sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Fobia social e habilidades sociais

O famoso filme “O Discurso do Rei”, trata da história de um rei (George) da Inglaterra que foi obrigado a assumir o trono porque o seu irmão mais velho abdicara o trono. George era gago e apresentava extrema dificuldade para falar em público; todas as vezes que precisava realizar um discurso, o sofrimento dele era muito grande de modo que chegava a emudecer por completo. George sofria do que o DSM - 5 classifica como fobia social. 
Segundo o DSM 5 (APA, 2014), a fobia Social (FS) ou Transtorno de Ansiedade Social (TAS) é caracterizado essencialmente por um medo ou ansiedade acentuados ou intensos de situações sociais nas quais o indivíduo pode ser avaliado pelos outros. Este indivíduo teme que no momento da atuação as pessoas observem a sua ansiedade e seu medo, e o avaliem de uma forma negativa e isso faz com que as situações sociais e de desempenho sejam percebidas como acentuadamente mais difíceis e perturbadoras do que realmente são. As situações sociais são evitadas e quando essas pessoas necessitam se expor, fazem com um grande sofrimento. O comportamento fóbico-evitativo determina um grave prejuízo no funcionamento desta pessoa, seja no trabalho, na escola ou nas relações sociais. 
A fobia social pode ser dividida em um subtipo generalizada em que os temores estão relacionados à maioria das situações sociais e em um subtipo circunscrita ou restrita que é o medo de uma situação pública de desempenho ou de alguma situação de interação social. No filme, o Rei George sofria de fobia social circunscrita, pois seu maior temor era ficar frente a um público. 
O analista do comportamento vai realizar a análise funcional, pois ela permite que o clínico identifique a função de um determinado comportamento e determine a intervenção apropriada para modificar as relações comportamentais envolvidas na queixa. 
Borges et al. (2011) descrevem que o primeiro elemento a ser identificado em uma análise funcional diz respeito às respostas envolvidas na queixa do cliente. Nessa primeira etapa o clínico ainda não está buscando os determinantes do comportamento-alvo, mas apenas descrevendo o que ocorre e como ocorre. Em geral, os problemas relativos a essa parte da contingência são excessos comportamentais ou déficits comportamentais (falta da habilidade social em caso de fobia social, por exemplo). Em seguida, com base no relato verbal do cliente ou comportamentos observados na interação terapêutica, o terapeuta deve levantar hipóteses sobre quais processos comportamentais estão envolvidos nas respostas-alvo que compõe a queixa, que podem ser referentes a condições consequentes e antecedentes. 
Uma análise funcional de um caso de fobia social inclui: Comportamentos – pessoa não apresenta comportamentos esperados de contato social, tem dificuldades de assertividade, é hipersensível a críticas e avaliações, foge e se esquiva de situações sociais. Seus sentimentos e pensamentos são entendidos como comportamentos e não causa de comportamentos. Antecedentes – ser apresentado a outras pessoas, ser criticado, ser observado, falar em público são circunstâncias usuais para o aparecimento de um ou mais dos comportamentos. Consequentes – fuga ou esquiva da situação social ou de desempenho são as principais consequências (Silvares & Meyer, 2000). No caso de George, a gagueira o levava a se esquivar de situações em que precisava se expressar verbalmente. Sentia-se mal ao ser observado pela multidão que o esperava discursar. Naquela época, e ainda hoje, falar em público é uma habilidade muito valorizada. 
Clientes com fobia social se beneficiam de técnicas como treino de habilidades sociais. 
Caballo (2003) afirma que os comportamentos socialmente habilidosos são aqueles que quando emitidos por uma pessoa num contexto interpessoal, envolvendo expressão de sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos, são feitos de modo adequado e com respeito aos demais. Estes comportamentos solucionam problemas imediatos e previnem problemas futuros. Além disso, muitos dos problemas pessoais podem ser consequências de dificuldades em habilidades sociais, as quais são um elo entre o indivíduo e as pessoas que o cercam. Mas se este elo for disfuncional pode não gerar consequências boas o suficiente, sendo incapaz de proporcionar qualidade de vida para o indivíduo.
Portanto as habilidades sociais são diferentes classes de comportamentos sociais no repertório do indivíduo para lidar de maneira adequada com as demandas das situações interpessoais. E considera-se que os déficits de habilidades sociais dificultam o funcionamento social da pessoa e sua capacidade adaptativa (Del Prette & Del Prette, 2001). 
As habilidades sociais são divididas em duas categorias, visando principalmente a avaliação dos comportamentos. A primeira categoria é a de habilidade geral, isto é, como fazer e aceitar elogios, fazer pedidos, expressar agrado e desagrado, iniciar conversações, defender os próprios direitos, recusar pedidos, desculpar-se, entre outros. A segunda categoria é caracterizada por elementos constituintes da primeira, como por exemplo, o contato visual, gestos, volume de voz e postura (Caballo, 2003).
Em resumo, este conceito abrange tanto os aspectos descritivos dos comportamentos verbais e não verbais apresentados pelo indivíduo diante das diferentes demandas das situações interpessoais.
Rangé et. al. (2008) apontam que vários estudos associam o déficit em habilidades sociais a transtornos psiquiátricos, sendo a fobia social o transtorno mais comumente associado. Isto se deve ao fato de os fóbicos sociais apresentarem dificuldades relacionadas às interações sociais e, portanto, não possuírem um repertório adequado nesta área. 
Em decorrência disso, uma proposta de tratamento para as pessoas com Fobia Social é o Treinamento em Habilidades Sociais. As habilidades trabalhadas durante o treinamento são: iniciar conversas e contatos interpessoais; cumprimentar; apresentar-se frente a pessoas desconhecidas; fazer e responder a convites; pedir e prestar ajuda; entrar em um grupo e pedir para ser incluído; pedir e fazer favores; dizer coisas positivas sobre os demais; apresentar ideias e opiniões; dar e pedir informações; assertividade; dizer não; expressar sentimentos; dar e receber feedback negativo e positivo (Caballo, 2003). 
Loureiro et al. (2008) afirmam que embora os fóbicos sociais pareçam ter baixo repertório de comportamentos habilidosos socialmente, o que pode ocorrer é um desempenho inadequado de tais habilidades devido à inibição durante estados de alta ansiedade. Neste sentido, é desejável que também sejam desenvolvidas e estimuladas as habilidades de enfrentamento destes indivíduos.
No filme, o rei George busca tratamento para sua dificuldade em falar em público, encontra um terapeuta que o ajuda a superar essa dificuldade. Através de várias técnicas, o medo e ansiedade de George diminuem. Com o treino constante da voz ele se habitua a ouvir sua própria voz, reconhece e identifica as maiores dificuldades e as aprimora com os treinos sugeridos pelo terapeuta. As habilidades necessárias para George conseguir realizar seus discursos são desenvolvidas no decorrer do tratamento e essas habilidades são generalizadas para outras situações de sua vida.



Referências
American Psychiatric Association (2014). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (5ª ed.) Porto Alegre: Artmed.

Borges, N. B..; Cassas,F. A. (Orgs). (2011). Clínica analítico-comportamental: aspectos teóricos e práticos. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 105-109.

Caballo, V. E. (2003). Manual de avaliação e treinamento das Habilidades Sociais. São Paulo: Livraria Santos Editora.

Del Prette, A.; Del Prette, Z. A. P. (2001).  Psicologia das relações interpessoais: Vivências para o trabalho em grupo. Rio de Janeiro: Vozes.

Loureiro, S. R.; Morais, L. V.; Crippa, J. A. S. (2008). Os prejuízos funcionais de pessoas com transtorno de ansiedade social: uma revisão. Revista de psiquiatria. Rio Grande do Sul, Porto Alegre,  v. 30,  n. 1.

Silvares, E. F. M.; Meyer, S. B. (2000). Análise funcional da fobia social em uma concepção behaviorista radical. Revista Psiquiatria Clínica. (São Paulo); 27(6):329-34, nov.-dez. 2000

Rangé, B.; Levitan, M.; Nardi, A. E. (2008). Habilidades sociais na agorafobia e fobia social. Psicologia: Teoria e Pesquisa,  Brasília ,  v. 24, n. 1.  


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