quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Depressão infantil


Quando se fala em depressão, logo se faz referência a comportamentos que, na maioria das vezes, estão relacionados à idade adulta. Porém, mesmo que não se possa acreditar, as preocupações e tristezas infantis podem não ser passageiras. Segundo um guia do National Institute for Health and Care Excellence (NICE), do Reino Unido, já são mais de 80 mil crianças da região diagnosticadas anualmente, 8 mil delas menores de 10 anos. Além disso, em maio de 2014, a Organização Mundial da Saúde, revelou que a depressão infantil é a principal causa da incapacidade de realização de tarefas entre jovens de 10 a 19 anos. Estima-se que, no Brasil, a incidência do distúrbio varia de 1 a 3% da população entre 0 a 17 anos. Outros dados definem que 2% atingem as crianças e 5% os adolescentes. Provavelmente, muitas crianças nem chegaram a ser diagnosticas para entrar nas estatísticas.

É importante abordarmos as possíveis contingências envolvidas em casos de depressão infantil. Como explicar, então, o Distúrbio Depressivo na infância na perspectiva da Análise do Comportamento?

Antes de qualquer coisa, é preciso identificar os sintomas mais frequentes que, para serem considerados sintomas de um Transtorno Depressivo devem estar aparecendo ao longo de duas semanas ou mais sendo que um dos sintomas deve ser o humor deprimido ou falta de interesse pelas atividades diárias (Cruvinel, 2003).

Em crianças de até 6 anos, aparecem queixas somáticas repetitivas de dores (abdomem, cabeça), queixas de fadiga, tontura, irritabilidade, diminuição do apetite e alterações do sono. É importante se atentar aos sintomas nas brincadeiras, uma vez que estas são, comumente, prazerosas. Nas crianças de 7 a 12 anos, já se pode observar a presença de verbalizações de humor deprimido (“não sou capaz de fazer isso”, “ninguém gosta de mim”, “sou burro, chato”), irritabilidade, cansaço, apatia, choro frequente, isolamento, queda de desempenho escolar e dificuldades sociais.

A Análise do Comportamento não explica tais comportamentos baseados em um único fator, pois para esta abordagem da Psicologia, a maioria dos comportamentos é aprendida e multideterminada, ou seja, são considerados os fatores genéticos, a história de vida e a cultura em que a criança está inserida. O fator genético pode aumentar a probabilidade de uma criança apresentar comportamentos depressivos, porém, como um comportamento específico recebe influência de variáveis que estão ou estiveram presentes na vida da criança e, também, da cultura, da sociedade e da família em que estiver inserida, tais comportamentos tendem a ser mantidos ou não (Lima, 2012).

A análise comportamental infantil procura ficar sob controle dos aspectos comportamentais e, portanto, à história de vida e às contingências ambientais (Regra, 1997). Faz-se necessário, acima de tudo, identificar as variáveis antecedentes e consequentes dos comportamentos depressivos. Todavia, na maioria dos casos o que se pode encontrar é um aumento na emissão de respostas com função de fuga/esquiva, ou seja, a criança tende a evitar situações consideradas aversivas. Por exemplo, se uma criança estiver passando por dificuldades escolares, sejam estas acadêmicas ou sociais, pode passar a apresentar respostas que evitem a ida à escola. Além disso, pode-se encontrar em crianças depressivas, uma diminuição de respostas que produziriam reforçamento positivo. Neste caso, a criança deixa de fazer algumas tarefas/atividades que, normalmente, seriam prazerosas para ela. Como, por exemplo, brincar com os amigos.

Existem algumas situações que favorecem o surgimento dos comportamentos depressivos e, portanto, das respostas mencionadas acima: pais, responsáveis ou educadores com práticas punitivas (verbais ou físicas), histórico de perdas de pessoas importantes (morte ou separação), negligência (abandono infantil) e mudança abrupta de rotina (Lima, 2012). Além dessas, podemos citar as dificuldades escolares, nascimento de irmãos e brigas no ambiente familiar.

Como os sintomas depressivos na infância parecem apresentar inúmeros fatores determinantes, o Terapeuta Analítico Comportamental precisa analisar funcionalmente os comportamentos de cada caso. Para que a probabilidade de sucesso do processo de terapia aumente, é de extrema importância a orientação dos pais, responsáveis e educadores enfatizando o desenvolvimento de repertórios comportamentais que levem à autonomia da criança, pois se a dependência for valorizada (super proteção) desenvolvem-se repertórios inadequados na resolução de problemas, baixa resistência à frustração e às situações aversivas (Lima, 2012).

O Analista do Comportamento precisa, portanto, ficar atento aos comportamentos das crianças que chegam ao consultório caracterizados como depressivos. Em alguns casos, faz-se necessário o encaminhamento ao Psiquiatra Infantil e, em todos os casos, a orientação dos pais e/ou responsáveis e, também, dos educadores. E, mais importante do que isso, é importante deixar claro que os pais são os responsáveis por identificar os “sintomas” da criança, que possui repertório verbal e autoconhecimento limitado para discriminar seus próprios comportamentos. Portanto, é responsabilidade dos mesmos encaminhar as crianças ao profissional – o Psicólogo.





Referências:

- Cruvinel, M. (2003). Como identificar a depressão infantil? Disponível em <http://noticias.universia.com.br/ciencia-tecnologia/noticia/2003/09/08/547975/como-identificar-depresso-infantil.html> Acesso em: 18 de novembro de 2014.

- Laboratório DNA Center (2014). Depressão Infantil: ela existe e está aumentando em todo o mundo. Disponível em <http://dnacenter.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=661:depressao-infantil-ela-existe-e-esta-aumentando-em-todo-o-mundo&catid=8:noticias&Itemid=132> Acesso em: 15 de dezembro de 2014.

- Lima, J.B. (2012). Depressão Infantil: Brincadeiras em branco e preto. Disponível em: < http://www.inpaonline.com.br/depressao-infantil-brincadeiras-branco-preto> Acesso em: 18 de novembro de 2014 - Regra, J. (1997). Depressão infantil: aspectos teóricos e atuação clínica. In Delitti, M. (Org.). (1997). Sobre comportamento e cognição: Vol. 2. A prática da análise do comportamento e da terapia cognitivo-comportamental. São Paulo: Arbytes.
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