segunda-feira, 28 de julho de 2014

Terapia de Casal: Desafios frente às novas contingências da vida a dois.


A terapia de casal é um dos ramos de atuação mais desenvolvidos nas últimas décadas e observa-se que a incidência de procura na clínica vem aumentando cada vez mais. Para desenvolver um trabalho nessa área é importante entender que cada casal é singular, tem sua história própria de relacionamento e, portanto, sua psicoterapia irá requerer intervenções especificas às suas demandas.
 
 

E por que terapia de casal? Porque as pessoas têm histórias de vida diferentes e algumas variáveis irão determinar o comportamento de cada parceiro como sexo, família, profissão, religião, posição política e objetivos de vida. A história é comum: duas pessoas diferentes decidem viver juntas e surgem as frases como "até que a morte os separe" e “para o bem e para o mal”: as mudanças no decorrer desse período não são consideradas e falta a definição da topografia dos comportamentos adequados para viver bem ou mal, ou seja, não há operacionalização desses conceitos.
 
Para atender casais existem algumas habilidades necessárias para tornar esse modelo efetivo. O primeiro é ficar atento a cada parceiro na sua individualidade e como membro da díade. O segundo é ficar atenta à interação entre o casal e a interação com o terapeuta. Além disso, é necessário enxergar além do comportamento verbal expresso por cada um na sessão e buscar a correspondência entre o falar e o fazer do casal e a depender da natureza e do conteúdo dos relatos dos parceiros, encontrar na sessão, interações que exemplifiquem a coerência ou a discrepância entre o que fazem e o que dizem.
 
Vamos imaginar que, durante a sessão de um casal, a esposa verbalize que seu marido altera o tom de voz todas as vezes que ela se queixa de alguma coisa em casa. Ele, por sua vez, diz que esse relato não é verdade e que ele é muito bom ouvinte. Entretanto, durante as sessões, é observado que todas as vezes nas quais a esposa se posiciona, contrariando o marido, o tom de voz dele se altera. Assim, o relato da esposa é pertinente e isso pode ser trabalhado na sessão do casal. 
 
Temas específicos e situações novas também podem surgir e o terapeuta que se instrumentaliza para atender casais deve estar preparado para lidar com elas. Para isso, deve conhecer claramente seus próprios posicionamentos pessoais e literatura técnica pertinente a essas demandas. Muitas delas são determinadas pelas práticas culturais que permeiam as relações afetivas na nossa comunidade verbal e estão definindo algumas contingências que compõem nossa prática clínica. 
 
A primeira contingência é: ter filhos ou não? Muitos casais procuram atendimento com esse dilema. O parceiro ou a parceira não quer. Ter filho é interpretado como uma ameaça à dinâmica estabelecida desde o início do casamento. Independentemente de um ou outro estarem resistentes à ideia, essa condição traz extremo sofrimento para relação. Até porque algumas regras disseminadas na cultura são “para ser um casal completo só faltam os filhos”, “o homem nasce, cresce, casa, tem filho, se reproduz e morre” e “casar e constituir família é um objetivo de todo ser humano”. Esses relacionamentos podem estar ligados a modelos e a regras imprecisas que talvez tenham permeado a aprendizagem acerca de relacionamentos (Carvalho & Medeiros, 2005).
 

Outra contingência nova observada nos consultórios de quem realiza atendimento de casal é a mulher como provedora e o homem “dono de casa”. As mudanças de papéis aparecem como consequências das novas realidades sociais, econômicas e culturais no mundo atual. Essa nova configuração faz surgir uma necessidade constante de entendimento e consenso. Vandenberghe (2006) afirma que:
“O fim da segregação de papéis tradicionais tornou imperativa, para os cônjuges, a negociação aberta de suas próprias soluções para as tarefas da vida. (…) Para viver em casal, os parceiros precisam agora, mais do que antes, de habilidades de comunicação e de solução de problemas.” (Vandenberghe, 2006, p.146)


Desse modo, entender a funcionalidade desse arranjo na relação, e as consequências com que o casal entra em contato por ser como é, tem muito valor para a terapia. Nos casos em que queixas como essas são colocadas, uma intervenção analítico-comportamental tenderia a melhorar o repertório afetivo do casal. O autoconhecimento adquirido nas sessões ajuda os pares a entender suas características, mesmo que essas sejam diferentes das normativas. Assim, podem melhorar sua qualidade de vida conjugal.

Por último, a mais nova contingência que os casais têm relatado com frequência em terapia trata-se da influência da tecnologia na intimidade e no dia-a-dia do casal. De pronto, já ressalto um aspecto determinante que reforça esses comportamentos: o acesso facilitado aos equipamentos e ao conteúdo, criando cada vez mais ocasião para essas respostas, ou seja, a disponibilidade do reforço a qualquer momento do dia, sendo necessário apenas um celular em mãos para usufruir de muitos recursos e aplicativos. Inclusive entre os casais, justamente pela facilidade de acesso, tem sido comum o desconforto por saber que existem contatos constantes de seus pares a conteúdos eróticos, mas esse aspecto, em especial, será melhor explicitado em um momento mais oportuno.

 
A disponibilidade da tecnologia serve, também, como estímulo concorrente às contingências que produzem divergências ou ócio na interação do casal. Um casal sem muito assunto ou em conflito, por exemplo, pode esquivar-se de desconfortos utilizando seus aparelhos tecnológicos. Se durante um jantar há uma contingência aversiva (falta de intimidade, aborrecimento, etc.), pode ser que o(a) cônjuge procure esquivar-se utilizando o aparelho para acessar fontes de reforçamento positivo – e se o reforço estiver disponível, terá efeito imediato sobre esse comportamento, mantendo-o e/ou aumentando sua frequência.

Outras análises que podemos considerar para entender a influência do uso das tecnologias é o repertório reduzido de comunicação entre os pares. Muitas vezes, escutamos de casais em crise que eles estão se comunicando apenas por um aplicativo de mensagem. Se o casal já tem um repertório de comunicação empobrecido, vai ficando cada vez menos hábil em estabelecer a conversa “olho no olho”, ampliando os déficits comportamentais já existentes na relação e que, por sua vez, são mantidos pelo uso contínuo e exagerado desses recursos. 


Entretanto, ao enviar uma mensagem para o parceiro(a) solicitando algo ou reclamando de alguma situação, deixa-se de perceber como ele(a) irá reagir, ampliando a possibilidade de distorções, já que o comportamento não verbal não está visível ao outro e o verbal emitido não é favorecido por autoclíticos, por exemplo. Além disso, na mensagem é permitido fazer edições, e caso mandar a mensagem tenha sido consequenciado por uma resposta positiva “sim”, “desculpa”, a probabilidade de que o artifício seja novamente utilizado torna-se alta. E se a resposta for negativa? É bem provável que ocorra a emissão de repertório de contracontrole inadequado e punitivo, prejudicial à relação.

Nessa terceira demanda, é importante esclarecer que o problema é o excesso. O uso da tecnologia é cada vez mais frequente a depender dessas e de outras variáveis envolvidas, mas é necessário definir estratégias de intervenção quando sua frequência e intensidade deixam de ser salutar à vida do casal. Especialmente quando as fontes virtuais de reforçamento superarem demasiadamente as fontes presenciais de reforçamento. 

Em geral, no que se refere às três queixas citadas, o mais importante é entender que devemos investigar nas sessões as variáveis que determinam cada uma delas. Assim, é válido analisar as famílias de origem, seus modelos, repertórios aprendidos e regras. Vamos imaginar, por exemplo, uma filha criada em uma família católica ortodoxa, em que o sonho de sua mãe era ser avó e isso foi dito centenas de vezes. Nesse contexto, casar é esperado e, ver a filha grávida, mais ainda. Se essa filha estabelecer uma relação na qual o principal reforçador for ter filho, caso seu marido não deseje ser pai, isso será um problema grave. Por isso, conhecer o contexto social desse casal, em que muitos desses padrões podem estar apoiados no ambiente, é fundamental para intervenções no consultório, pois a forma com que os cônjuges lidam com estas incompatibilidades cotidianas ao longo do tempo conduz ao sofrimento e a tarefa do terapeuta e entender como estas incompatibilidades se desenvolvem, suas conseqüências e como o casal lida com elas.

 
Referências Bibliográficas

Albuquerque, L. C. (2001). Definições de regras. Em H. J. Guilhardi (Org). Sobre Comportamento e Cognição, Vol. 7. pp. 132-140. Santo André, SP. ESETec.

Carvalho, M. C. G. B. & Medeiros, C. A. (2005). Determinantes do seguimento da Regra: “antes mal acompanhado do que só”. Universitas: Ciências da Saúde, 3, 47-64. 

Castanheira, S. S. (2002). Intervenção comportamental na clínica. Em Teixeira et al. Ciência do Comportamento – Conhecer e Avançar, Vol. 1. pp. 88-95. Santo André, SP. ESETec.

Delitti, M. (1997). Análise Funcional: o comportamento do cliente como foco da análise funcional. Em M. DELITTI (Org). Sobre Comportamento e Cognição, Vol. 2. pp. 37-44. Santo André, SP. ARBytes.

Medeiros, C.A. (2002). Comportamento verbal na Terapia Analítico Comportamental. Em Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. 4( 2), 105-118.

Skinner, B. F. (1953/1998). Ciência e comportamento humano. São Paulo: Martins Fontes.
 
Vanderberghe, L. (2006). Terapia Comportamental de casal: Uma retrospectiva da literatura internacional. Em Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva. 8 (2), 145-160.
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