dela enquanto ciência e profissão? E a Análise do Comportamento, como se situa neste contexto?

Esta e as demais perguntas desta entrevista abordam temas polêmicos e complexos e algumas delas contêm, de fato, duas perguntas em cada formulação.  Dessa forma, não posso esperar senão produzir respostas sinópticas, que por certo falharão em expor e examinar facetas igualmente relevantes dos temas que comentarei, para não falar de uma justa apreciação do contraditório que, comumente, está presente em contingências complexas, nas quais várias respostas, até mesmo respostas contrapositivas umas em relação às outras, podem produzir reforçamento. Supondo que este texto mereça alguma atenção caberá ao leitor, como sempre, suprir essas carências com a sua própria produção verbal.

Como eu vejo, o rótulo “psicologia” é um rótulo basicamente histórico e hoje se mantém principalmente por interesses de ordem político-institucional. Formalmente, Wilhelm M. Wundt (1832 – 1920) fundou na Universidade de Leipzig, entre 1875 e 1879, uma linha de investigações à qual denominou “psicologia experimental”, a primeira do seu tipo. Diferenciava-se, assim, da filosofia, até então o domínio disciplinar em cujo bojo se desenvolvia as especulações e investigações dos fenômenos psicológicos. Ao longo dos anos, a psicologia foi se tornando progressivamente mais “cognitiva” e menos experimental e passou a abrigar sob essa mesma denominação modelos explicativos diversos quanto ao seu objeto de estudo, quanto ao método de investigação utilizado e quanto aos critérios de validação do conhecimento que produziam. Modelos explicativos que têm por objeto de estudo fenômenos diferentes, que os investigam através de métodos diferentes e que validam o conhecimento que produzem por critérios diferentes são, parece óbvio, diferentes. Mais do que diferentes, são por vezes antagônicos no que diz respeito aos supostos pré-analíticos que mantêm e direcionam a teorização, como é o caso da dicotomia dualismo-monismo. São concepções e teorizações que dificilmente conversam produtivamente entre si porque, singelamente, não tem bases comuns sobre as quais possam fazê-lo. Como falar então numa “ciência psicológica”, como falamos numa ciência química ou numa ciência biológica? Assim, parece-me que “psicologia”, como uma ciência, não existe. Pelo menos não existe no mesmo sentido em que existe uma ciência biológica ou uma ciência física.

Também penso ser difícil conceber a psicologia como uma profissão, pelo menos no sentido em que se concebe uma profissão médica, uma engenharia ou uma advocacia, pois são tantas e tão diversas as práticas consideradas psicológicas, por vezes até mesmo contrapositivas umas em relação às outras, que não se pode por certo saber o que faria um “psicólogo” numa dada situação ou função. Na área da ação psicológica clínica, seja suficiente para ilustrar a afirmação acima a legião de terapias minerais, vegetais, animais, espirituais, luminosas, cromáticas, aquosas, fluídicas, energéticas, dançantes, oculares, neurológicas, geométricas, culinárias, corporais, filosóficas, pedagógicas, hipnóticas, sexuais, mórficas, musicais, artísticas e até mesmo perfurantes e ex post-mortem, cada uma com suas visões-de-mundo, teorizações e práticas particulares (além das combinações entre elas), todas oferecidas e defendidas como práticas psicológicas igualmente confiáveis no mercado da saúde. A meu ver, este “estado da arte” não é indicativo de uma vigorosa e saudável diversidade e pluralidade, mas sim do caos comum aos momentos iniciais de qualquer empreendimento.

O ilustrado acima é somente parte do problema de se obter uma definição profissional consistente. Há coisa de dois ou três anos, recordo-me, circulou pela internet um texto no qual colegas interessados em aplicações psicológicas nas organizações se manifestavam contra a proposta da definição da psicologia como uma profissão da área da saúde, que a seu ver os excluiria. Penso que lhes assistia a razão, como igualmente assistiria aos colegas que se interessam pela psicologia jurídica, a dos esportes e assim por diante.

Não se sabendo ao certo o que faz um membro de uma dada classe profissional, existiria, ainda assim, uma profissão da qual ele fizesse parte?

Nessa compreensão, parece que o que os psicólogos têm de fato em comum e o que faz de todos eles igualmente “psicólogos” é uma regulamentação política comum e uma representação político-institucional comum, que é a autarquia que os insere no ordenamento jurídico vigente.

Contudo, este estado das coisas não me incomoda. Pelo contrário, acho-o instigante. Para melhor compreender essa minha atitude, convido o leitor a um pequeno exercício. O tempo de existência da nossa espécie, o homo sapiens, é estimado em 200.000 anos. Como é difícil apreciar tamanho lapso temporal, façamos então uma equivalência entre 200.000 anos e 1 ano, construindo uma escala temporal homóloga. O leitor é convidado, então, a imaginar que neste um ano, que agora concentra toda a existência da nossa espécie, estamos nos últimos segundos das últimas horas do último dia do mês de dezembro.  Digamos, às 23h59min59s do dia 31 de dezembro do Ano Zero. Nessa nova escala:

·         A humanidade iniciou suas primeiras tentativas de regular o comportamento social através de regras reunidas em códigos, o direito, somente há nove dias e três horas, ou seja, neste primeiro ano, o Ano Zero da humanidade, as bases formais do direito contemporâneo foram lançadas somente na madrugada do dia 24 de dezembro [3.000 AC, no Egito].

·         Começamos a estudar engenharia há oito dias e oito horas, ou seja, na manhã do dia 24 de dezembro [2550 AC, Imhotep, também no Egito].

·         A filosofia começou a ser estudada sistematicamente somente há quatro dias e 6 horas atrás, ou seja, no amanhecer do dia 27 de dezembro [600 AC – Pré-socráticos].

·           Os princípios da medicina contemporânea, há quatro dias e 19 horas, ou seja, na tarde do dia 27 de dezembro [300 AC – Hipócrates].

·         A ciência natural, segundo as regras que hoje utilizamos, somente há 15 horas, ou seja, na manhã do dia 31 de dezembro [1660 DC – Fundação da Royal Society, na Inglaterra] e aprendemos a anestesia cirúrgica somente há sete horas, ou seja, na noite do dia 31 de dezembro [1846 DC, Hospital Geral de Massachusetts, EUA].

·         A psicologia começou a ser estudada somente nas últimas seis horas do último dia do Ano Zero, ou seja, às seis horas da noite do dia 31 de dezembro [1875 DC, Wundt] e começamos a realizar os primeiros estudos sistemáticos da psicoterapia há três horas, ou seja, às nove horas da noite do dia 31 de dezembro [Década 1940-1950 DC].

·         A primeira apresentação formal da Análise do Comportamento ocorreu alguns minutos antes das nove da noite do dia 31 de dezembro [1938 DC – Publicação do “The Behavior of Organisms”, por B. F. Skinner] e a apresentação sistemática dos seus primeiros estudos aplicados somente há duas horas, portanto, aproximadamente às dez da noite do dia 31 de dezembro do Ano Zero [1968 – 1ª edição do Journal of Applied Behavior Analysis, JABA].

O tempo decorrido desde o início e constituição formal da nossa profissão, seis horas somente (ou 135 anos), é muito pequeno, quando comparado ao já decorrido na constituição de profissões mais antigas, como o direito (nove dias e três horas, ou aproximadamente 5.000 anos), a engenharia (oito dias e oito horas, ou aproximadamente 4.500 anos) e a medicina (quatro dias e 19 horas, ou 2.310 anos.). O leitor por certo concordará que se ele iniciasse agora o estudo de um novo campo disciplinar qualquer, após oito dias e oito horas de estudo e reflexão ele teria a obrigação de saber bem mais do que sabia nas primeiras seis horas de estudo.

A história registra para o início dessas profissões, hoje já amadurecidas, problemas semelhantes aos que enfrentamos hoje na psicologia, quais sejam os de firmar nessas comunidades um consenso majoritário quanto à definição do seu objeto de estudo ou campo de ação profissional, os da seleção da sua metodologia investigativa e os dos critérios para a verdade aceitável.  Nessas profissões, hoje já não se discute mais, exceto perifericamente, estes pontos básicos; o momento histórico delas é mais de refinamento conceitual e de desenvolvimento de novas ferramentas de análise e/ou de observação dos seus fenômenos de interesse.

Dessa forma, não me incomoda que, em meros 135 anos, ainda não tenhamos conseguido para a nossa profissão a consistência e o consenso obtidos em alguns milênios para aquelas outras.

Tendo descrito como eu vejo o presente, devo confessar que não faço a menor idéia das perspectivas futuras desse conglomerado como, aliás, é claro, não faço a menor idéia do futuro de uma maneira geral. Minha linguagem para ver o mundo é a da análise do comportamento e, assim sendo, concebo as interações humano-mundo e humano-humano de um ponto de vista probabilístico nas relações imediatas e por demais complexas nas relações temporalmente dilatadas para que se possa antecipá-las. O exercício da futurologia é, no melhor, especulativo e, no pior, delirante. Por mais fascinante intelectualmente que possa ser esse exercício, outros domínios disciplinares parecem-me mais bem equipados para fazê-lo do que o da ciência natural.

Quando considero a Análise do Comportamento, tenho observações mais pontuais, mas, para alguns desses pontos, não tão diferentes.

Há dez ou mais anos publiquei no sexto volume da coletânea “Sobre Comportamento e Cognição” um pequeno artigo no qual dizia que, da maneira como nos apresentávamos no meio social mais amplo, o que fazia de um profissional um “analista do comportamento” era, essencialmente, a sua declaração dessa asserção. Noutras palavras, falava sobre o que me parecia a necessidade – ou a desejabilidade – de se dispor meios para assegurar um mínimo de coesão e consenso na práxis daqueles que se denominam analistas do comportamento, para que se pudesse manter a função discriminativa do construto.

Para aqueles que se submetem ao crivo da comunidade verbal analítico-comportamental, publicando seus trabalhos ou apresentando-os em congressos, o controle exercido pela comunidade sobre essa declaração de afiliação é mais forte. Para aqueles que não o fazem, o controle é de muito pouco a nenhum. Noutras palavras, para esse grupo, é um “analista de comportamento” quem assim se declarar.

O problema continua me parecendo relevante, pois será através dos analistas do comportamento com os quais mantiver contato que a comunidade maior avaliará e formará sua opinião dessa abordagem. Na minha área de atuação mais imediata já tomei conhecimento, através de clientes, da existência de vários “analistas do comportamento” ou “terapeutas comportamentais”, que é como o grande público nos conhece, que nunca vi nos nossos encontros, que não tem trabalho algum publicado e – assuntando daqui e dali – cujos professores desconheço, o que é quase uma impossibilidade, dado ao nosso número ainda pequeno. Fiquei sob a impressão de que essas pessoas leram em algum livro ou artigo algumas “técnicas comportamentais” e passaram a aplicá-las, tirando daí, presumo, a identidade profissional que declaram. Vi desastres e já precisei investir um bom tempo para reparar os danos.

Estejamos preparados para mais: dissemina-se no Brasil que o “método” ABA é o tratamento de eleição para os transtornos invasivos do desenvolvimento e já se vêm “especialistas” oferecendo tratamento e “cursos”, boa parte somente com o treinamento da graduação ou declarando especializações estranhas à área e atuando sem supervisão analítico-comportamental competente e experiente nessa aplicação tão delicada. Parece que esses, mais agressivos ou menos bem formados, ou as duas coisas, também aprenderam algumas “técnicas” e entreviram uma “oportunidade de mercado”, lançando-se prematuramente ao seu encalço. O problema é que esta não é uma “oportunidade de mercado”, mais sim algo muito mais precioso e conseqüente: uma oportunidade para ampliar o bem-estar de seres humanos reais ou falhar em fazê-lo, comprometendo e desgastando, no processo, a mais efetiva das oportunidades de tratamento que eles têm.

 Nos seus aspectos técnicos, a ciência se parece à mágica: depois que o prestidigitador demonstra como faz para tirar o coelho da cartola, a compreensão da técnica é praticamente imediata para o iniciante ou para o leigo culto, o que não quer dizer de maneira alguma que já se possa então executar o número com competência. “Técnicas” são, numa analogia, procedimentos relativamente grosseiros de como parafusar ou desparafusar. Desconhecendo quais parafusos se deveria parafusar e quais não, e quando se deveria desparafusá-los e quando não, e em que ordem se deveria desparafusá-los e que pressão se deveria exercer na chave de fenda, por quanto tempo e por que, o palco para o desastre está montado.

O desenvolvimento da Análise do Comportamento no Brasil se deu sob circunstâncias peculiares. A partir de um núcleo original, que não passava de dezenas, praticamente o espaço de uma geração foi cumprido sem que houvesse mudanças expressivas no número de interessados nessa abordagem. Nos últimos 20 anos, em especial nos últimos 10 anos, contingências favoráveis, dentre elas o advento da ABPMC como fator de disseminação e aglutinação, mudou esse panorama, trazendo à abordagem um número expressivo de jovens estudantes e estabelecendo assim, pela primeira vez, o problema da formação. Antes muito poucos, era mais fácil para a comunidade verbal mais refinada modelar nos poucos interessados, um a um, os desempenhos que caracterizariam um falante dessa língua. Hoje, com um número de interessados na casa dos milhares, esta tarefa apresenta desafios bem maiores.

Os colegas americanos tem se preocupado com isso já há alguns anos e a solução que encontraram foi constituir o BACB (Behavior Analysis Certification Board – http://www.bacb.com/), como uma organização independente das universidades, que certifica, mediante provas e um sistema de educação continuada, o analista do comportamento. Alguns colegas e eu mesmo temos defendido uma solução semelhante, pensando inclusive que esta seria uma função adequada à nossa associação. Dado ao estado ainda incipiente da organização social da prática clínica psicológica, não se pode impedir que alguém autoproclame a afiliação que lhe parecer melhor, como não se pode impedir que alguém, sem a habilitação formal, dirija um automóvel. Mas podem-se certificar aqueles que têm sua habilitação reconhecida pela comunidade dos seus pares, através de uma instituição representativa dela. Isso não protegeria somente os interesses dos praticantes, mas, sobretudo, protegeria o público usuário, permitindo-lhe uma escolha informada.

Outra preocupação que já manifestava no artigo acima citado, diz respeito aos nossos números. Não se sabe por certo quantos somos. A se estimar pelo comparecimento aos nossos encontros nacionais e pela vendagem dos livros da área, somos em torno de 1,5 % da psicologia brasileira. Somos, portanto, a minoria da minoria (já li a estimativa que somos 4% da psicologia norte-americana, outra minoria). Sem um censo, continuaremos sem saber e, não sabendo, fica prejudicado o planejamento para as diversas atividades da área e não se pode saber a taxa de acréscimo/decréscimo do nosso número. No já citado artigo, considerava algumas hipóteses para este estado das coisas e chamava a atenção para a relevância do número de praticantes com relação à produção de reforçamento para novos interessados.

Poucos dentre nós terão a chance de desenvolver sua carreira na academia. Simplesmente, o número de vagas oferecidas é e, tudo indica, continuará sendo, inferior ao número de interessados qualificados. A maioria de nós precisará ganhar o seu pão oferecendo seus serviços no mercado.  Convido o leitor a examinar os editais presentes e passados dos concursos públicos para o provimento do cargo de psicólogo e ele verá que a bibliografia desses concursos é majoritariamente, quando não exclusivamente, mentalista, concentrando-se, ainda, na literatura psicanalítica e, mais recentemente, na literatura de embasamento político-ideológico, que parece ser a principal vertente na qual se desenvolve a psicologia social brasileira. 

Cada uma das abordagens principais da psicologia é por si mesma um universo e dominar qualquer uma delas com fluência é tarefa para uma vida. Segue-se que são mínimas as chances de um analista do comportamento dominar em alguns meses, e sem convicção, uma linguagem diferente da sua, equiparando-se, em fluência, a um “falante nativo”, digamos assim, uma pessoa que há anos e anos vem se familiarizando com aquela literatura. O resultado prático disso é discriminatório e excludente, no sentido de que as bases teóricas sob as quais se assentam o concurso fazem, na verdade, uma pré-seleção dos candidatos com chances. Num dos editais de concurso que recentemente li, conhecia, mas sem familiaridade, somente um, dos 15 ou mais autores cujas obras compunham o arcabouço teórico das provas que seriam aplicadas. Avalio que as minhas chances pessoais naquele concurso teriam sido praticamente nulas, caso eu desejasse mesmo participar; estaria já excluído, antes mesmo de concorrer. Num concurso para provimento de um cargo público isto é inadmissível, pois se choca com o imperativo constitucional da igualdade de condições aos candidatos.

Não tenho muito interesse por teorias conspiratórias e, assim, não vejo uma ação deliberada por detrás desses fatos. Mais simplesmente, penso que como o mentalismo é a corrente dominante na psicologia brasileira desde sempre (como o é na psicologia ocidental, de maneira geral), são os seus praticantes que estão em posição de formular os programas dos concursos e, ao fazê-lo, o fazem com base no que sabem e no que acreditam. Seja como for, o fato é que isso instala, sim, uma situação de exclusão e, talvez, pior, um círculo vicioso: selecionados somente os daquela linguagem, eles, por sua vez, selecionarão mais do mesmo. No mundo corporativo, como agora se diz, mentalistas selecionarão mentalistas, é claro. Se, por acidente ou boa sorte, um analista do comportamento se encontrar num destes ambientes, provavelmente estará sozinho e sitiado e, nessas condições, o aporte inovador e produtivo que a Análise do Comportamento poderia trazer àquele ambiente estará limitado.

Entristece-me ver pessoas que foram apresentadas à Análise do Comportamento através do meu trabalho às voltas com discursos estranhos às suas convicções e treinamento porque precisam assegurar uma boa oportunidade de trabalho. Frustra-me saber que parte desses, passado algum tempo, estarão falando sobre o comportamento numa linguagem mentalista, porque estarão naquela comunidade verbal e é nas contingências que ela dispõe que precisarão produzir os reforços que necessitam.

Renovo aqui, portanto, o convite que já fiz anos atrás: tenhamos como meta para os próximos dez anos nos tornarmos 10% da psicologia brasileira e nós, os professores da graduação, tenhamos como meta interessarmos e mantermos interessados no estudo e prática da Análise do Comportamento pelo menos 10% dos alunos de cada disciplina da área que ministrarmos. A meta é razoável: numa turma de 20, precisaríamos de somente dois para atendê-la. Se lograrmos este objetivo e se a Análise do Comportamento tiver realmente o potencial produtivo e transformador que julgamos que tem, isso será suficiente para que possamos, enfim, participar com melhores chances do cesto das práticas psicológicas oferecidas à seleção.    

Finalmente, se se deseja manter o projeto original da Análise do Comportamento, o da construção de uma ciência e de uma tecnologia de bases naturalísticas, será sempre necessário fundar o discurso filosófico e teórico-conceitual na produção empírica. Há alguns anos pude acompanhar, numa das nossas listas virtuais, um vigoroso e criativo debate sobre a punição, no qual se ajuntavam elaborados argumentos filosóficos, conceituais, históricos e, sobretudo, ideológicos e nenhum dado empírico, nenhum número. Um bom e culto discurso, bem ao gosto da nossa cultura discursiva e estranha à experimentação, mas nenhuma ciência.

Em que pese ambas serem partes igualmente importantes para o empreendimento científico, existe uma grande diferença entre uma “boa fala sobre a ciência” e uma “boa ciência”. É a minha esperança que nos movamos sempre da primeira para a segunda, embora, se o propósito for produzir um discurso científico e não um discurso filosófico, a segunda é que pode dar consistência a primeira e deveria, portanto, precedê-la e fundamentá-la.

3 – Como o senhor vê a aplicação do que vem sendo produzido na pesquisa básica em Análise do Comportamento hoje, no Brasil? Existe um diálogo satisfatório entre os profissionais da pesquisa básica e da pesquisa aplicada?

Ciências naturais básicas tipicamente geram ciências aplicadas. Por exemplo, a medicina é uma aplicação da biologia e de outras ciências básicas afins, tais como a química, assim como a engenharia é uma aplicação da física, da química, da geologia e de outras ciências básicas afins. Estas aplicações constituem conjuntos articulados e interdependentes de processos tecnológicos desenvolvidos com base nos princípios e relações estabelecidas e validadas nas ciências básicas. O caráter mais ou menos científico que possam requerer dependerá, fundamentalmente, da consistência conceitual e metodológica que esses processos tecnológicos guardarem com a ciência ou ciências-mãe, se assim se pode chamá-las.

Na pesquisa básica, o cientista dispõe controles artificiais para reduzir o fenômeno de interesse às suas características essenciais, a fim de estudar, à luz de um ordenamento teórico, suas particularidades básicas. Assim fez Galileu Galilei (1564-1642) com o plano inclinado, para estudar o movimento e assim fez B. F. Skinner (1904-1990) com sua caixa experimental, para estudar o comportamento. Em princípio, suas conclusões estão circunscritas ao contexto especial na qual as produziu e somente no seu âmbito têm validade máxima.

Por sua vez, o cientista aplicado não pode dispor os mesmos controles e delimitações no seu ambiente de investigação e ação profissional que, tipicamente, é o da ocorrência “natural” do fenômeno, ou seja, o fenômeno em interação plena com todas as variáveis que podem de alguma forma influenciá-lo. O conhecimento que a sua investigação eventualmente produzirá precisará ser útil neste ambiente não-controlado ou então não será de fato útil.

Nem todas as ciências aplicadas beneficiam-se em igual medida da similaridade estrutural e funcional entre o arranjo que se deu ao fenômeno selecionado para a investigação no contexto da pesquisa básica e a ocorrência do mesmo fenômeno num contexto não-controlado. A medicina e a engenharia, por exemplo, beneficiam-se enormemente da relativa invariância dos seus fenômenos de interesse nos contextos básico e aplicado e/ou da natureza paramétrica da maior parte deles.  A Análise do Comportamento, por sua vez, precisa operar num universo muito menos consistente do que o do universo inanimado, de vez que grande parte dos fenômenos do seu interesse tem componentes sócio-verbais e são, no geral, de natureza não-paramétrica.

Mais criticamente na ciência do comportamento e nas aplicações dela derivadas, a questão do nível de mensuração atingido num e noutro contexto (o básico e o aplicado) é de especial importância. O que de fato se pode medir é tempo e espaço, ou seja, os registros do relógio e do metro e mais nada. Raramente essas dimensões físicas estão inequivocamente acessíveis à mensuração do investigador aplicado. 

Dessa forma, os inúmeros problemas que típica e recorrentemente presidem a transposição dos achados da pesquisa básica para a aplicação e as dificuldades históricas e recorrentes de comunicação entre estes dois campos de interesse são ampliados para o estudioso do comportamento e as ligações entre o quadro conceitual mais preciso, nascido da interpretação dos dados obtidos no contexto básico, e a sua aplicação, podem ser bastante tênues. Por vezes, parece que tudo que se pode fazer é sobrepor essa grade conceitual formal ao fenômeno aplicado, inferindo, por analogia (e não por homologia) relações que podem ou não estarem presentes. Nessas condições, têm-se explicações verossímeis, mas não necessariamente verdadeiras.

Reconhecida essa problemática, uma discussão potencialmente mais produtiva a empreender pode ser a delimitação das reais possibilidades de diálogo que estes dois campos de interesse podem ter, tendo como ponto de partida o reconhecimento mútuo dos seus propósitos imediatos diferenciados, dos seus respectivos pontos fortes e pontos fracos e das limitações inerentes aos seus contextos específicos de ação. O fato é que, tomados por si mesmos, dificilmente cada um deles poderia atender, com integridade, à função social e humana mais plena da tarefa científica: o empreendimento de construir um conhecimento confiável sobre o mundo com a finalidade de agir sobre ele, transformando-o. O primeiro, o da pesquisa básica, por correr o risco de aprisionar-se na torre de marfim da contemplação estéril dos seus próprios feitos e o segundo, o aplicado, pelo risco de produzir folclore no lugar de conhecimento, artesanato no lugar de tecnologia e verossimilhança no lugar de verdade.

Seja como for, penso que o pior rumo para o qual possa se encaminhar esse problema é o da cessação do diálogo, por mais difícil e frustrante que ele possa ser. Nesse particular e como investigador aplicado, expresso sem receio a minha convicção da primazia da pesquisa básica, pois, se é fato que raramente, se alguma vez, o fenômeno se apresentará em seu ambiente “natural” com as mesmas características e particularidades com as quais ocorre no ambiente do laboratório, também é fato que ele não desobedecerá, na sua apresentação não-controlada, as leis básicas que regem a sua ocorrência e que foram expostas no laboratório. Assim, entendo que a pesquisa básica, por si mesma, produzirá conhecimento confiável, venha a ser este conhecimento aplicado ou não. Por outro lado, sem se apropriar da, e sem incorporar a produção da pesquisa básica, a aplicação ficará privada daquilo que a fundamenta e lhe dá validade científica; poderá até produzir, acidentalmente, técnicas úteis, mas não uma tecnologia.   

4 – Onde, em sua opinião, a Análise do Comportamento tem mostrado melhores resultados e produção científica? Ela deixa a desejar em algum campo? Se sim, a que acha que isto se deve?

A Análise do Comportamento trouxe à humanidade a extraordinária possibilidade de estudar as ações humanas com os mesmos recursos epistemológicos e metodológicos que, utilizados na química, na física e na biologia (e nas suas aplicações), transformaram o mundo em que vivemos e a maneira pela qual vivemos nele.

[E aqui, entre chaves, faço uma digressão. Transformaram o mundo e a nossa maneira de viver nele, mas não necessariamente – ou não sempre – para melhor, pois “melhor” é um conceito moral, de aplicação política, e sobre a moral e a política a ciência natural, qua ciência natural, não tem como se pronunciar. A ciência natural desenvolve-se como um dos artefatos culturais criados pela humanidade e se mantém, certamente, pelos reforços que tem produzido. O uso que dela se faz e se fará é um problema para a moral e para a política. Neste particular, pode-se estudar a moral e a política, como comportamentos humanos que são, à luz da Análise do Comportamento. No entanto, assim como o conhecimento das particularidades da gravitação não assegura ao cientista que os domina a capacidade de levitar, provavelmente um conhecimento científico naturalístico da moral e da política, ou, mais amplamente, das ações humanas, não assegurará aos seus detentores qualquer superioridade moral e nem lhes garantirá a prática de uma política de qualidade ética superior. A vida humana é por demais rica, plástica e complexa, tudo indica, para ser contida e explicada num subrepertório verbal único. Ainda assim, a ciência natural e a tecnologia dela derivada pode ajudar, e muito, na construção de um mundo melhor. É formidável dispor de antibióticos para as infecções, vacinas para a poliomielite, manejo auto-sustentável das florestas, pontes que não caem, óculos para os dele necessitados, previsão do tempo para a agricultura e a navegação, luz elétrica e água quente encanada, telefones, internet e i-pods, anestesia cirúrgica e chocolate suíço. É igualmente formidável, convenhamos, a possibilidade de se instalar um repertório socialmente desejável através do reforçamento positivo; manejar comportamentos socialmente indesejáveis através da extinção e da oferta de equivalentes funcionais ao invés da punição; aliviar o sofrimento de uma depressão através da ativação comportamental, sentir-se no comando da própria vida desenvolvendo um repertório de autocontrole e amar dispondo, deliberadamente, contingências mútuas positivamente reforçadoras e inclusivas.]

Expondo as reais variáveis das quais a ação humana é função, a Análise do Comportamento ofereceu à humanidade a primeira possibilidade consistente de sermos, cada um de nós, sujeitos da nossa própria história, através da disposição judiciosa, por nós mesmo, das contingências que nos afetam e nos afetarão.

O modelo desenvolvido por nossos pioneiros oferece três sólidas unidades de análise – o respondente (S-R), o operante (R-Sr) e o operante discriminado (S-R-Sr), que se definem não em termos lógicos ou estruturais, mas em termos do seu relacionamento funcional e, mais importante ainda, são cada uma delas uma descrição de relações entre eventos naturais, entre partes do mundo físico.  Abriu-se, assim, a possibilidade de se atingir um alto nível de mensuração no estudo dos fenômenos psicológicos e, portanto, uma possibilidade real de uma ciência natural das ações humanas. Segue-se, dessa perspectiva, que os resultados de maior potencial produtivo são aqueles que melhor se prestam à verificação empírica e os em que deixam a desejar são aqueles para os quais ainda é difícil obter fundamentação empírica suficiente.

5 – O que acha da existência de diferentes nomes e modelos de Terapia Comportamental existentes hoje?

Não se pode, é claro, impedir ou controlar o uso da palavra “comportamental”, que é uma palavra do léxico português de livre uso por qualquer falante e as práticas verbais de uma dada comunidade, sujeitas às contingências de reforçamento que ela dispõe, não influenciam por necessidade práticas verbais de outra comunidade. O que se pode fazer é, numa comunidade verbal específica, dispor contingências estritamente definidas para o uso de alguns nomes, isto é, contingências que reduzam o número de respostas elegíveis para reforçamento. Porém, mesmo dentro de uma comunidade verbal razoavelmente delimitada, como a analítico-comportamental, por exemplo, variações nas práticas e nas descrições ocorrerão e, até que as especificidades dessas variações sejam recusadas ou se diferenciem notavelmente das práticas e declarações originais, elas provavelmente manterão, com propriedade, o nome comum.

Uma prática comum nas comunidades verbais para aumentar o controle discriminativo de um nome é adicionar mais e mais adjetivos a um substantivo que se deseja manter e que, por suas variações, perdeu, por assim dizer, sua substância. Esse recurso pode ser usado continuadamente, havendo mesmo propostas terapêuticas que adicionam quatro ou mais adjetivos ao substantivo “terapia”.

Dar nomes às coisas ou processos é um operante verbal e, como todos os operantes verbais, responde a múltiplas determinações. Por essa plasticidade, um dos mais poderosos e refinados instrumentos de controle do comportamento humano já desenvolvido pela humanidade é a manipulação do comportamento verbal, o que se vê de maneira especial na retórica e na nomeação.

Em parte, o termo “comportamental” tateia, de fato, um espectro amplo de práticas e declarações que indicam ter mesmo particularidades comuns de concepção ou de procedimentos e, nesses casos, não se poderia recusar a propriedade do uso do termo.

Em alguns casos, o qualificador “comportamental” parece ficar sob controle da concepção teórica ou de parte dela, que aceita o comportamento, por si mesmo, como objeto válido para a intervenção clínica, mas que considera também outras determinações, muitas vezes determinações conceituais ou ficcionais, operando concomitantemente. Além de alguns modelos híbridos, esse é também o caso dos modelos ditos mediacionais.

Noutros casos, fica-se sob a impressão de que o termo “comportamental” estaria sob controle de parte das práticas ou procedimentos interventivos utilizados, que foram originalmente desenvolvidos com fundamentação teórica analítico-comportamental, mas que foram apropriados por sua utilidade imediata, despidos da sua fundamentação teórica de origem ou submetidos à outra fundamentação.

Noutros ainda, estes já de elaboração mais individual e compondo aquilo que em filosofia de ciência se chama “ciência pessoal”, o termo comportamental indica ser utilizado porque, em retrospectiva, alguma teorização ou prática que já era intuitivamente utilizada naquela aplicação veio a ser, posteriormente, demonstrada ou teorizada com mais consistência pela Análise do Comportamento.

Existem também casos nos quais se fica sob a impressão de que o qualificador “comportamental” foi acrescentado a este ou aquele substantivo sob controle de variáveis bem mais prosaicas, como, por exemplo, um interesse de mercado, para diferenciar um “produto” que se pretende comercializar em troca de pecúnia ou prestígio, ou na busca de acrescentar reconhecimento social ao “produto”; uma singela vaidade pessoal, como para ser o “criador” desta ou daquela nova terapia; um uso inconseqüente ou ingênuo da palavra ou, ainda, uma definição da palavra “comportamental” diferente daquela que utilizamos.

Seja como for, há inconvenientes na multiplicação de nomes quando estes ficam sob controle total ou parcial de variáveis estranhas aos aspectos públicos da condição estimuladora ou quando a comunidade verbal dispõe contingências vagamente definidas para o seu uso. Nesse caso, o “nome”, na função de estímulo discriminativo, perde sua precisão de orientar o responder e o resultado é ambigüidade de controle. Coloquialmente, o resultado é confusão.

Neste mar de nomes, talvez o que se possa fazer de melhor é especificar qual “comportamental” é o “comportamental” que se deseja dispor como controle. Eu, por exemplo, descobri recentemente que ainda permaneço, orgulhosamente, como um estudioso e praticante da Terapia Analítico-Comportamental de primeira geração – vejam só que antigüidade! – entendendo como tal aquela que insiste em considerar como categorias de análise somente as relações expostas no laboratório operante, ou seja, as da contingência de três termos, e que insiste em examinar somente os processos básicos (reforçamento, discriminação e generalização) para compreender o fenômeno clínico. E que, além disso, adere ou se esforça por aderir às dimensões propostas por Donald Baer, Montrose Wolf e Todd Risley já no primeiro número do JABA. Aproximei-me das novidades, das assim chamadas “novas gerações” de terapia consideradas comportamentais (e continuo me aproximando), mas até o ponto em que me aproximei, ainda não fiquei convencido. Tenho para mim que, até a presente data, o único modelo explicativo produzido pela psicologia que pode permitir a mensuração dos fenômenos psicológicos é o oferecido pela Análise do Comportamento e, sem a possibilidade de mensuração, ainda que potencial, não se pode fazer ciência.  Sem se constituir numa prática científica, a terapia psicológica permanecerá na fase artesanal em que se encontra: bons artesãos – bons terapeutas – acumularão um portfólio no qual predominarão sucessos, mas apresentarão também alguns fracassos, e artesões menos hábeis acumularão fracassos, mas terão tido também alguns sucessos. Ambos não saberão com precisão o porquê e a comunidade de referência somente com muita dificuldade poderá ajudá-los.

A palavra “mensuração”, quando aplicada à clínica, costuma provocar arrepios. Há aqueles que singelamente recusam – por escolha teórica, por ideologia ou por posição filosófica – a comensurabilidade do fenômeno clínico em quaisquer dos seus aspectos e, assim, inevitavelmente prendem a atividade clínica psicológica no terreno do artesanato. Algumas vezes a impressão que se tem é que, para esta visão-de-mundo nas suas formas mais extremadas, o ato de medir tivesse o poder de alterar a natureza daquilo que é medido, tornando-o menos do que é ou diferente do que é. Seria como se, por exemplo, medir a quantidade de açúcar que se põe num alimento pudesse alterar por alguma forma a natureza da doçura enquanto experiência do mundo ou o tornasse o açúcar menos doce ou, ainda, tivesse o poder de transformar o açúcar em alguma outra coisa.

Evidentemente, medir um fenômeno não é esgotar as possibilidades de conhecê-lo nos números que se obtém; medir um fenômeno é uma forma de obter um tipo de conhecimento sobre ele, que permite alguns tipos de ação que não são possíveis sem medidas. Este tipo de conhecimento é parte necessária daquilo que se chama ciência e, ainda que sem números se possa fazer boa filosofia e boa arte, dificilmente se poderia fazer boa ciência. Defendo que esta condenação da prática clínica psicológica ao limbo científico das práticas filosóficas ou artesanais, se assim se pode dizer, não é necessária para que se preservem intactos aspectos mais sutis da rica interação humana cliente-terapeuta (produções e interações sócio-verbais e seus concomitantes emocionais) e do patrimônio representado pela experiência clínica do terapeuta, que constituem, sim, componentes essenciais da tarefa clínica; podem-se mantê-los e até mesmo enriquecê-los logrando, ao mesmo tempo, avançar na direção da construção de uma prática cientifica da clínica.

 6 – Existe atualmente um movimento dos Analistas do Comportamento no sentido de separarem a abordagem da Psicologia? Se sim, e isto de fato acontecesse, quais poderiam ser as conseqüências para a abordagem?

Se a pergunta for reformulada assim: “Existem atualmente contingências em ação que controlem respostas dos Analistas do Comportamento no sentido de separarem a abordagem da Psicologia?” minha resposta é um definitivo sim. Há um bom tempo. Aqui, no Brasil, e no exterior.

Periodicamente, o tema ganha relevância na nossa comunidade, quase sempre na informalidade das discussões virtuais. A discussão ganha calor e, anticlimaticamente, desaparece, para logo depois voltar. Essas contingências tem sido o suficientemente complexas para selecionar respostas antagônicas e o suficientemente poderosas para eliciar fortes respondentes nas discussões. Como analistas do comportamento, sabemos que se um tema é discutido recorrentemente, então é porque as contingências que o governam mantêm-se atuantes. Ignorá-las não as fará desaparecer.

Na prática, essa separação já se dá. Enquanto grupo, nosso contato com o establishment da psicologia, digamos assim, tem sido tipicamente formal e político-institucional. Mantemos nossos próprios encontros (Monoglotas, como devem ser, defendo) e programas de formação pós-graduada, editamos e lemos nossos próprios livros, nossa participação nos fóruns oficiais da psicologia é reduzida e as nossas pesquisas em pouco ou em nada afetam a psicologia mentalista e vice-versa.

Por outro lado, os problemas políticos e institucionais de uma separação formal não se afiguram pequenos. Haveria o problema legal de regulamentar uma nova profissão, o que precisaria ser conduzido através do Congresso Nacional. Haveria o problema da montagem e aprovação de cursos superiores específicos, programas de pós-graduação e linhas de financiamento para nossas pesquisas, para não falar no problema mercadológico de conseguir um número suficiente de interessados para manter tudo isso. Haveria também o problema da construção e disseminação da nova imagem profissional junto à população acadêmica e a população leiga. Em suma, haveria todos os problemas relacionados à construção de uma nova rede de relações políticas, institucionais, burocráticas, acadêmicas, científicas e sócio-culturais.

Permanecendo psicólogos, todos esses problemas estão já historicamente equacionados, ainda que ao preço de nos constituirmos como uma espécie de enclave monista dentro da psicologia dualista. Algo como falar o basco sem grandes interesses em compreender o árabe, mas morar e viver num país que fala o árabe e não tem grandes interesses em compreender o basco. Essa situação, por sua vez, manterá ativas as propriedades da contingência que controlam o anseio por um caminho próprio para a Análise do Comportamento.

Assim, penso que, por todas essas diferenças e incompatibilidades, a separação formal provavelmente ocorrerá, mais cedo ou mais tarde. Em alguns estados norte-americanos, temos a informação de esta separação já existe como fato legal.

Uma saída potencialmente factível para esse impasse parece-me ser a representada pela proposta da “behaviologia” ou “behaviorologia” (espero que, um dia, alguém descubra uma palavra melhor do que essas duas), que circulou e circula em alguns grupos de analistas do comportamento norte-americanos. Em poucas palavras, a “behaviologia” é nada mais, nada menos, do que a proposição da constituição de um novo campo disciplinar, uma nova ciência, que integraria numa só comunidade verbal o estudo do grupo de fenômenos atualmente estudados separadamente pela Análise do Comportamento, pelas Neurociências, enquanto investigação do sistema nervoso real e não do sistema nervoso conceitual, e pelos Etólogos clássicos, campos de investigação que já compartilham notáveis semelhanças quanto aos supostos pré-analíticos, quanto à metodologia investigativa e quanto aos critérios de validação do conhecimento. Nessa hipótese, a separação se daria, mas com muito, muito mais substância do que através de uma separação meramente política.

A idéia é instigante e, embora se possa antecipar um longo tempo para a consolidação de uma empreitada como essa, pode valer à pena lançar, desde já, as cabeças de ponte, que mais não seja do que para não matar no nascedouro uma idéia promissora. Esta é uma possibilidade e uma tarefa para os jovens. Vi que alguns dos meus alunos do estágio em Análise do Comportamento que oferecia na graduação, circulavam muito bem e com conforto entre estágios na Análise do Comportamento, na Neurociência e na Etologia. Falavam-me, todos eles, entusiasmados, da complementaridade que julgavam haver nessas diversas experiências. Como professor, observava informalmente o que me parecia uma evolução favorável no repertório científico desses alunos. Quem sabe algum dos jovens leitores dessa entrevista se interesse e procure colegas naquelas outras áreas com a finalidade de desenvolver projetos de pesquisa em comum, idealmente sob a orientação conjunta e dialogada dos seus professores?

7 – Poderia deixar algumas dicas ou conselhos aos terapeutas Analítico-Comportamentais iniciantes?

O que se pede aqui é que se ofereçam algumas regras. Este é, seguramente, o pedido mais difícil e delicado dessa entrevista. Aí vai a primeira: “Sempre me ofereça o julgamento de mentes equilibradas, de preferência a leis. Códigos e manuais criam comportamento padronizado. Todo comportamento padronizado tende a prosseguir sem questionamento, acumulando força inercial destrutiva.” (Frank P. Herbert, 1920-1986).

Para as que se seguem, peço ao leitor que mantenha presente a primeira e que possa discernir o momento de desconsiderá-las, incluindo, é claro, o momento de desconsiderar a primeira.

Alexander Pope (1688 – 1744) produziu uma importante regra sobre a aquisição de conhecimento que, numa tradução livre, pode ser redigida assim: “Um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa; beba profundamente, ou nem mesmo prove (…)” [A little learning is a dangerous thing; drink deep, or taste not (…)]. A marca distintiva da ciência natural é que ela produz efeitos reais acentuados no mundo real e é por demais perigoso “ter uma boa idéia” de como operar uma central nuclear ou saber pilotar um avião “mais ou menos”. A Análise do Comportamento obedece às regras do jogo da ciência natural nas suas investigações e conclusões. Assim, dela beba profundamente ou nem mesmo prove.

David Hume (1711-1776) escreveu:

“Se tomarmos entre as mãos um livro qualquer… perguntemos: contém ele algum raciocínio abstrato a respeito de quantidade ou número? Não. Contém ele algum raciocínio experimental a respeito da natureza e existência de fato? Não. Então, lancemo-lo ao fogo, porque não poderá conter senão sofisma e ilusão!”.

No que diz respeito à ciência, sou uma pessoa de imaginação limitada: se algo me é dito e se me pedem que acredite naquilo sem a confirmação dos meus sentidos, não consigo crer.

Finalmente, como um destilado da minha experiência, não se apaixone por uma teoria (ou uma filosofia, ou uma ideologia). Essas abstrações são péssimas amantes. Guarde suas paixões para pessoas.

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5 COMENTÁRIOS

  1. Ma-ra-vi-lho-so!

    Continue com as entrevistas, Neto, elas têm sido muito motivadoras!

    Muito obrigada, à você e todos aqueles que cederam tão gentilmente as entrevistas, para que outras pessoas tivesse acesso.

  2. Perfeito Neto!!!
    Olha, acho que todos os analistas poderiam ter essa entrevista como critério para o (Behavior Analysis Certification Board – http://www.bacb.com/)… e que saia esse teste por aqui… por favor!!!!!!

    Parabéns Roosevelt!!! Como sempre, um modelo de analista para nós.

    Natalie Brito (Teresina- Piauí)

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